Flávio Marques

Contratações do São Paulo Futebol Clube, anos 2016-2019

Estamos a poucos dias da estreia do Tricolor no Campeonato Paulista 2020 e até agora, com exceção da confirmação de compra em definitivo de atletas que já se encontravam no clube por empréstimo, nenhuma contratação foi anunciada pela diretoria. Tiago Volpi, Igor Vinícius e Vitor Bueno tiveram bom desempenho na temporada 2019 e justificaram a contratação em definitivo pelo SPFC. Em função do grande déficit apurado no ano passado, e a crítica situação financeira pela qual o Clube passa, a diretoria optou este ano por não fazer apostas.

Nos anos anteriores desta gestão o comportamento foi o inverso. Em quatro anos, de janeiro de 2016 a dezembro de 2019, o São Paulo Futebol Clube contratou nada menos do que 59 (cinquenta e nove) jogadores para seu elenco profissional. Apostamos em revelações de Campeonato Paulista, acreditamos no regresso vitorioso de antigos ídolos, trouxemos atletas que estavam esquecidos em equipes do leste Europeu, resgatamos jogadores que não vinham tendo oportunidades em equipes do exterior e contratamos alguns sul americanos de destaque em seus países. O investimento total do período foi próximo dos R$ 270 milhões. Nos parágrafos e quadros abaixo faço uma avaliação dos resultados desse investimento. Não incluí neste estudo atletas que foram promovidos da base ou que tenham retornado ao SPFC após empréstimo a outros clubes. Os valores de transferência ou da taxa de empréstimo foram obtidos no site Transfermarkt, assim como as datas de chegada e partida dos atletas. Considerei como data de saída a data de empréstimo do jogador a outro clube, mesmo que ele mantenha ainda vínculo contratual com o Tricolor. Deixo claro que esta é a minha visão do desempenho de cada atleta falando como torcedor.

Grupo I: NEUTROS

Classifico aqui os atletas que cumpriram seus contratos, atuaram pelo time, mas que não deixaram saudades na torcida. O São Paulo serviu apenas como vitrine para que Athlético-PR e Boca Juniors negociassem depois Marcos Guilherme e Chávez por valores maiores. Sidão foi titular da equipe mas nunca ganhou a confiança da torcida. Aderllan veio da Espanha com salário de nível Europeu mas não conseguiu o seu espaço como titular. Poucos São-paulinos sentem falta de Mena, Kelvin, Gilberto, Cícero ou Valdívia, todos bons jogadores mas não excepcionais. O caso de Diego Lugano é emblemático. O retorno do nosso ídolo da zaga não trouxe nenhum benefício ao time ou mesmo ao profissional. Contratado devido à forte pressão da torcida o Uruguaio chegou ao Morumbi longe de sua melhor forma, e só o passado glorioso asssegurou sua permanência até o final do contrato, quando se aposentou. Nenhum dos dez atletas incluídos nesse grupo continua no elenco, e fica a sensação que os R$ 5 milhões investidos nos empréstimos de Chávez e Aderllan poderiam ter sido melhor utilizados.

Grupo II: POUCO TEMPO para avaliar

Classifico aqui Daniel Alves e Juanfran, que chegaram ao Morumbi em agosto de 2019. Vindos ambos do futebol Europeu chegaram no Brasil após suas férias de verão e, como os times brasileiros estavam no meio de temporada, tiveram que atuar sem poder fazer uma pré temporada adequada. Reafirmo aqui minha preocupação com o longo contrato oferecido a Daniel Alves (até dezembro de 2022), e o alto custo para ter o campeoníssimo lateral direito do Barcelona, Seleção Brasileira e PSG. Daniel Alves, que veio sem custo de transferência, vai custar para o SPFC em torno de R$ 20 milhões por ano entre salários, luvas e direitos de imagem. Até o momento o único patrocínio captado para auxiliar nesse custo é um contrato de R$ 5 milhões por três anos de contrato como embaixador da DAZN – muito pouco frente ao custo total.

Grupo III: SUCESSO

Até que enfim pouco de alegria para a torcida Tricolor. Estes 12 atletas, correspondendo a 20% do número de contratações e 50% do valor investido podem ser considerados casos de sucesso. Calleri veio emprestado do pequeno Maldonado (Argentina), teve boas atuações com 16 gols marcados em 31 partidas, ganhou uma vaga na seleção Olímpica da Argentina e valorizou seu passe, indo jogar na Premier League após apenas seis meses no Tricolor. Maicon, Pratto e Petros, além do bom desempenho em campo ainda geraram lucro nas suas transferências (aproximadamente R$ 42 milhões de ganho). Cueva é um jogador polêmico, gera discussões, mas enquanto jogador do SPFC teve boas atuações, disputou 89 partidas marcando 20 gols, e sua venda resultou em mais de R$ 25 milhões de lucro para o São Paulo (diferença entre valor de venda e de compra).

Sete desses atletas seguem no elenco, e daí nosso otimismo moderado com o potencial do time para este ano. Anderson Martins é um reserva confiável para a boa dupla de zaga Arboleda e Bruno Alves. Volpi nos devolveu a segurança no gol, Igor Vinícius demonstrou ótimo potencial para substituir Juanfran ou Daniel Alves em uma temporada em que poderemos fazer mais de 70 partidas. Vitor Bueno é favorito para ser titular no meio ou no ataque pelo bom final de temporada que fez ano passado. Tchê Tchê chegou como indicação de Cuca, mas segue sendo o motor do time sob a direção de Fernando Diniz.

Grupo IV: DECEPCIONANDO

Contratados com status de craques, aguardados pela torcida como os jogadores que elevariam o potencial do time, Hernanes, Pablo e Pato ficaram devendo no ano passado. Éverton começou muito bem quando veio do Flamengo em 2018, mas as seguidas contusões o impediram de se firmar na temporada passada. Rojas sofreu uma contusão séria e demora a se recuperar. É provável que não tenha oportunidade de voltar a jogar antes do final de seu contrato com o SPFC em julho deste ano. Léo, contratado como “Léo Pelé”, cumpre sua função como reserva de Reinaldo, porém não chega a fazer “sombra” ao titular. A decepção neste caso vem do investimento, relativamente alto para um defensor no Brasil,  e da expectativa criada.

Este grupo tem 6 atletas, 10% do total, mas representa 21% do capital investido pelo Clube em contratações. Pato, que veio oficialmente sem custo de transferência, custará ao SPFC algo em torno de R$ 40 milhões até o final de seu contrato em dezembro de 2022. Esse valor inclui salários, luvas, restituição da multa contratual e direitos de imagem. Hernanes treinou forte em seu período de férias para recuperar a melhor forma e Pablo espera ter um ano livre das contusões que o prejudicaram em 2019.

Todos esses jogadores tem potencial para se recuperar e colaborar muito com o time. O sucesso do São Paulo na temporada 2020 passa obrigatoriamente pelo resgate do melhor futebol de Hernanes, Pablo, Pato e Éverton. Vamos acompanhar bem de perto

Grupo V: FRACASSO

A palavra fracasso pode parecer muito forte, mas a exigente torcida São-Paulina tem como parâmetros times e jogadores vencedores e aguerridos. O fracasso como jogador do SPFC muitas vezes está ligado mais à atitude do que à capacidade técnica de um jogador. A camisa pesada, aquela que entorta varal, também pesa nas costas de bons jogadores mas que não tem o preparo psicológico para suportar a pressão de ter que vencer e dar espetáculo sempre.

Classifico como fracassos 29 das 59 contratações, basicamente 50% de todos os atletas que foram trazidos ao São Paulo. Gastamos mais de R$ 70 milhões na transferência desses atletas, correspondendo a 27% de todo o investimento do período considerado. Muitos jogadores vieram por empréstimo sem custo. Esses negócios servem aos empresários que buscam uma vitrine para exibir seus contratados, mas trazem pouco benefício ao Tricolor.  Segue a lista para sua análise.

Precisei recorrer ao Google para recordar quem eram Douglas (zagueiro), Robson (atacante), Jean Carlos (meia) e Denilson (atacante), quatro atletas com passagem curtíssima pelo time. Quando trazemos jogadores como aposta, mesmo sem pagar pela transferência, temos custos de salários, toda a estrutura colocada a disposição desses jogadores e, principalmente, inibimos a promoção de valores da base. Problemas disciplinares foram a causa da saída de Kieza , Júnior Tavares e recentemente do goleiro Jean. Alguns dos jogadores desta lista são apenas muito ruins de bola, como Ytalo, W. Nem, Neilton, Maicossuel, Edimar, Trellez, Marcinho e Thomaz. Gostaria de saber com que intenção deram cinco anos de contrato para Thomaz (vigente até junho de 2022), pois o mesmo não consegue se firmar em nenhuma equipe para a qual é emprestado. Uma avaliação médica correta poderia ter impedido a contratação de Régis Souza, Gonzalo Carneiro (ambos envolvidos em casos de doping e suspensos do esporte) e Biro Biro (problema cardíaco crônico).

A decepção foi grande nos casos de Buffarini, que chegou com status de jogador da seleção Argentina, e Bruno Peres, que veio da Roma, ambos que prometiam resolver nosso problema na lateral direita. Nenê, Diego Souza e Jucilei tiveram bons momentos, mas um fim de ciclo muito ruim no SPFC. Jucilei ainda está no elenco, mas vem sendo visto apenas como moeda de troca e parece cada vez mais longe dos planos de Diniz para esta temporada. Nunca entenderei a contratação de Everton Felipe. Pagamos R$ 3 milhões ao Sport pelo empréstimo do jogador em 2018. Em 2019, quando já estava claro que ele não tem nível para jogar no São Paulo, pagamos mais R$ 3 milhões aos Pernambucanos para a compra definitiva e, poucas semanas depois o emprestamos sem custo para o Athlético-PR onde ele também não foi aprovado e retornou.

Raniel foi um devaneio de Cuca. Para nossa sorte a diretoria do Santos FC parece ser ainda mais amadora do que a nossa e aceitou uma troca que foi excelente para nós. Sobre William Farias e Calazans só tenho a dizer que não precisávamos desses jogadores, nunca fizeram falta no elenco e essas contratações não tiveram o menor sentido. Morato, revelação do ituano, fazia boa estreia quando se contundiu já em seu primeiro jogo e perdeu a oportunidade de se firmar. Jonatan Gómes é um bom jogador, mas para equipes médias. Não conseguiu render bem com a camisa Tricolor mesmo tendo várias chances aqui.

Um custo oculto dos fracassos em contratações é o fato de continuarmos pagando os salários de vários atletas que atuam por outros clubes. Os altos salários de um jogador do São Paulo não são compatíveis com as possibilidades de uma equipe média ou pequena. Como exemplo vínhamos pagando o salário de Maicossuel para que ele defendesse o Paraná Clube. No final de 2018 tínhamos 9 atletas nessa situação. Outros casos desses estão em vigência ou sendo negociados, como o empréstimo de Hudson para o Fluminense onde pagaremos ainda uma parcela dos vencimentos do atleta. Esse prejuízo surge da combinação “má escolha” e contrato longo.

CONCLUSÃO

Avaliando cada uma das contratações dos quatro anos da atual gestão a minha conclusão é que o componente aleatório foi muito forte nas decisões. Não se observa na sequencia de contratações uma lógica. Alternando revelações com veteranos, contratações repetidas para a mesma posição, pagando altos valores em jogadores sem potencial para revenda e trazendo antigos ídolos para agradar à torcida, nossa diretoria desperdiçou muitos milhões de reais. O fato é que apenas 20%, ou um em cada cinco, dos atletas contratados podem ser considerados como caso de sucesso, enquanto 50%  (a metade) é de retumbantes fracassos. Os 30% restantes são de atletas medianos ou que estão rendendo abaixo do que esperamos (e do que pagamos). Onde andam os departamentos de análise de desempenho, fisiologia, médico, comissão técnica e dirigentes do futebol que deveriam dar suporte às decisões da diretoria? Esse nível de sucesso na admissão de novos funcionários não seria aceito em nenhuma empresa do mundo.

Tendo em vista esse histórico de insucesso na aplicação de nosso dinheiro, e a difícil situação financeira do Clube, tenho que concordar que congelar totalmente as contratações, confiar no elenco que temos e dar oportunidades a jogadores promovidos da base é a única opção sensata a seguir. Contratações tem que ser feitas de atletas comprovadamente capazes, em posições onde tenhamos deficiência, e sempre com critérios e uma avaliação técnica rigorosa. Que venha a temporada 2020. Estaremos torcendo muito para o sucesso do time.

5 comentários em “Flávio Marques

  1. Marques, mais uma vez o felicito pelo excelente trabalho investigativo e ao mesmo tempo esclarecedor. De, o quanto nossos diretores sao nocivos e altamente comprometedores, corruptos e fogo amigo, as razoes sao obvias. Ridiculo um time ganhador ate sempre, se tornar o mesmo que vemos na patria amada. Copiaram e aperfeicoaram o tudo que temos de ruim por ali. Infelizmente esse e a nossa meta daqui para a frente porque com esse diretoria unida e fortalecida, nesses quesitos, nao temos onde buscar uma virada. Ja era, e melhor virar a pagina.

  2. Caro Flávio, boa vontade sua creditar ao acaso as decisões no Tricolor. Afinal, se elas fossem aleatórias não erraríamos tanto assim. Que as contratações não coadunam com o bom senso isto é evidente, como já nos mostrasse tantas vezes com primor. Porém, talvez exista uma lógica por trás de tudo isso. Aquela mesma lógica que tem afundado o País desde sempre.

    Quando vemos o fim que levou o caso Aidar, e, agora, que estão mais preocupados em achar o hacker(“sofá”) ao invés de divulgar as denúncias(“amante”) fica impossível não pensar no pior. A falta de competência de Leco, Raí e Lugano está patente há muito. Desperdiçaram três ciclos de contratações. Uma roleta de cassino ou um globo de bingo não fariam pior. É difícil crer que é só azar.

    Financeiramente, deram um passo bem maior que a perna e o resultado está aí: somos reféns da dívida, obrigados a colocar os garotos ainda em formação para fazer caixa. O jeito vai ser ter muita Fé nesse e nos próximos anos.

    • André Felipe,

      Obrigado pelos comentários.

      O alto percentual de insucesso nas contratações é indiscutível. A incompetência está escancarada nos números.

      Se alguém se beneficia ilegalmente dessas transações isso teria que ser levantado em auditoria e investigado. Não tenho nenhuma evidência que possa sustentar acusações, e portanto credito o fracasso absoluto desta administração à falta de capacidade dos gestores.

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