Flavio Marques

Endividamento do São Paulo Futebol Clube ultrapassa os R$ 500 milhões em 2019

As demonstrações financeiras do SPFC referentes ao ano de 2019 foram publicadas nesta quinta-feira, 30 de abril de 2020. O resultado do exercício mostra um déficit de R$ 156 milhões, aumento de endividamento em mais de R$ 220 milhões no período, aumento de 39% nas despesas e queda de 10% das receitas do Futebol comparado ao ano 2018. Neste artigo vamos abordar a questão do endividamento analisando cada um de seus componentes.

  1. Endividamento efetivo

O gráfico acima mostra o valor de endividamento efetivo do São Paulo Futebol Clube ao final de cada período entre os anos 2015 e 2019. Por endividamento efetivo estamos considerando os valores do Balanço Patrimonial, Passivo Circulante e Não Circulante, excluídas as contas de “Participação de terceiros em direitos econômicos”, “Adiantamento de Contratos” e “Receitas a apropriar” pois tem um caráter mais contábil do que prático.

Quando o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva assumiu o cargo no final de 2015 recebeu como herança de seus antecessores uma dívida de R$ 368 milhões de reais. Passados quatro anos de mandato do atual presidente da diretoria essa dívida chegou aos R$ 547 milhões. Vamos seguir cada uma das contas que compõem essa dívida para entender a evolução e seus motivos.

  • Dívida com Entidades Financeiras e Terceiros

Ao assumir em 2017 o cargo de Diretor Executivo Financeiro, Elias Albarello deu entrevista a órgãos de imprensa prometendo zerar a dívida com entidades financeiras e terceiros até o final de 2019. O gráfico abaixo mostra que a promessa não foi cumprida, e que essa parcela da dívida praticamente dobrou nos últimos dois anos, tendo crescido R$ 83 milhões em 2019.

Os empréstimos com terceiros foram de R$ 24 milhões em 31/12/2018 para R$ 31 milhões no final de 2019. O maior impacto foi do empréstimo do empresário André Cury (R$ 14,5 milhões), valor tomado para a contratação do atacante Raniel, que teve passagem apagada pelo Tricolor. Dessa dívida com Terceiros praticamente R$ 23 milhões vencem em 2020, portanto são de curto prazo. O clube ainda deve quase R$ 11 milhões a Vinicius Pinotti, ex-diretor de marketing e posteriormente de futebol da atual gestão, empréstimo tomado quando da contratação de Centurión em 2015 ainda na gestão Carlos Miguel Aidar.

O valor de empréstimos com entidades financeiras saltou de R$ 83 milhões para R$ 124 milhões. Esse endividamento foi basicamente para utilização como capital de giro, isto é, o pagamento de obrigações imediatas do clube. Com receitas declinantes e despesas crescentes o SPFC não tinha recursos suficientes em caixa para pagar suas despesas do dia a dia. Esse tipo de empréstimo costuma ter taxas altas e um efeito direto dessa dívida foi a incidência de R$ 38 milhões em despesas financeiras no ano, contra R$ 17 milhões em 2018. O acréscimo dessas despesas financeiras em comparação a 2018, R$ 21 milhões, seria suficiente para pagar um ano de um jogador do nível de Daniel Alves.

Autorizado pelo Conselho Deliberativo o São Paulo lançou em julho de 2019 o FIDC – Brasileirão. O FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) é uma maneira do Clube captar dinheiro no mercado a taxas de juros inferiores às aplicadas pelos bancos. Foram captados R$ 35 milhões de um valor previsto de até R$ 38 milhões por meio deste dispositivo. Relatório para a CVM em fevereiro de 2020 mostra uma taxa de captação de 12% a.a. Em função da má situação financeira da Instituição, e consequente aumento do risco, o SPFC teve que aumentar a taxa a ser paga aos investidores em comparação com o que se havia projetado inicialmente.

  • Contas a pagar

Sob a descrição ampla de “Contas a Pagar” encontramos alguns dos maiores responsáveis tanto pelo aumento de endividamento como pelo déficit apresentado no ano pelo Tricolor.

A dívida do São Paulo Futebol Clube com intermediários subiu de R$ 10,6 milhões em 31/12/2018 para R$ 33,1 milhões no final de 2019, segundo a Nota Explicativa 17 das demonstrações financeiras. Esse aumento precisa ser explicado pela diretoria, pois no capítulo referente às receitas de venda de jogadores o clube declara no ano 2019 um valor de R$ 7,7 milhões de intermediação na venda de jogadores. Isso indica que estamos pagando taxas de intermediação na aquisição e renovação de contratos, o que precisa ser esclarecido pelos dirigentes do futebol. Entre os credores nesta lista temos empresas como Brazil Soccer, Fabio Mello Sports, Flash Forward Representações e Kirin Soccer entre outras.

Nesta conta está lançado o valor de R$ 25,4 milhões referente ao acordo feito com a CET. Entre o ano 2006 e 2018 o São Paulo Futebol Clube esteve em litígio com a Companhia de Engenharia de Tráfego por conta da taxa de serviços realizados pelo órgão municipal quando da realização de eventos no Morumbi.

Acordos trabalhistas homologados com atletas representam um valor de R$ 24,3 milhões nesta linha do Balanço. A maior parte do valor, senão a totalidade, é referente a diferenças no pagamento de Direito de Arena. Entre 2006 e 2011 o SPFC repassou aos jogadores um percentual de Direito de Arena inferior ao definido pela Lei Pelé (Lei 9.615/98). O clube repassava aos atletas 5% do valor obtido com direitos de transmissão, enquanto a Lei definia o percentual de 20%. Os dirigentes de então assumiram um alto risco e subestimaram o impacto da decisão que tomaram no momento. Após anos de recursos e embargos protelatórios, que só fizeram aumentar o bolo a ser pago devido à incidência de juros, o SPFC decidiu pelos acordos no ano passado. Entre os atletas que aceitaram o acordo com o São Paulo podemos citar Arouca, Borges, Diego Tardelli, Hugo e Junior César. Outros processos encerrados representaram ainda

perdas de R$ 1,5 milhões para o clube.

  • Entidades Esportivas e Federações

Em 2019 o SPFC investiu R$ 149 milhões em contratações de jogadores, trazendo atletas como Pablo, Tchê Tchê, Thiago Volpi, Hernanes, Vitor Bueno, Léo Pelé e Raniel, e com isso naturalmente aumentou o nível de dívida com outros clubes, no Brasil e no exterior.

Em três anos, de 2017 a 2019 o investimento total foi de R$ 295 milhões na contratação de atletas. Isso mostra que nosso fracasso esportivo não está relacionado à falta de investimentos, mas sim à incompetência da direção na aplicação dos recursos. Nas notas explicativas chama a atenção que ainda devemos R$ 17 milhões ao Porto e R$ 4 milhões à Roma pelas contratações de Maicon Roque e Bruno Peres respectivamete, enquanto outras contratações mais recentes já foram completamente quitadas.

  • Obrigações Trabalhistas e Direito de Imagem a pagar

Apesar da eliminações precoces na fase preliminar da Libertadores, no primeiro confronto da Copa do Brasil e uma classificação inferior à de 2018 no Campeonato Brasileiro, houve aumento de 30% nos gastos com pessoal e encargos sociais no departamento de futebol: R$ 147 milhões em 2019 contra R$ 114 milhões em 2018. Contratamos jogadores de alto salário e altos custos de imagem como Pato e Daniel Alves, sendo que por contrato a maior parte da remuneração desses dois atletas referente a 2019 seria paga em 2020 para não impactar o caixa Tricolor.  Com essas mudanças o valor a pagar de obrigações trabalhistas e direito de imagem subiu de R$ 25 milhões em 31/12/2018 para R$ 42 milhões no encerramento do ano 2019, acréscimo de R$ 17 milhões, ou 68% de aumento.

  • Obrigações Tributárias

Talvez o único ponto positivo desta análise. O São Paulo está cumprindo o calendário de pagamento de suas obrigações tributárias parceladas, composta por valores do PROFUT, FGTS e ISS, e reduziu o saldo a pagar dessas obrigações de R$ 71 milhões em 31/12/2018 para R$ 64 milhões no final do último período.

Entre as obrigações tributárias do último exercício o IPTU (R$ 1,4 milhões) e INSS (R$ 1,6 milhões) são as mais significativas de um total de R$  4,4 em débitos.

  • Provisão para Contingências

Explicando de maneira simplificada, fazer uma provisão para contingências seria o equivalente a reservar recursos para pagar dívidas que ainda não estão certas, mas que tem boa probabilidade de acontecer. No caso do SPFC essa provisão foi constituída a partir de demandas judiciais onde nossos consultores legais avaliaram o risco de perda da ação como “provável”.

Nesta cesta está o “caso Ricardinho”, em que uma reclamação dos  investidores no valor original de R$ 5,2 milhões no ano de 2004 chegou a um montante de R$ 25,7 milhões hoje, devido à correção monetária, juros e custas processuais associadas.

Processos trabalhistas com 18 atletas que jogaram no Tricolor entre 2006 e 2011, motivados basicamente devido às diferenças no repasse de Direitos de Arena, estão próximos de um acordo. Dessa forma mais R$ 37,4 milhões foram reconhecidos como perda provável e incluídos na provisão. Alex Dias, Edcarlos, Eder Luis, Lenilson e Renato Silva são alguns dos jogadores que receberão seus direitos, a serem pagos em 30 parcelas mensais e iguais.

Alguns valores adicionais foram adicionados à provisão em função de disputas judiciais, e outros baixados, como no “caso CET” que passou definitivamente ao contas a pagar. O saldo de R$ 56 milhões da provisão pode ser pequeno se confrontado com o total de processos em que nossos advogados classificam a perda como “possível”.

Em 31/12/2019 o São Paulo Futebol Clube possuía diversos processos cíveis, trabalhistas e tributários em andamento, perfazendo o montante de R$ 407 milhões.

  • Fornecedores

Este é o menor valor entre todas as dívidas do Clube, mas mostra a irresponsabilidade na gestão de nosso dinheiro. Mesmo tendo receitas inferiores às dos dois anos anteriores não houve qualquer preocupação no sentido de controlar os gastos relevantes, e nossa dívida com fornecedores chegou ao dobro do que era no final de 2017.

  • Conclusão

O Clube que já foi modelo de gestão, referência até para grandes equipes no exterior, hoje passa por uma profunda crise gerada pela própria incompetência de sua administração.

O relatório da administração culpa pelo mau resultado os acordos referentes a ações judiciais relativas a exercícios anteriores, algumas com até quinze anos de tramitação. O que esse relatório não detalha é que no período em que essas más decisões do passado foram tomadas o sr. Carlos Augusto de Barros e Silva já fazia parte da administração do Clube, tendo sido Vice Presidente durante o mandato de Juvenal Juvêncio. Ao atirar pedras no passado acertam a si mesmos. Bradam e discutem com o espelho, esperando ter razão.

3 comentários em “Flavio Marques

  1. O virus continuara por tempo indeterminado para o nosso time. Ja era, cambada de aproveitadores, nao sabem nem disfarcar tentando montar um time de respeito. Solucoes, tampar o caixao e deixar o defunto em paz, seria melhor. E dai.

  2. Corroboro, in totum, com a conclusão do amigo Flávio, decorrente da sua profunda e minuciosa análise da situação financeira da Instituição. Portanto, vale reiterar: “O Clube que já foi modelo de gestão, referência até para grandes equipes no exterior, hoje passa por uma profunda crise gerada pela própria incompetência de sua administração.” Culpar o passado, do qual foi parte integrante e ativa, o Sr. Leco chafunda ainda mais no lamaçal da sua gestão, sem dúvida, a PIOR desde a fundação do São Paulo FC.

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