Flávio Marques

Gestão financeira do São Paulo merece elogios. Administração do futebol foi um desastre.

 

Ao ler o título acima muitos amigos torcedores do Tricolor do Morumbi poderiam dizer: “prefiro que o clube tenha dívidas, mas que o time ganhe um título de campeão”. Veremos neste artigo que o motivo do fracasso dos últimos anos não foi falta de dinheiro para o futebol. Os números apresentados aqui são públicos e obtidos da Demonstração de Resultado do Exercício de cada um dos clubes citados.

O ano de 2015 foi marcado no Tricolor por uma série de denúncias de corrupção, acusações de desvio de recursos e negociações suspeitas que culminaram com a renúncia do então presidente Carlos Miguel Aidar. No final daquele ano assumiu a presidência Carlos Augusto de Barros e Silva, que após ter sido eleito novamente em 2017 segue no poder.

Desde então, comparando os dados das demonstrações financeiras do São Paulo Futebol Clube de 2015 e 2017, observamos as seguintes variações:

  • Resultado financeiro, de um prejuízo de R$ 72 milhões para um superávit de R$ 15 milhões;

  • Receitas do Futebol, exceto vendas de atestados liberatórios de atletas, crescimento de 42%;

  • Redução de 35% no valor de dívidas com instituições financeira e terceiros;

  • Redução de 51% nas despesas financeiras, basicamente compostas por juros bancários.

Mesmo com a significativa redução do endividamento e das despesas financeiras o São Paulo ainda gastou R$ 24 milhões em 2017 para pagamento dessas obrigações. Esse recurso nos permitiria contratar e manter um excelente atleta no elenco. E aqui chegamos ao ponto principal deste artigo. Para que um clube seja grande, vencedor no longo prazo, é essencial o equilíbrio financeiro da associação. Por sermos uma entidade sem fins lucrativos, o total do superávit do exercício pode ser integralmente reinvestido para reforçar a equipe e melhorar a estrutura, mas é imprescindível evitar o endividamento num país em que os juros são muito elevados.

Falta ainda explicar porque considero a administração do futebol em 2017 simplesmente desastrosa. Para isso uma tabela esclarece mais do que o discurso:

 

Clube Gasto total com Futebol em 2017

(R$ milhões)

Resultado esportivo em 2017
São Paulo F.C. 355 Tri eliminado e luta contra o rebaixamento
S.E. Palmeiras 368 Vice-campeão Brasileiro
C.R. Flamengo 352 Campeão Carioca e finalista da Copa do Brasil
S.C. Corinthians Pta. 278 Campeão Paulista e Brasileiro
Gremio F.B.P.A. 250 Campeão da Libertadores
Cruzeiro E.C. 220 Campeão da Copa do Brasil
Santos F.C. 209 Classificado fase de grupos da Libertadores

 

 

Pode parecer inacreditável, mas o São Paulo Futebol Clube foi a associação que mais gastou com futebol no Brasil no ano de 2017, exceção feita ao Palmeiras que vive de um mecenato disfarçado em patrocínio. O paradoxo do futebol é que os três clubes com maiores orçamentos não conquistaram títulos relevantes na temporada. Portanto está provado que o motivo do fracasso esportivo do Tricolor Paulista no ano passado não foi a falta de recursos.

Fracassamos devido às contratações equivocadas, seleção e substituição de treinadores sem um critério definido, vendas precipitadas de atletas promissores, falta de gestão do clima interno, desmanche do time durante a temporada, desperdício de talentos formados na base e uma série de outros erros cometidos sob o comando de um Diretor Executivo que foi colocado no cargo sem ter o notório conhecimento de sua área de atuação conforme exige o nosso Estatuto Social.

O esporte profissional não pode ser gerido por amadores. Aprendemos essa dura lição de forma penosa. Graças às estupendas atuações de Hernanes nos livramos de um resultado ainda pior no Campeonato Brasileiro. Raí assumiu a Diretoria Executiva de Futebol em dezembro passado e não há como contestar seu conhecimento notório e experiência na área. Como torcedor resta apoiar, mas sempre com independência e mantendo o senso crítico, e desejar que Raí tenha como dirigente o mesmo sucesso que alcançou em seus tempos de jogador no Morumbi. Recursos financeiros não faltarão, pois a enorme torcida tricolor dá o respaldo necessário.

 

***Flávio Marques é leitor assíduo do Tricolornaweb, responsável por esta coluna de hoje.

6 comentários em “Flávio Marques

  1. Parabéns, considerações ponderadas feitas sem ranço meramente oposicionista. O grande mal que nosso clube vive a tempos é a intolerância, o sectarismo político, a busca do poder pelo poder pura e simples.
    A atual diretoria tem buscado, num cenário absolutamente desfavorável, sanear financeira e moralmente a instituição.
    A gestão anterior deixou o São Paulo na bancarrota, sem crédito e pior, sem credibilidade.
    Esta é a grande missão da atual diretoria, se vai conseguir só o tempo dirá, para nós, sócios torcedores, resta torcer e acreditar.

  2. Flávio, parabéns. Sua análise comparativa de gastos x resultados é bastante elucidativa. Os números apresentados na coluna gastos com o futebol, por si só, já comprovam o desastre gerencial ocorrido no ano de 2017. Com um gasto, ou investimento, como queiram, desse porte, fechamos o ano comemorando a permanência na série A. Convenhamos, é um resultado pífio demais para uma instituição da grandeza do São Paulo FC. De qualquer forma, não entendo que devemos nos precipitar, já tecendo críticas a performance da atual gestão. Prefiro aguardar mais um pouco para, somente depois, medir os resultados de Raí & Cia. Gostei da escolha do novo treinador e da proposta tática por ele imposta. Afinal, no atual estágio do futebol brasileiro – vide o time da zona leste – entendo que é melhor fechar bem a “casinha” para. somente depois, tentar marcar gols. Com essa proposta, o Muricy conseguiu nossa última façanha, o tri brasileiro na década passada.

  3. Flávio Marques, muito bom comentário, os dados apresentados refletem bem que, aquele equilíbrio que somente o São Paulo possuía em suas decisões, tanto técnicas, administrativas, financeiras e políticas deixou de existir, foram substituídas por impulsos autocráticos, imediatistas e que visavam tudo menos o bem da comunidade são paulina.
    No entanto, entendo 2017 como um divisor de águas, quando, a possibilidade de um rebaixamento iminente, agravado pela sensação de que se isto ocorresse talvez não tivéssemos força para retornar à elite, vimos surgirem duas figuras fundamentais para a história do futebol do São Paulo, sua apaixonada torcida e um repatriado, que a representou dignamente dentro de campo e o destino foi mudado.
    Esta mudança festejada como um título entendo que trouxe consigo um sinal de alerta para os que dirigem o clube, fazendo-os, em 2018, buscar pelo menos parte daquilo que perdemos, ou seja, a total entrega no campo de jogo.
    Pode parecer pouco, mas se fizermos uma reflexão consciente dos últimos anos veremos que há muito tempo não víamos o time honrar o manto sagrado com tanta disposição e creio que este primeiro passo poderá ser o alicerce necessário para o desenvolvimento de reconstrução do nosso futebol.
    Tomara que esteja certo.
    Abraço e parabéns.

  4. Amigo Flávio, Parabens pelo texta concordo em grande parte com o que escreveu, porém descordo totalmente sobre o Diretor de futebol!!!

    Se há algo notório em sua administração é justamente o oposto por você citado, a falta de conhecimento e experiência na área!

    Um diretor com o MÍNIMO de conhecimento não contrataria a Bel prazer jogadores que o treinador não pediu… Um diretor com um MÍNIMO de experiência teria trocado o treinador em Dezembro, uma vez o direto não vai trazer os reforços solicitados pelo treinador o melhor a se fazer é substituir não?

    Não que o Pinotti tenha sido um primor de Diretor, mas pelo menos sabia negociar coisa que o atual diretor NOTADAMENTE não tem essa capacidade.

    E um Diretor que não sabe Negociar e muito menos contratar não é Competente!

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