Flávio Marques

No lo creo en brujas, pero que las hay, hay

Não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. Em espanhol essa frase tem muito mais impacto.

Ao norte de Buenos Aires, o município de Tigre se encontra no delta do Rio da Prata. O rio Tigre forma canais em que habitações flutuantes abrigam boa parte de sua população. Os atracadouros hospedam embarcações turísticas e de serviço. A vida em Tigre, principalmente após o pôr do sol, tem um quê de mistério e do desconhecido.

A equipe local, o Club Atlético Tigre, manda seus jogos no pequeno Estádio José Dellagiovanna, conhecido como Monumental Victória, que comporta pouco mais de 20.000 espectadores. Fundado em 1902 o time esteve durante quase toda sua existência disputando as divisões inferiores do futebol dos hermanos, sem grande destaque. A exceção foi o ano de 2012, quando chegou à disputa da final da Copa Sul Americana contra o São Paulo Futebol Clube.

Diz a lenda que houve importante participação do Brujo Manuel naquela campanha histórica. Manuel Valdez, conhecido como Brujo Manuel, já teve seus serviços requisitados por Estudiantes de La Plata, Independiente e até mesmo pela seleção Argentina nas eliminatórias para a Copa da Rússia. Dizem que naquele ano o Brujo Manuel acompanhou o Tigre na Sul Americana, registrado como membro da equipe de apoio, em todos os jogos da competição.

São Paulo e Tigre avançaram à final sem apresentar campanha brilhante. Nas semifinais ambos eliminaram seus adversários pelo critério do gol fora de casa, empatando fora em 1 x 1 e em casa por 0 x 0. O primeiro jogo das finais foi disputado na Bombonera, em Buenos Aires, por exigência da CONMENOL. Um jogo nervoso, truncado, com poucas oportunidades de gol, disputado de forma muito ríspida, marcado pelas expulsões de Donatti e Luis Fabiano antes dos quinze minutos do primeiro tempo por se agredirem. A decisão ficaria para o Morumbi.

Avisado por um informante argentino de que o Tigre estaria se valendo de ajuda de ocultismo, a direção do São Paulo alegou uma necessidade de preservar o gramado para impedir que o visitante treinasse no Morumbi na véspera da partida. O Tigre foi treinar no Canindé, e o Brujo Manuel não teve como preparar seu “trabalho”. No dia da partida a direção Tricolor manteve o veto e não autorizou sequer o Tigre a fazer o aquecimento no campo de jogo.

A final do campeonato no dia  12/12/12, última “data tripla” deste século, foi presenciada por grande público no Cícero Pompeu de Toledo. A torcida Tricolor estava ansiosa após quatro anos de ausência de títulos, o que, naquela época, já era bastante tempo. Sem tomar conhecimento de bruxarias ou feitiços o SPFC jogava muito bem naquela noite. Municiados por Jadson em grande fase, Lucas Moura e Osvaldo deixavam os oponentes perdidos ao realizarem trocas de posição em “X” em alta velocidade. Antes dos trinta minutos o Tricolor já abria a vantagem de 2 x 0, gols de Lucas e Osvaldo, e dava mostras de que queria golear.

O árbitro apitou o encerramento do primeiro tempo. Da arquibancada podíamos ver que jogadores do Tigre cercaram Lucas Moura na descida para o vestiário. Quem assistia ao jogo no estádio não conseguiu ver mais do que isso. Quem estava nos vestiários e áreas de circulação anexas aos túneis de acesso nunca falou sobre o que ocorreu. Um silêncio absoluto que nunca foi quebrado por seguranças, policiais ou membros das duas delegações. A história registra que o Club Atlético Tigre não retornou para o segundo tempo e o jogo foi declarado encerrado pela arbitragem.

Enquanto no gramado os jogadores do São Paulo recebiam as medalhas e Lucas Moura levantava a taça como capitão Tricolor os argentinos subiam no ônibus para deixar o Morumbi. Antes de subir no transporte o Brujo Manuel, com nariz quebrado, olhos vermelhos e o rosto ensanguentado, segurou com a mão esquerda um amuleto que trazia pendurado em um colar e, apontando os dedos indicador e médio da mão direita em direção ao campo, gritou:

-“Siete años de mala suerte”.

A maldição se extinguiu em dezembro de 2019. A equipe começou bem o ano de 2020, e dava esperanças à torcida que poderia quebrar o jejum de títulos. Mas aí veio a pandemia da COVID-19 e a quarentena. O que nos espera quando retornarem as competições? Impossível prever.

Posfácio: este é um texto de ficção baseado em fatos e pessoas reais. Seria ótimo se pudéssemos explicar os insucessos do São Paulo Futebol Clube nos últimos anos como obra do sobrenatural, mas o fato é que os responsáveis pelos sucessivos fracassos tem nome, sobrenome, CPF e cargos na diretoria do SPFC.

7 comentários em “Flávio Marques

  1. Amigo, folclore e folclore. Aqui falamos da incompetencia dos que administram uma equipe mundialmente vencedora. Nao e qualquer pai de santo, ou mesmo qualquer pessoa ou entidade sobrenatural, que vai nos impor anos de insucessos. Nossa equipe infelizmente se perdeu por falta de gente honesta, decente e aguerrida, para continuar com nossa rota de conquistas. O que temos hoje sao cartolas aproveitadores que se apoderaram da instituicao e pouco se lixam para o que acontece na parte esportiva. Os anseios sao outros. Nao tenham duvidas que continuaremos nessa continuidade de insucessos, indefinidamente, por mais apaixonados que sejamos.

    • Caro Lorenzo,

      Concordo.

      No final do texto eu explico que a história da “maldição” é uma brincadeira, ficção.

      Os responsáveis pelo nosso fracasso, dentro e fora de campo, tem nome, CPF e cargos na diretoria do SPFC.

      Um abraço.

    • Olá Alex,

      A questão da “maldição” foi uma brincadeira. Uma ficção. Mas já ouvi sim pessoas falando sobre essa “zica” do jogo inacabado. Todo o resto do artigo é de fatos, incluindo a existência do “Brujo“.

      Se formos avaliar friamente eu até acho que o Leco é um “pé frio”, mas não é o sobrenatural ou falta de sorte a causa dos fracassos e desequilíbrio financeiro dos últimos anos.

      Um grande abraço e saudações Tricolores!

  2. Mais uma vez obrigado ao Paulo Pontes pela cessão do espaço para publicação deste meu artigo experimental.

    O Brujo Manuel realmente existe e prestou sim serviços para a Seleção Argentina, Independiente e Estudiantes de La Plata entre outras equipes.

  3. Muito boa a analogia entre bruxaria e o futebol. Como dizem alguns comentaristas de ludopédio, “se bruxaria e ou macumba funcionasse, o campeonato baiano só terminaria empatado”! Abraço Flávio e parabéns pela perspicácia!

    • Obrigado Waldir, meu mais frequente leitor e incentivador.

      Futebol e ocultismo sempre andaram juntos. Existem muitas coisas inexplicáveis no futebol (e na gestão do futebol).

      Um grande abraço.

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