André Felipe

O CT de Cotia

É comum de se perceber nas conversas de torcedores, um certo sebastianismo da torcida em relação aos atletas da base. Como na lenda portuguesa, muitos crêem que os novatos são verdadeiros messias, que sobem ao time principal na condição de salvadores do futebol são-paulino.

O sucesso nas categorias de base, contra jovens da mesma idade, cria uma expectativa muito grande. Ingenuamente, parte dos torcedores ainda pensa que os garotos jogarão com a mesma desenvoltura contra equipes adultas como fazem com seus pares. Infelizmente, a realidade, no entanto, tem nos mostrado bem diversa.

Armando Nogueira costumava dizer que o craque já nasce pronto. E é verdade. No São Paulo,vimos Kaká, Lucas, Casemiro e até mesmo Militão se destacarem logo nos primeiros jogos. Porém, essas são as exceções.Como temos acompanhado com Shaylon, Lucas Fernandes, Araruna e Brenner na maioria das vezes é preciso fazer um processo de transição para a equipe principal.

Sem dúvida, o melhor é treinar com o time principal e entrar no final das partidas, para ir se acostumando aos poucos. Mas somente se o jovem está realmente preparado para vestir a camisa do São Paulo. No Real Madrid e no Barcelona, não se dá chance a qualquer atleta jovem. Um jogador de 19,20 anos tem que ser muito, mas muito bom mesmo para começar jogando nessas equipes. E eu tenho convicção de que no São Paulo não há porque ser diferente.

Como os gigantes espanhóis, acredito que o São Paulo deveria criar uma segunda equipe, formada apenas pelos jovens, para disputar a série b do Paulista. Seria perfeito para ajudar na forja dos aspirantes. É um campeonato difícil, pois disputar contra equipes adultas profissionais exige muito mais do que a Taça São Paulo. Além do mais, uma coisa é jogar no Nacional, sem torcida, outra muito diferente é jogar representando o São Paulo Futebol Clube, tendo na arquibancada as organizadas, incentivando e cobrando como de costume. Se o jovem se mostrar competente, aí, sim, mereceria uma chance na equipe principal.

Já pagamos a principal fatia dos custos, que são os salários. Não tem sentido emprestá-los de graça para outros clubes, como frequentemente acontece. Os atletas são ativos do clube, e o ideal é que gerem renda para o mesmo. Evidentemente, existiriam todos os custos referentes à logística, como transporte e hospedagem. No entanto, estes poderiam ser zerados ou, ao menos,  reduzidos em grande parte com a negociação de patrocínios exclusivos. Isto fora o apelo que teria para a torcida. Equipes jovens normalmente correm muito e propõe um jogo bonito de se assistir. Tenho certeza que nossa torcida prestigiaria as promessas do Tricolor pelo interior afora.

Jogar a série a do Paulista com um time de jovens seria ótimo, desde que, nossos rivais também assim o fizessem. Do contrário, seria um risco muito grande de “queimar”jovens promessas, em caso de levarem uma goleada elástica. Por isso, penso que a série b é a melhor opção. Obviamente, mesmo que fosse campeã, a equipe não subiria de divisão. E se a experiência se mostrar bem sucedida, penso que também poderia-se disputar as séries inferiores do brasileirão.

Igualmente seria muito proveitoso se o São Paulo trouxesse seus ex-craques, não apenas para a diretoria, como foi feito, mas também para trabalharem com a base, junto à comissão técnica. Através de palestras e master classes, poderiam ensinar e corrigir fundamentos, além de passarem situações de jogo por eles vividas. É um desperdício incompreensível não aproveitar a expertise de gente como Cerezo, Falcão, Pita, Careca, Silas, Muller, Amoroso, Dodô, França e tantos outros.

Contudo, de nada adianta investir no preparo de futuros atletas se os direitos do clube não forem assegurados. Como um dos principais celeiros de jogadores do mundo, é dever do São Paulo capitanear um movimento pela revisão da lei Pelé. Os clubes formadores merecem ser melhor remunerados. Em tempos de passe livre, acredito que uma contribuição sobre os vencimentos dos atletas resolveria. Nada de espoliar ninguém, mas é preciso fazer justiça aos clubes que investem no futuro do futebol.

8 comentários em “André Felipe

  1. Obrigado a todos pelas palavras. A intenção era de fomentar a reflexão mesmo. O São Paulo investe muito na base e, por isso mesmo, deveria prepara-la e protege-la melhor.

  2. Olá André,

    Muito boa a sua proposta. A FPF tem hoje 4 divisões (A1, A2, A3 e Segunda), sendo que a “Segunda” é um torneio profissional Sub 23. Seria uma excelente porta de entrada para os novos atletas. Creio que um SPFC/COTIA poderia sim disputar essa competição e, se tiver sucesso, ir subindo até a A2.
    O Palmeiras fez isso há alguns anos e conseguiu levar seu time B até a A2, desativando depois a equipe.
    No passado havia os campeonatos de aspirantes, que jogavam na preliminar do time principal. Lembro-me que os aspirantes do SPFC no final dos anos 70/ início dos 80, jogavam em esquema tático idêntico ao do time de cima, preparando os jogadores para quando subissem.
    Chegávamos mais cedo ao estádio para ver a preliminar e nos clássicos o público era enorme. Sabíamos o nome dos jogadores do aspirante.
    Essa era a melhor maneira para introduzir novos jogadores no time. Não consigo entender por que acabaram com os “aspirantes”.

    • Flávio, a justificativa oficial para o fim dos jogos dos aspirantes era de que “estragavam” o gramado antes das partidas principais. Para preservar o Morumbi, caso reeditassem o “expressinho”, e também por uma questão de custos, penso que a Arena Barueri seria uma opção viável.

      • Os jogos podem ser mandados no CFA de Cotia. Existe a estrutura necessária e o estádio tem recebido jogos oficiais da FPF de base. Assim não haveria custo.

  3. Bom dia tricolores!!
    Amigo André concordo com suas colocações, é algo ilógico imaginar que meninos da base consigam, imediatamente, render o mesmo futebol junto a profissionais calejados, hoje em dia, em tempos de internet, a sociedade transformou-se em imediatista e leva isso para todas as atividades incluindo o futebol, tudo precisa ser agora, já, neste momento, imagina se hoje o ocorresse com algum atleta o mesmo ocorrido com o Dario Pereyra que demorou anos até encontrar sua melhor posição em campo, para quem não lembra o Dario foi meio campista camisa 10, foi volante e não se acertava em campo até ir jogar na zaga e teansformar-se em um dos maiores zagueiros do tricolor, quanto à contratação de ex jogadores eu tenho a ideia de treinamentos específicos tais como: treinar bater faltas, em um dia por quinzena com o Marcos Assunção por exemplo, aos jovens zagueiros treinar uma vez por semana com um Oscar ou Dario os fundamentos, os laterais treinar os cruzamentos com o Cafu, e isso pode até ser enxtendido aos profissionais.
    Bom texto e obrigado por nos fazer refletir sobre esse assunto.

    • Ideias interessantes. A base tem revelado bons jogadores, porém se faz necessário encontrar uma maneira mais eficiente de formatar essa transição. Quanto à Lei Pelé, eu entendo que os clubes deveriam se unir no sentido de buscar mudanças objetivando medidas protetoras aos seus jovens atletas, que , na verdade, são seus maiores patrimônios.
      Parabéns André, um abraço tbm.à toda nação tricolor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*