Em 92, US$ 100 e mímica valem “maior defesa da história” do Tricolor

A primeira Libertadores conquistada pelo São Paulo, em 17 de junho de 1992, terminou com Zetti saltando em seu canto esquerdo para espalmar a cobrança de pênalti de Gamboa. A defesa é considerada pelo goleiro “a maior da história” do clube. E foi possível graças a uma semifinal decidida em 11 a 10 nos penais assistida com um ingresso de cambista e muita mímica na final no Morumbi.

Dois personagens que definiram aquele histórico pulo do camisa 1 foram reunidos pela Gazeta Esportiva.Net para relembrar o ocorrido. Zetti abriu as portas de sua academia especializada em treinar goleiros, a ‘Fechando o gol’, em Santo Amaro, na capital paulista, para o preparador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes. O mentor foi decisivo para o título semanas antes de o troféu ser erguido.

Aquele salto de Zetti começou a ser definido em 3 de junho. Em Cáli, o América local enfrentaria o Newell’s Old Boys no segundo jogo da semifinal após empatar por 1 a 1 em Rosário, na Argentina. Como de costume, o preparador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes foi enviado pelo técnico Telê Santana à Colômbia para observar quem seria o adversário do Tricolor na final – na época, não existia celular, internet ou tantos jogos televisionados.

 

“O avião atrasou em Cáli e cheguei ao estádio quase no início do jogo. Estava lotado. A entrada devia custar US$ 15, US$ 20. Dei US$ 100 para um cambista e ele me botou quase dentro do campo”, relembrou Valdir, que fez análises táticas, como o destaque à qualidade do zagueiro Gamboa na bola defensiva pelo alto.

Outro fator, porém, acabou sendo mais decisivo. Como o jogo terminou 1 a 1, a definição foi para os pênaltis. E a incomum vitória argentina em 11 a 10 deu muito material para o preparador trabalhar com seu goleiro. “Foram 15 pênaltis. E fui anotando. Vi mais ou menos as características. Todo batedor tem um lado que é seu forte e nossa intenção é fazer o batedor mudar a característica, bater em outro canto com a possibilidade de errar.”

De volta ao Brasil, Valdir combinou uma estratégia com Zetti e o reserva Alexandre. Preparou uma lista relatando em que canto e a que altura cada um dos jogadores, identificados por seu número, batiam. Se o campeão fosse definido nos pênaltis, o suplente faria mímica da linha lateral, à altura do meio-campo, e o preparador ainda ficaria atrás do gol tentando recordar seu pupilo no grito.

Ao longo das semanas, tudo também foi praticado no CT da Barra Funda. “Nos treinamentos, combinamos que o Gamboa chutava no canto esquerdo do goleiro, à meia-altura. Falei: ‘Zetti, ameaça ir para o canto direito, mas não sai do chão, só dá um embalo, para ele achar que pode bater no canto esquerdo’”, disse Valdir.

Na primeira final, na Argentina, não foi possível evitar o gol de pênalti de Berizzo. A derrota por 1 a 0, porém, foi devolvida no mesmo placar no Morumbi em cobrança convertida por Raí. Com o apito final, era a hora de o ensaio ser utilizado na prática, em um Morumbi lotado. E já se sabia que Valdir, atrás do gol, pouco poderia fazer.

“Não dava para ouvir, ficou muita gritaria, era muita tensão. Eu já tinha visto a lista, mas não dá para lembrar na hora e não conseguia ver o número. O Alexandre ficou com a lista no meio do campo e fazia os gestos para indicar o lado indicado e se seria rasteiro, à meia-altura ou no alto. Eu procurava seguir”, lembrou Zetti.

Mas não seguiu. Berizzo bateu a primeira cobrança no pé da trave esquerda, e o camisa 1 do São Paulo pulou do outro lado, contrariando seu preparador. “Talvez ele não tenha ouvido, mas o xinguei”, contou Valdir. “No primeiro eu troquei ou ele”, tentou se defender Zetti, sorrindo diante da bronca.

Na sequência, Raí converteu no canto direito. Zamora empatou batendo no canto direito (o contrário do escolhido por Zetti, que não levou bronca). Ivan encheu o pé no meio da meta, Llop chutou de forma indefensável no ângulo esquerdo e Ronaldão empatou ao cobrar em cima do goleiro Scoponi. Na quarta cobrança do Newell’s, Zetti acertou ao saltar no canto esquerdo, mas nem precisava porque Mendoza jogou por cima. “Ele tirou porque viu que acertei e chutou por cima”, afirmou Zetti.

Quando Cafu balançou as redes no canto esquerdo, a decisão ficou literalmente nas mãos do goleiro do São Paulo. A torcida alternava os gritos “é campeão” e “Zetti”. Ninguém esperava que Pintado precisasse bater a quinta cobrança a favor dos brasileiros. “Eram mais de 100 mil gritando meu nome para eu fazer a defesa, mas não podia me empolgar com isso e sair antes. Ficava na cabeça: ‘o Gamboa não pode me enganar’.”

Zetti nem pensou em contrariar Valdir. Apostou no canto esquerdo e virou herói. “Aquela foi a defesa mais importante da minha carreira e da história do São Paulo, porque deu o título da Libertadores que levou a outras sequências positivas muito boas. Ali partiu para um título internacional que rendeu anos seguidos”, disse o goleiro.

“O Gamboa era um grande jogador. E não perdeu o pênalti, não. O Zetti que pegou. O goleiro faz uma enorme de uma defesa e falam que o batedor chutou mal. Só perdeu se chutou para fora. É necessário exaltar o goleiro”, ainda cobra Valdir de Moraes, relatando que o salto foi em direção à bola e à consagração eterna. “O jogador só é valorizado quando conquista alguma coisa. O Zetti amadureceu em 1992, defendeu pênalti na Libertadores e foi campeão, isso jamais será esquecido. Adquiriu um status, como o Rogério e o Marcos por conquistarem algo de importância.”

O pupilo, 20 anos depois, concorda. “O pênalti não é uma defesa difícil, como todos falam. Defesa difícil você faz durante o jogo. Goleiro em time grande tem que fazer milagre todos os dias, dois, três por partida. Mas o pênalti marca a história de uma decisão, torna-se a defesa mais importante de uma partida”, falou Zetti, que considera aquela sua melhor fase na carreira. “A Libertadores me levou para a Seleção Brasileira em 1992. Foi tudo correto mesmo.”

Especialmente para Zetti, foi a confirmação de uma volta por cima. “Perdemos a final do Brasileiro para o Corinthians, em meu primeiro ano, e fui tachado de pé-frio porque vim do Palmeiras. No ano seguinte, conseguimos o título brasileiro e o paulista, então eu já tinha essa identificação com o São Paulo, eu já era um ídolo da torcida. A Libertadores veio consagrar por ser um título inédito e de peso”, considerou.

“Sou reconhecido por isso até hoje. Faz 20 anos! Entrei para a história do clube. E isso ninguém apaga. O Rogério Ceni tem a história dele, é o mito, sem dúvida é não só o maior goleiro, mas oo melhor atleta da história do São Paulo pelo tempo que ficou. Mas tive a condição de marcar meu nome desta forma”, continuou o último a ocupar o gol são-paulino antes de o recordista de jogos pelo clube assumir a posição em definitivo, há 15 anos.

A Libertadores de 1992 ratificou o posto de ídolo de Zetti no São Paulo, mas sua participação no torneio não foi perfeita. Nas quartas de final, o time venceu o Criciúma no Morumbi por 1 a 0 na ida. Na volta, em Santa Catarina, aos nove minutos de jogo, Zetti saiu errado na tentativa de cortar um cruzamento de Jairo Lenzi, trombou com Antônio Carlos e Soares não teve nenhuma dificuldade em balançar as redes.

A partida terminou 1 a 1, com a classificação paulista, mas o goleiro foi cobrado pelo lance. Mesmo 20 anos depois. No encontro promovido pela GE.Net, Zetti fez questão de mostrar a jogada em seu Ipad, na esperança de que Valdir de Moraes o apoiasse. Acabou ouvindo uma bronca bem-humorada.

“Lembro que me encheram o saco. Não acho que foi um lance tão grave”, opinou Zetti, logo sendo repreendido. “Para a tua categoria, foi. Não ensinei isso a ele”, falou Valdir. A partir daí, foi um diálogo, entre gargalhadas, de argumentos prontamente rebatidos. “Não deu para chegar, pô. Cruzamento no primeiro pau, o cara antecipou”, defendeu-se Zetti. “Você saiu rasteiro, no chão, pô”, cobrou Valdir. “Não dava. Olha, Valdir. Vê se me ajuda, pô! Olha de novo. Eu me choquei com o Antônio Carlos”, continuou o pupilo, abrindo um sorriso em seu mentor. “Tenho que ser sincero”, encerrou Valdir.

Bronca e brincadeira à parte, Zetti, apesar do lance, ressalta que tinha qualidade na saída do gol, até seguindo a ordem de Valdir de agarrar a bola ou, no mínimo, tirá-la da área. “Eu tinha uma condição muito boa que o Valdir cobrava muito a saída de gol, treinávamos muito desde a época do Palmeiras. Por ser alto, eu não tinha medo e gostava de fazer isso. Saía mesmo fora da área pequena, quase na marca do pênalti. Quando eu sentia que não dava, saía com soco. Por ter jogado vôlei, eu tinha um tempo de bola muito bom que me ajudou bastante”, lembrou o pupilo, com o consentimento do mestre com a cabeça.

Por isso, Zetti crê que foi criticado exatamente pelo nível de suas atuações anteriores. “Hoje os goleiros nem saem do gol e não falam nada. E é porque estamos devendo, ninguém sabe quem é o goleiro da Seleção. Na minha fase, para ser o melhor você tinha que fazer muita defesa. Eu tinha concorrentes muito fortes: Zé Carlos, Acácio, Taffarel, Carlos, Sérgio, Ronaldo, Carlos Germano, Velloso… Quando se tomava um gol discutível, por ser goleiro de Seleção, a cobrança era muito grande”, lembrou.

Fonte: Gazeta Esportiva

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