São Paulo festeja 20 anos do dia em que pegou gosto por Libertadores

Maior obsessão dos clubes brasileiros atualmente, a Copa Libertadores da América não tinha o mesmo prestígio antes de 17 de junho de 1992. Foi depois da defesa do goleiro Zetti na cobrança de pênalti do defensor Fernando Gamboa, badalado como “símbolo sexual” pela imprensa argentina e como melhor jogador do Newell’s Old Boys na época, que o São Paulo se deu conta da importância do primeiro dos seus três títulos do torneio. Os 105.185 torcedores que pagaram ingresso para ir ao Morumbi há exatos 20 anos fizeram uma festa invejável e deixaram seus rivais obcecados para repetir o feito continental. “Jamais vi isso no Morumbi! Com tantos anos de estrada, as lágrimas me vêm aos olhos!”, confessou o narrador Galvão Bueno durante a transmissão da TV Gazeta, impressionado com a multidão que invadira o campo.

Antes daquele jogo decisivo contra o Newell’s Old Boys, no entanto, o São Paulo dificilmente conseguia atrair grandes públicos para as suas partidas na Libertadores de 1992. Houve menos de 10.000 pagantes no Morumbi em todas as rodadas da primeira fase. Até o técnico Telê Santana não se mostrava nem um pouco empolgado com a competição. Ele escalou uma equipe repleta de jogadores considerados reservas para a estreia contra o Criciúma, em 6 de março, pois a prioridade do clube era a conquista do Campeonato Brasileiro – algo inimaginável nos dias de hoje. Em suas entrevistas, o comandante também não perdia nenhuma oportunidade de diminuir a competição organizada pela Conmebol.

O jornal A Gazeta Esportivade 3 de março daquele ano, por exemplo, tornou pública uma série de reclamações de Telê à Libertadores. “Gosto de vencer jogando bola. Por isso, não me animo com essa competição. Mas, enfim, sou técnico do São Paulo e vamos entrar firmes”, conformou-se. Alguns problemas que ainda perduram na América do Sul também incomodavam o treinador. “Os outros times fazem o que bem entendem na Libertadores. A gente sofre horrores, com pedradas e arbitragens facciosas. Os dirigentes brasileiros protestam, mandam relatórios, e não adianta nada. Fazer o quê?”, indagava. “Os adversários vêm aqui e a eles é oferecido um Morumbi, um Maracanã, um Beira-Rio. Lá, somos obrigados a jogar em campos bem próximos aos da nossa várzea. É um negócio desleal.”

O fato de Telê Santana desmerecer seguidamente a Libertadores irritou o paraguaio Nicolás Leoz, que já ocupava a presidência da Conmebol naquele período. O dirigente não gostou de ouvir que o seu torneio era vencido “nos bastidores” e ameaçou punir o treinador às vésperas da primeira rodada. Além de suas ressalvas em relação à competição, o comandante do São Paulo tinha outras justificativas para contrariar Leoz e poupar titulares contra o Criciúma. Seu time enfrentaria uma maratona de 13 jogos em 39 dias a partir de então. O destaque Raí já avisava: “Não sou de ferro”. O atacante Muller, ameaçado de ficar quase um mês afastado em função de lesão na coxa direita, ia além: “Não quero mais jogar a meio pau”.

 

Os únicos titulares do São Paulo escalados para iniciar o jogo contra o Criciúma foram o goleiro Zetti, os zagueiros Antônio Carlos Zago e Ronaldão (ainda chamado de Ronaldo) e o meio-campista Suélio. Os desfalques serviram para Telê Santana testar algumas jovens promessas do clube, como o habilidoso Catê. “Se fui escalado, é porque o treinador acredita no meu potencial”, disse o jogador, que morreu em um trágico acidente automobilístico em 27 de dezembro do ano passado. A disposição dos novatos não foi suficiente para largar bem no grupo 2. No Estádio Heriberto Hülse, que acabara de ter a sua capacidade ampliada de 20.000 para 30.000 lugares, nem as entradas de Raí e Cafu no decorrer do confronto salvaram o Tricolor da derrota. Jairo Lenzi, Gelson e Adílson anotaram no triunfo por 3 a 0 do time da casa.

Foram os tropeços, contudo, que fizeram Telê Santana deixar de lado a sua birra com a Libertadores e passar a se interessar pela competição. O São Paulo viajou para a Bolívia, para os compromissos contra San José e Bolívar, pressionado a voltar a vencer depois de cinco derrotas consecutivas – entre elas, uma goleada por 4 a 0 para o Palmeiras. A excursão custou Cr$ 40 milhões ao clube. Ganhar era tão importante que o preparador físico Moraci Sant’anna passou antecipadamente pelas cidades de Oruro e La Paz para realizar simulações de jogo na altitude boliviana. O elenco também estava animado com a possibilidade de reverter o mau momento no exterior. “Sair do Brasil por alguns dias será providencial”, comentou Zetti. Raí, que havia levado cinco pontos na testa por causa de um corte sofrido diante do Internacional, desta vez garantia a sua presença em campo: “Não foi nada grave. Já cicatrizou bem”.

Chegando a Oruro, a delegação do São Paulo enfrentou muito frio e ficou preocupada com as informações de que a Bolívia registrara 32 casos de cólera no último mês. O fisiologista Turíbio de Barros alertou os atletas a ingerirem apenas água e frutas que lhes fossem fornecidas pela comissão técnica. Quem permaneceu no Brasil enfrentava problemas maiores. Afastados do elenco e à espera de novos contratos, três jogadores revelavam necessidades financeiras enquanto ainda treinavam no clube, segundo noticiava a imprensa: Edmílson, que vendia camisetas para aumentar a sua renda, Baiano, a meses de se tornar pai, e Vizolli, com uma mensagem em louvor a Deus na secretária eletrônica do telefone de sua casa. Os líderes do elenco prometeram intervir e representar os companheiros perante a diretoria.

Palhinha garantiu que o São Paulo não fosse arrebatado pela crise na Bolívia. Com três gols, o atacante vindo do América-MG assegurou a vitória por 3 a 0 sobre o San José, a primeira de seu time na Libertadores de 1992, em 17 de março, no Estádio Jesús Bermúdez. Religioso, ele já começava a se sentir à vontade no clube do Morumbi. “Logo que cheguei a São Paulo, o Muller me convidou para ir a uma igreja evangélica, e eu gostei. É bem melhor do que perder tempo com besteiras. Já sou frequentador assíduo do pastor Jobes”, contou o comportado jogador para o diário A Gazeta Esportiva, celebrando a boa fase pessoal – seria o artilheiro do campeonato, com sete gols marcados. Raí também se entusiasmou: “Vir para a Bolívia fez bem ao São Paulo”.

 

No segundo compromisso em solo boliviano, as dificuldades aumentaram. Raí só anotou o gol de empate por 1 a 1 com o Bolívar, no Estádio Hernando Siles, em 20 de março, a sete minutos do final da partida. Telê Santana ficou revoltado – não com o resultado: “Se em Oruro fomos bem recebidos, o mesmo não podemos dizer de La Paz. Fomos maltratados pela polícia e até pelo delegado do jogo. O juiz [Jorge Orellana] ainda ajudou muito o Bolívar. Fomos hostilizados. Mas, no Morumbi, seremos educados com eles”. De qualquer forma, o São Paulo se reergueu depois da estadia na Bolívia – logo na sequência, goleou o Atlético-PR por 5 a 0, pelo Campeonato Brasileiro, apesar dos empates sem gols com Corinthians e Sport nas rodadas posteriores.

Terminados os jogos como visitante da primeira fase da Libertadores, o São Paulo esperava confirmar a sua classificação para o mata-mata nos duelos dentro do Morumbi. O primeiro adversário seria o Criciúma do técnico Levir Culpi, que se derretia em elogios ao time do Morumbi, então campeão brasileiro. O Tricolor justificou a veneração em 1º de abril, Dia da Mentira. Fez 4 a 0 e apresentou um futebol convincente de verdade, com gols de Raí, Palhinha, Elivélton e Muller. “Até Telê aplaudiu”, descreveu A Gazeta Esportivaem sua manchete. “Vi o São Paulo jogando como na temporada passada. Foi um grande jogo”, analisou o sisudo comandante, permitindo-se sorrir.

Satisfeita com a boa apresentação, a diretoria do São Paulo aumentou a premiação ao elenco por vitória sobre o San José para US$ 600 (Cr$ 1,2 milhão). O triunfo por 3 a 0 obtido fora de casa sobre os bolivianos na partida de ida deixava a equipe ainda mais confiante. Muller, nem tanto: “O San José não será essa galinha morta que estão falando por aí”. Pouco depois da declaração, o atacante acabou vetado em função da antiga contusão na coxa direita e causou polêmica sobre as suas reais condições de jogo. Para piorar, Macedo foi seu substituto e teve uma atuação muito criticada pela torcida. “Ouvi o Morumbi inteiro me vaiar e até fazer um coro para dizer que eu era veado. Tudo isso me chocou muito”, lamentou o atleta, após o empate por 1 a 1 (o único ponto conquistado pelo San José em toda a competição). Palhinha fez o gol são-paulino.

Uma semana depois, em 14 de abril, o São Paulo teve a chance de reagir contra mais um oponente da Bolívia, o Bolívar. E conseguiu. Com gols de Antônio Carlos e do então contestado Macedo, a equipe dirigida por Telê Santana fez 2 a 0 e sacramentou classificação para as oitavas de final como segundo colocada do grupo 2, com 8 pontos ganhos. O líder foi o Criciúma, que somou 9. Apesar de ficar atrás do time catarinense na tabela, o resultado final da etapa de grupos era comemorado. A Gazeta Esportiva definiu o último jogo do Tricolor como “um massacre”. Fora de campo, o presidente José Eduardo Mesquita Pimenta também vibrava: havia sido reeleito ao derrotar por 37 votos de diferença o opositor Waldemar Mariz de Oliveira. Em seu discurso, o mandatário mostrava que a Libertadores começava a ser vista de outra forma: “Ganhamos dois títulos importantes no ano passado, mas a nossa meta agora é a Libertadores, o Mundial de Tóquio e o próprio Campeonato Brasileiro. Este é o grande São Paulo”.

O primeiro ato de Mesquita Pimenta em seu novo mandato, entretanto, conturbou o ambiente do São Paulo. Expulso em um empate por 1 a 1 com o Goiás, o lateral esquerdo Nelsinho foi afastado do elenco à revelia de Telê Santana. Curiosamente, o discurso da diretoria da época foi o mesmo que a atual, 20 anos depois, utilizou ao tirar o zagueiro Paulo Miranda do time sem a concordância de Emerson Leão. “A diretoria é soberana na decisão. O Telê só foi comunicado”, afirmou o diretor de futebol Fernando Casal Del Rey. O técnico se esquivou: “Quero dizer que não fui eu quem afastou o Nelsinho. A decisão foi tomada pela diretoria. Sou funcionário e trabalho com o que eles me dão. Nunca briguei com o Nelsinho. Tive um problema com o Zé Teodoro no ano passado e nem por isso deixei de escalá-lo”.

 

Nelsinho era jogador do São Paulo há mais de uma década, formado no clube. Seu afastamento deixou inconformados os companheiros de equipe horas antes do primeiro jogo contra o uruguaio Nacional, pelas oitavas de final da Libertadores. Ainda assim, o time conquistou uma vitória por 1 a 0 em 28 de abril, no Estádio Centenário, com gol – não festejado pelos atletas – de Elivélton. “Estava chateado e não comemorei. Foi algo emocional, e não premeditado”, explicou Raí. Outro líder do grupo tricolor, Zetti foi expulso em Montevidéu. “Estou triste. É o primeiro cartão vermelho da minha carreira”, lastimou o goleiro, punido com dois jogos de suspensão pela Conmebol.

No retorno ao Brasil, os jogadores do São Paulo encontraram novo motivo para se indispor com dirigentes. Nelsinho foi dispensado do clube e ganhou seu passe livre. A diretoria já até havia iniciado a busca por um substituto para a lateral esquerda. Chegou a anunciar a contratação por empréstimo de Roberto Carlos (que viria a se destacar no Palmeiras, na Seleção Brasileira e no espanhol Real Madrid e ainda jogaria pelo Corinthians no final da carreira), por US$ 250 mil mais a cessão temporária de Baiano, Ivan, Vitor, Cláudio e Gilmar Oliveira. O negócio só não vingou porque o União São João de Araras não quis liberar sua promessa de imediato, o que forçou o Tricolor a apostar em Marcos Adriano, do Operário-MS, como reforço.

Com o objetivo de fazer as pazes com a diretoria antes do duelo decisivo com o Nacional, os jogadores se reuniram para conversar a sós na concentração. Raí, mais tarde, apareceu em público para apaziguar: “A saída do Nelsinho foi uma decisão da diretoria. Não houve briga entre ele e o Telê. O fato ocorreu na hora errada, e o Nelsinho ficou sem clima para voltar. Vamos tentar conquistar os títulos deste ano e dedicar a ele”. A dedicatória seria esquecida no futuro, até porque Nelsinho escolheu o rival Corinthians para dar sequência à carreira. Resolvida a intriga, o São Paulo voltou a se concentrar na disputa pela vaga nas quartas de final da Libertadores. O prata da casa Alexandre foi confirmado como substituto do suspenso Zetti no Morumbi. “A torcida pode ficar tranquila porque não vou decepcionar”, prometeu. E cumpriu. Em 13 de maio, ele teve uma atuação destacada na vitória por 2 a 0 sobre os uruguaios no Morumbi. Os gols foram dos zagueiros Ronaldão e Antônio Carlos.

O adversário do São Paulo nas quartas de final era um antigo conhecido da primeira fase, o Criciúma. Alexandre, vítima fatal de um acidente de automóvel em 18 de julho daquele ano (o que abriu espaço para Rogério Ceni ascender no clube), foi mais uma vez o substituto de Zetti. “Não vou jogar, mas estarei no Morumbi para apoiar o Alexandre”, incentivou o titular. Seu reserva novamente se saiu ileso, e o Tricolor ganhou por 1 a 0 graças a um belo gol de Macedo, no final do jogo. “Marquei um gol de Pelé. Fiz tudo muito rápido. Dominei a bola, girei o corpo e concluí. O goleiro ainda tentou defender, mas nem o Taffarel pegaria aquele chute”, orgulhou-se o atacante, findando a desconfiança dos torcedores. “Fiquei arrepiado quando a massa gritou o meu nome na hora do gol. Acho que dei mais de mil autógrafos depois. Sempre entendi a torcida. Ela que não me entendeu em alguns momentos.”

 

A alegria de Macedo não contagiou Telê Santana, indignado com a atuação do árbitro Renato Marsiglia. O técnico solicitou o veto do profissional “fraco e ruim” em todas as partidas do São Paulo a partir de então. Estendeu suas críticas ao time do Criciúma, que jogou defensivamente no Morumbi. Aquelas declarações abalaram completamente a admiração que ele inspirava em Levir Culpi. O comandante da equipe catarinense rebateu de maneira irônica, furiosamente: “Tenho muito a aprender com o Telê na parte tática, mas principalmente nas entrevistas. Nisso, ele é um mestre. Disse que fomos desleais… Fomos duros, o que é normal em um jogo que vale vaga nas semifinais da Libertadores. O Ronaldo, do São Paulo, joga como nós, usando a força física e dividindo com toda a vontade. O que o Telê acha disso? Não foi jogando atrás que o São Paulo empatou com o Bragantino na final do Brasileiro do ano passado? E com o Palmeiras nas semifinais do Paulistão? Foram dois jogos de 0 a 0 deles. Onde está o time ofensivo do Telê?”.

Uma postura adotada pelo São Paulo desde o princípio da Libertadores enervava o Criciúma tanto quanto as críticas de Telê Santana. A diretoria do clube do Morumbi se encarregava de pagar por exames antidoping quando a Conmebol não o fazia – contraditoriamente, o são-paulino Zetti seria flagrado dois anos depois, a serviço da Seleção Brasileira em La Paz, porém escaparia de punição ao alegar que havia ingerido chá de coca. “Essa desconfiança mostra que eles não nos conhecem”, chiou Levir Culpi, antes de recordar uma goleada que a sua Internacional de Limeira havia aplicado no Tricolor em 1991. “Quem sabe consigo ganhar do Telê novamente por 4 a 1?”, provocou o treinador, que trabalharia no Morumbi em 2000.

No Heriberto Hülse, em 20 de maio, a torcida do Criciúma se juntou a Levir Culpi e vaiou Telê Santana com afinco. O time da casa até saiu à frente no placar, com gol de Soares, porém Palhinha igualou aquele jogo nervoso em 1 a 1. Raí e Jairo Lenzi (que queria se transferir para o São Paulo) brigaram e foram expulsos pelo árbitro Márcio Rezende de Freitas. Em oposição à hostilidade da partida, um atleta da equipe eliminada – e aplaudida, em reconhecimento ao esforço – abraçou os rivais e fez planos ambiciosos ainda no gramado. “Quero entrar na política. Vou concorrer a vereador primeiro para, um dia, ser presidente do Brasil”, prometia o goleiro Alexandre, do Criciúma. Ele se candidatou ao cargo parlamentar pelo Partido Progressista (PP) anos depois, porém não foi eleito e virou técnico de futebol.

Semifinalista da Libertadores contra o equatoriano Barcelona, o São Paulo se engajou definitivamente no que chamava de “projeto Tóquio”. A diretoria estabeleceu que pagaria Cr$ 6 milhões para cada atleta como premiação em caso de uma vaga na decisão e Cr$ 15 milhões pela conquista do título. Raí, suspenso do primeiro jogo contra a equipe de Guaiaquil, bradava: “Já ganhamos muitos títulos no Brasil e agora podemos entrar na história com uma Libertadores. Não há dinheiro que pague isso”. O ídolo não fez falta no jogo de ida da semifinal, em 27 de maio, no Morumbi. Seu time venceu por 3 a 0, balançando as redes com Muller, Palhinha e Rinaldo. O destaque ficou para o primeiro dos três jogadores, autor de seu centésimo gol como são-paulino ao receber um passe em profundidade de Adílson aos cinco minutos do primeiro tempo e vencer o goleiro Cevallos com uma conclusão sutil. “Tudo isso é gratificante, mas não vou parar por aqui. Ainda tenho muito a mostrar para a torcida”, afirmou Muller.

 

Com a classificação para a final muito próxima, o São Paulo fretou o voo KK-7000, com 108 lugares para dirigentes, time e torcedores, para ir a Guaiaquil. Todo o cuidado era pouco na viagem. O médico Héldio Gaspar, por exemplo, cismou com um açúcar de cor muito escura do hotel onde o Tricolor se hospedou e voltou a orientar os atletas a só beberem águas de garrafas abertas na hora. Alheio à preocupação da comissão técnica, Palhinha falava em se inspirar no amigo Muller para também construir uma longa história de sucesso no Morumbi. De preferência, fazendo gestos de manivela – inspirados no filho André, então com 3 anos – para celebrar seus gols. “Vi o menino comemorando assim e resolvi imitar. Se for possível fazer mais manivelas, será legal”, sorriu o atacante. Não foi possível. Apesar do favoritismo, sua equipe perdeu por 2 a 0 para o Barcelona, com gols de Gavica e Gílson, e quase desperdiçou a chance de chegar à decisão continental.

O mau desempenho em Guaiaquil alarmou Telê Santana antes da final contra o Newell’s Old Boys, da Argentina. “Alguns jogadores caíram bastante de rendimento”, notou o treinador, que solicitou o adiamento do jogo com o Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro, para melhor preparar o seu time. Raí, depois de se revezar entre compromissos do São Paulo e amistosos da Seleção Brasileira, aceitou a cobrança: “Também acho que estou deixando a desejar. Não venho conseguindo jogar legal, mas estou procurando melhorar. O que me preocupa é a parte física. O cansaço me pegou”. Por sua vez, Cafu dava a receita para vencer o desgaste e ainda o oponente argentino: “Garra é tudo”.

 

Do outro lado, ao contrário, prevalecia a confiança. Com suas madeixas lisas e compridas, geralmente presas por uma tiara ou um rabo de cavalo, o zagueiro Fernando Gamboa não se intimidava para desmerecer o São Paulo depois da sofrida classificação com vitória por 11 a 10 em disputa de pênaltis com o América de Cali, da Colômbia. “O São Paulo é mais fraco do que o América. Não creio que haverá dificuldade”, esnobava o atleta, que agora adota um corte de cabelo mais tradicional na condição de técnico. O comandante Marcelo ‘El Loco’ Bielsa, que chegaria a dirigir a seleção argentina e hoje comanda o espanhol Athletic de Bilbao, mostrava-se mais respeitoso. Quase sempre mastigando chocolates, ele estudou o rival brasileiro através de muitas fitas VHS e assustou-se quando soube que o atacante Elivélton estaria em campo: “Mas ele não tinha se machucado? Precisaremos tomar cuidado”.

O São Paulo também estudou seu adversário. O preparador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes acompanhou a semifinal entre Newell’s Old Boys e América de Cali e fez alertas sobre o galã Gamboa: “O quarto zagueiro Pochetinno é alto e sai mais, enquanto o Gamboa fica na cobertura, inclusive dos laterais Saldanha e Berizzo. Este Gamboa é um leão na defesa. Insistir no chuveirinho contra ele é perda de tempo”. Como se não bastasse um espião, o Tricolor recorreu ainda aos conselhos de seu ex-goleiro Poy, argentino e ídolo do Rosario Central – maior rival do Newell’s, que viajou antecipadamente para Rosario com a missão de ser mais um auxiliar de Telê Santana. “Foi no Rosario que comecei a minha carreira, em 1943. Sou sócio vitalício. Nossos torcedores não se bicam com os do Newell’s, e isso é normal. Vou torcer pelo São Paulo. Foi no Morumbi que deslanchei. Gostei tanto que moro no Brasil até hoje”, discursou.

Uma primeira final truncada no Estádio Monumental de Rosário, em 10 de junho, deixou as duas equipes mais reticentes para o último jogo. Nem mesmo Gamboa, que já despertava interesse do Palmeiras (através de um empréstimo jamais concretizado, que teria a ajuda do italiano Parma) quis se vangloriar do 1 a 0 a favor do Newell’s Old Boys, com gol de pênalti de Berizzo aos 38 minutos do primeiro tempo. “Nunca disse que o São Paulo era mais fraco do que o América, até porque sei que é o atual campeão brasileiro. O que eu quis dizer é que estávamos mais motivados, por isso seria difícil o São Paulo nos vencer”, tentou corrigir o zagueiro. Pelo Tricolor, Palhinha se defendia de contestações sobre a piora na reta decisiva da Libertadores: “Não sou pipoqueiro. Joguei mal em Rosário porque não era o meu dia”.

17 de junho de 1992: este era o dia não somente de Palhinha, mas de todos os são-paulinos. O Morumbi ficou lotado para a primeira conquista de Libertadores do São Paulo. O clube conseguiu tirar até Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de suas acomodações no Rio de Janeiro. “Os amigos da crítica carioca têm esse costume de dizer que não sou de ir a estádio de futebol. Mas vou acompanhar uma decisão mais uma vez e, para variar, do São Paulo. O São Paulo hoje é Brasil”, discursou o mandatário, em encontro com dirigentes da Federação Paulista de Futebol (FPF) e da Conmebol. Eles seguiram de comitiva para o estádio do Tricolor, e a população ganhou transporte gratuito de ônibus para o estádio. A procura por entradas foi tamanha que uma boa parte do público não conseguiu cruzar as catracas para torcer nas arquibancadas.

Em campo, novamente São Paulo e Newell’s Old Boys fizeram uma partida acirrada. O pênalti que decidiu o jogo por novo 1 a 0 desta vez foi para o Tricolor, convertido por Raí aos 22 minutos do segundo tempo. O campeão seria definido nas penalidades. Berizzo, que havia marcado no jogo de ida, foi o primeiro a desperdiçar pelos argentinos ao bater na trave. Raí, Ivan e Cafu acertaram pelos brasileiros, que erraram quando Ronaldão chutou no meio do gol. Zamora e Llop recolocaram os visitantes na disputa pelo troféu. Foi então que Zetti brilhou. O goleiro viu Mendoza concluir por cima da meta e depois defendeu a cobrança de Gamboa – justo a dele – para confirmar a conquista da Copa Libertadores da América de 1992.

 

Festa no Morumbi. A histórica invasão de campo da torcida tricolor para festejar o título provou que Telê Santana (agora com proposta para trabalhar em um clube japonês) não estava completamente certo em suas críticas à Libertadores. Gino Orlando, gerente do estádio, tentava minimizar os estragos provocados pela euforia da torcida: “Em outras ocasiões, foram feitos danos bem maiores e ninguém deu tanto destaque”. Se o local do título não sofreria alterações sensíveis por causa daquela comemoração, as vidas dos jogadores envolvidos, sim. Futuro capitão da Seleção Brasileira campeã mundial em 2002, Cafu já se preparava para economizar a fortuna que viria com o sucesso, mesmo a bordo do seu novo Santana GLS 92. “Aplico o meu dinheiro, pois sei que vem fácil e vai fácil”, conscientizou-se o lateral. Raí, Ronaldão e Antônio Carlos temiam a superexposição e ameaçavam processar dois jornais que publicaram fotografias do trio pelado. “Baixaram o nível. Somos pessoas públicas e procuraremos nossos direitos”, avisou o meia.

A torcida do São Paulo, no entanto, não estava preocupada com nada. Duas décadas depois, aquela vitória sobre o Newell’s Old Boys ainda é lembrada com saudosismo como um dos grandes feitos de um dos maiores esquadrões do clube do Morumbi. Conforme atestou a edição de A Gazeta Esportiva do dia seguinte ao da conquista tricolor: “O São Paulo está no futebol do primeiro mundo como legítimo campeão da Taça Libertadores da América. E o futebol mais uma vez foi caprichoso: Telê Santana, que se despediu da Seleção Brasileira em cobranças de pênaltis, chega ao título mais importante de sua carreira no mesmo tipo de decisão. E Zetti, que andou falhando durante a Libertadores, virou herói ontem à noite. Macedo entrou e mudou o jogo, sofrendo o pênalti da vitória (Raí converteu), aos 22 minutos do segundo tempo. Tudo parecia muito fácil. Um estádio enorme, bem ao contrário do que os argentinos gostam. Uma torcida numerosa e que não deixou um minuto de apoiar o time”. Naquele mesmo ano, algo ainda maior estava reservado para os são-paulinos: o primeiro título mundial do clube, sobre o poderoso Barcelona, da Espanha, no Japão. O “projeto Tóquio” finalmente havia sido desengavetado.

Fonte: Gazeta Esportiva

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