Flávio Marques

A cobrança de meia entrada nos jogos do São Paulo F.C.

Recebemos esta semana a notícia que o São Paulo foi à Justiça para pedir o fim da obrigatoriedade da meia-entrada na venda de ingressos para jogos no Morumbi – que beneficia estudantes, deficientes e jovens de baixa renda (Lei 12.933/13: de 26 de dezembro de 2013), além de idosos (Lei 10.471/03: de 1º de outubro de 2003, o Estatuto do Idoso). O Clube ainda quer ser ressarcido pelos valores que entende que deixou de arrecadar, retroagindo os cálculos até o ano de 2003, entrada em vigência do Estatuto do Idoso.

Antes de entrarmos na discussão do mérito vamos avaliar qual seria o impacto dessa medida. Levantei os dados referentes ao Campeonato Brasileiro de 2019 para efeito de quantificar o percentual de pagantes de meia entrada e também o de gratuidades concedidas pelo Clube.

Inicialmente temos que destacar que a meia entrada não foi inventada em 2003 nem em 2013. Trata-se de um benefício que existe para os estudantes há muito tempo. Qualquer promotor de espetáculos sabe de sua existência e considera seu impacto na hora de estabelecer os preços de cada evento, seja artístico ou esportivo. Alegar intervenção e requerer indenização é uma atitude desesperada de uma diretoria que gerou mais de R$ 180 milhões de déficit no exercício 2019 segundo informações da imprensa.

Considerando-se a lentidão de nosso sistema judiciário uma decisão sobre o tema não será algo rápido. Se perdermos a causa, o que pode acontecer, teremos que pagar as custas processuais e honorários advocatícios da União em valor a ser arbitrado pelo juiz, geralmente um percentual do valor total da causa. Os custos dessa aventura jurídica podem vir a impactar futuras administrações do SPFC.

Ao longo do Brasileirão 2019 a nossa média foi de pagantes de meia entrada foi de 34% do público total no estádio. O futebol é um programa de família. Se um casal vai ao estádio e leva seu filho estudante temos 33% de ingressos de meia entrada para 66% de ingressos de “inteira”. Um pai (ou mãe) que leve dois filhos resultará em 66% de venda de meia entrada para 34% de “inteira”. Nossos diretores deveriam sair de seus camarotes e ir conhecer a arquibancada e as cadeiras (térrea e superior). Verão nos setores de maior público muitas famílias e jovens.

A meia entrada tem que ser vista como um investimento para criar um público que permanecerá fidelizado pela vida toda. A grande maioria dos frequentadores de estádio, grupo no qual me incluo, foi levado a primeira vez pelo pai ou por um tio e a meia entrada é um incentivo a isso. Eliminar o benefício com certeza reduzirá o público médio que o Tricolor apresenta como mandante. Uma atitude desse tipo pode vir a gerar até mesmo queda de receita, ao invés do aumento projetado.

Se nosso problema está na arrecadação de jogos existem alternativas para aumentar a renda sem ferir as Leis do país e sem sangrar o bolso dos torcedores que pagam ingresso. O nosso público médio em 2019 representou 44% da capacidade do estádio, enquanto rivais tiveram índice de ocupação na casa de 80%. O departamento de marketing precisa trabalhar no sentido de melhorar a experiência do consumidor e com isso gerar o retorno do público. Pensando nos quatro P´s do marketing:

Produto: melhorar as condições de acesso, limpeza de banheiros, opções de alimentos e bebidas, segurança no estádio e entorno e principalmente estacionamento.

Ponto de Venda: o website da Total Acesso é muito ruim e a experiência costuma ser frustrante. Queda da conexão, sistema que não identifica seu CPF / número de ST, restrição aos setores vendidos, são algumas das reclamações frequentes dos torcedores.

Promoção: contratamos Daniel Alves e após o segundo jogo sua presença já não teve mais efeito no aumento de público pagante. São necessárias ações de ativação da imagem do campeoníssimo lateral, gerando presença e memória positiva na mídia. O Clube falha na comunicação com o público alvo pois não conhece realmente suas necessidades. Menos de 17% do público que pagou ingresso ano passado participa do programa Sócio Torcedor. Não conseguimos desenvolver relações duradouras com nossos melhores clientes.

Preço: uma política de preços que seja consistente, sem surpresas, sem aumentos abusivos nas partidas decisivas, é um passo importante para que o torcedor possa se programar. O bom espetáculo deve sim ser cobrado como tal, mas no Campeonato Brasileiro todos os jogos valem os mesmos três pontos e pela lógica os preços deveriam ser constantes. Nas Copas é aceitável um aumento razoável a cada fase alcançada.

Com um bom trabalho podemos chegar ao nível de ocupação de nossos rivais, alcançando média de 50.000 presentes por jogo – 66% de aumento em relação ao público atual.

Por último quero destacar que a cada jogo cedemos aproximadamente 2.000 (duas mil) gratuidades, aproximadamente 7% do público total. Na estreia de Daniel Alves foram distribuídos 3.600 ingressos gratuitos para os amigos do rei, sempre nos setores mais nobres do estádio. Uma diretoria tão preocupada com as receitas do Clube deveria começar a fazer a lição de casa dentro de seus domínios, revendo esses critérios e corrigindo distorções que existem.

6 comentários em “Flávio Marques

  1. E preocupante quando a direçao de um time de futebol como o nosso, tenta afastar seu torcedor e ainda contestar seu direito adquirido atraves da meia entrada. Nao interessa se para menor de idade ou para o idoso. E um direito adquirido, e como tal, nem deveria ser contestado muito menos judicialmente, e mesmo um desrespeito. Se quiser ter mais receita, entao faca melhores aquisicoes de jogadores e nao jogadores que potencialmente irao dar prejuizos, como voce mesmo demonstrou, anteriormente. Alem disso a cota de distribuicao de ingressos deveria ser limitada a amigos dos jogadores ou nem isso, pois ja ganham o suficiente para bancar suas amizades, bem como os diretores e afins. Consequentemente sao diretores que nao tem moral para esse tipo de contestacao, e o mesmo que acontece, como parametro, no executivo, legislativo e judiciario, da patria amada, com todo tipo de mordomia e privilegios, tipo auxilios tudo. Quem vai acabar com essa indecencia toda. kkk Nossos diretores tambem deveriam cortar na carne, mas nao, querem acabar de tirar o pouco que resta de beneficios para esse torcedor que paga, paga para ver seu time se afundar cada vez mais. Uma indecencia tipica de gente que quer o poder para se perpetuar e obter os privilegios advindo dele. O time que se dane, bem como seu torcedor. Salve nosso tricolor das maos desses bandidos, bem como a patria amada.

  2. Bom dia tricolores,
    Bom dia caro amigo Flávio, não vou aqui discutir sobre as finanças e marketing por serem dois caos no SPFC, quero apenas opinar sobre as meias entradas, em um país com desigualdades abissais qualquer meio de facilitar acesso a bens e serviços aos mais necessitados é de suma importância mas na prática não é o que acontece com o benefício da meia entrada, a grande e esmagadora maioria que faz uso desse benefício são estudantes de famílias que tem recursos suficientes para arcar com o custo integral, muitos aposentados, assim como eu, podem bancar seus ingressos sem esse benefício, eu mesmo o faço com prazer, o que deveria ser feito, na minha humilde opinião é em primeiro lugar é definir uma quantidade específica de ingressos, tipo 5% ou coisa que o valha, e apenas para estudantes de baixa renda da rede pública e aposentados devidamente cadastrados, pessoas de instituições como Apae e semelhantes também deveriam ser beneficiadas com uma política própria, e quem sabe eleger a cada partida no estádio algumas instituições e lares de crianças órfãs para assistir gratuitamente ao “espetáculo”. Eu vejo nos Estados Unidos atletas serem premiados pelos seus trabalhos junto as suas comunidades, os clubes também tem um caráter social bastante importante, eu creio que muito pode ser feito mas essa política de meias entradas é verdadeiramente danosa, não vejo estudantes carentes com direito a meia pra comprar pão nas padarias ou remédios na farmácia, e não venham me dizer que existe política pública para isso pois só quem já precisou sabe a dificuldade que é conseguir algum auxílio, é a política do pão e circo, como não tem pão vamos dar o circo mas cumprimentar com o chapéu alheio.

    • Olá Gelson,
      Obrigado pelo comentário.
      Concordo que o tema meia entrada é polêmico e merece discussão aprofundada na sociedade.

      Aqui o meu ponto é que a diretoria tenta desviar o foco de sua má gestão com iniciativas como essa.

      Enquanto existem muitos problemas que dependem apenas de ações internas para correção a gestão entra em conflito com a União em batalha que levará anos.

      Alteração de Leis é uma tarefa do Poder Legislativo – Câmara dos Deputados e Senado.

  3. Obrigado mais uma vez Paulo Pontes pelo espaço e apoio de sempre.

    Convido os leitores a utilizarem esta tribuna. Se você quiser compartilhar uma boa lembrança, comentar um jogo histórico, recordar grandes ídolos, falar sobre seu jogo inesquecível ou escrever sobre qualquer tema relacionado ao SPFC deixem um comentário abaixo que o Paulo Pontes entrará em contato.

    Pode comentar que não há risco de receber SPAM.

    Abraços a todos neste dia de Aniversário de São Paulo.

  4. Belo estudo, Flávio! Mais uma vez cumprimento-o pela precisa análise. Realmente, 2 mil gratuidades por jogo e menos de 50% de ocupação do estádio atestam a pífia performance do nosso mkt e da presidência. O que era de se esperar dado o q fizeram com o nosso principal ídolo q atraía público e receita: usaram, sabotaram e descartaram-no.

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