A primeira vez é inesquecível, diz presidente na Libertadores de 92

Entre 1984 e 1988, Carlos Miguel Aidar, então presidente do São Paulo, montou o chamado “Projeto Tóquio”, que não teve sucesso com ele ou com seu sucessor, Juvenal Juvêncio, no mandato de 1988 e 1990. Foi com José Eduardo Mesquita Pimenta, mandatário de 1990 a 1994, que o objetivo se concretizou. E o pontapé inicial, com a conquista da Libertadores de 1992, ainda emociona o dirigente.

Até ver uma multidão invadir o campo do Morumbi em 17 de junho após Zetti defender o pênalti de Gamboa na decisão com o Newell’s Old Boys, da Argentina, Pimenta travou batalhas nos bastidores além de transformar um time “transferido” para a segunda divisão paulista em 1990 em bicampeão mundial em 1993.

Primeiro, em 1992, precisava convencer Telê Santana da seriedade da Libertadores. Solucionou o problema ao ouvir de Nicolas Leóz, já presidente da Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol) a garantia de que bastava ter um time campeão. O que foi comprovado com o “mar branco” no gramado do Morumbi há 20 anos. “A primeira vez é inesquecível”, relembrou Pimenta nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net.

Gazeta Esportiva.Net: Como você explica essa obsessão que se tornou a Libertadores para o São Paulo?
José Eduardo Mesquita Pimenta: Nós nos habituamos e gostamos da brincadeira. Já estávamos pré-classificados para a Libertadores de 1993 e, como gostamos e aprendemos, até reforçamos o time em certo aspecto. E ainda ganhamos a Supercopa de 1993, que era a melhor competição da época, com um nível muito alto por congregar todos os vencedores da Libertadores. Aprendemos o caminho das pedras em 1992 e fomos com moral muito elevado tanto para a outra Libertadores quanto para os Mundiais.

 

GE.Net: Qual foi o trabalho para convencer o Telê da importância da Libertadores? 
Pimenta: Para nós, da presidência e da diretoria, servia a Libertadores. Tivemos um esforço muito grande, encontramos o presidente da Confederação Sul-americana e recebemos com surpresa a garantia de que era só montar um time bom porque não teríamos problema nenhum extracampo. Aí virou o fio para o Telê.

GE.Net: Como foi este encontro com o Leóz? 
Pimenta: A sede (da Conmebol) antes era itinerante, sempre no país do presidente. Quando o Doutor Leóz foi eleito, fez uma sede própria no Paraguai. E tivemos um encontro informal com ele lá, falamos da sensação que tínhamos em relação à competição e ele nos assegurou que não teríamos nenhum desses problemas. Se tivéssemos um bom time, chegaríamos às finais. Nós nos empenhamos, acreditamos e mudamos a convicção do Telê.

GE.Net: O São Paulo tinha muita preocupação com doping e até pagava os exames antidoping… 
Pimenta: Os exames foram introduzidos e oficializados por sugestão do São Paulo. Antes, o São Paulo pedia e era atendido esporadicamente, mas depois insistimos e os exames foram introduzidos efetivamente. Pagávamos os exames só no começo. E não era só o São Paulo, mas todos os clubes que solicitavam.

GE.Net: O transporte público foi gratuito para o Morumbi no dia da final. Isso foi um acordo que o clube fez com a prefeitura? 
Pimenta: Conversamos e discutimos muito para que tivéssemos esse acordo. Por isso tivemos mais de 100 mil pessoas só entre os que passaram a catraca. Foi impressionante, uma alegria contagiante. A Sul-americana chegou a sugerir a interdição do Morumbi por falta de segurança, mas os próprios dirigentes (da Sul-americana), por ponderação do São Paulo, entenderam que aquilo era uma comemoração nossa, não violência. Ficaram muito impressionados com a sensibilidade do torcedor. Era tudo novidade na época e o Morumbi era muito grande, o maior estádio particular do mundo.

GE.Net: O senhor lembra o que sentiu ao ser campeão? 
Pimenta: Uma emoção violenta. Eu não imaginava que tínhamos chegado ao fim daquela jornada. E foi um espetáculo os torcedores invadindo o campo. Inesquecível. Foi a nossa primeira sensação de vitória em competições internacionais e a maior de todas, a mais sensível. Depois fomos nos habituando, o São Paulo foi ganhando, mas a primeira vez é realmente inesquecível.

GE.Net: Chegou a pensar que o título não viria? 
Pimenta: Sempre temos a expectativa e a esperança de que vamos ganhar, mas sempre passa pela cabeça, é um receio natural. Perdemos o jogo de ida em um pênalti duvidoso e tínhamos condições de virar, mas será que iríamos virar? Ninguém tem nenhuma segurança. E a decisão por pênalti é um horror, uma tortura. Imagine para um presidente! Mas deu certo. Aliás, enquanto fui presidente, tivemos algumas disputas por pênaltis e não me lembro de ter perdido nenhuma.

GE.Net: Pelo que vejo, a final foi o jogo mais marcante para o senhor. 
Pimenta: Com certeza. E ainda me emociono ao lembrá-la, sobretudo pela alegria que proporcionou à torcida, que teve a felicidade em campo e um crescimento inexorável. Foi realmente algo comovente. Eu sentia que era uma virada.

GE.Net: No início da década de 1990, os clubes brasileiros pareciam não dar tanta importância à Libertadores. 
Pimenta: Em 1992, já fazia nove anos que não vencíamos uma Libertadores. E na Copa de 1990 tínhamos sido desclassificados pela Argentina. O futebol brasileiro estava realmente em baixa, muito acanhado. O São Paulo retomou o caminho de glórias. E os clubes brasileiros começaram a dar importância à Libertadores, ver como era vantajosa.

GE.Net: Falava-se muito em “Projeto Tóquio” na época… 
Pimenta: E ele foi seguido à risca. O Projeto Tóquio já vinha do Carlos Miguel Aidar. Não teve sucesso com ele, mas já tinha sido planejado. Sabíamos que o São Paulo, para se projetar universalmente, precisava de títulos internacionais. Éramos um time caseiro, muito respeitado e reconhecido aqui dentro do Brasil, mas não externamente. Sabíamos que íamos nos projetar dentro da nossa grandeza ganhando títulos.

GE.Net: Como foi a montagem daquele time?
Pimenta:Foi montado em 1990. Quando assumi, o time estava totalmente desfigurado, o São Paulo estava mal, desorganizado e transferido para a segunda divisão – não houve rebaixamento porque o regulamento falava em transferência. Remontamos tudo aos pouquinhos. Em outubro de 1990 o Telê foi contratado e no final do ano, já no Brasileiro, fomos vice-campeões perdendo as finais para o Corinthians, mas já tínhamos um time organizado. Em 1991, no primeiro semestre, já fomos campeões brasileiros. Aos pouquinhos, com dificuldades, tivemos um resultado relativamente rápido.

GE.Net: Quais foram as principais dificuldades para a diretoria em 1992? 
Pimenta: A nossa inexperiência na competição. Para todos nós brasileiros, àquela altura, era tudo novidade. Até tivemos outras dificuldades intercorrentes, mas nenhuma que pudesse nos tirar a atenção. Correu tudo bem, dentro do previsto.

Reprodução/A Gazeta Esportiva

Título da América foi destaque em A Gazeta Esportiva

GE.Net: O que a diretoria introduziu na busca pelo primeiro título da Libertadores? 

 

Pimenta: O São Paulo era muito inovador. Tínhamos a melhor comissão técnica da época, com o Valdir de Moraes (preparador de goleiros), o Turíbio (Leite de Barros Neto, fisiologista), o Telê, o Moraci (Sant’anna, preparador físico), a equipe médica. Eles introduziram muitas novidades. Esses scouts que existem hoje foram introduzidos pelo Moraci, que já fazia isso na época. Era uma porção de novidades. Tentamos, por exemplo, fazer a reprodução do clima de altitude no CT, treinamos nestas condições. Fomos sempre pioneiros.

GE.Net: A viagem à Bolívia custou Cr$ 40 milhões, a vaga na decisão valeu Cr$ 6 milhões para cada atleta e o título, Cr$ 15 milhões. Dá para dizer que o São Paulo não poupou gastos para vencer sua primeira Libertadores? 
Pimenta: Estivemos sempre dentro do orçamento. Os meus balanços eram sempre auditados e já publicados mesmo sem sermos obrigados. Em 1992, fechamos o balanço com índice de liquidez de 7,5 para 1, Cr$ 4 milhões em caixa e um superávit de 51% em relação à receita. Tínhamos tudo de melhor, mas com bastante equilíbrio porque os balanços eram complicados. Mas valeu a pena.

GE.Net: A negociação para as premiações sempre foi tranquila? 
Pimenta: A premiação era progressiva. O time ia cumprindo etapa e fomos melhorando o bicho. Sempre foi assim. E estipulávamos o bicho com antecedência, mas íamos reconhecendo e modificando a tabela de bichos. Tudo tranquilo porque havia harmonia internamente. Por isso foram quatro anos de títulos. Até tivemos erros, mas acertamos mais.

GE.Net: Com quem vocês negociavam as premiações? 
Pimenta: O Raí era o porta-voz. Apesar de existirem outros no grupo com o mesmo nível, inclusive intelectual, ele tinha uma liderança natural entre eles. E o diálogo era sempre muito franco. De vez em quando surgiam problemas, mas todos eram contornados satisfatoriamente.

GE.Net: Entre os problemas, um que surgiu foi o afastamento do lateral esquerdo Nelsinho, à revelia de Telê Santana, após uma expulsão contra o Goiás. Os jogadores chegaram a deixar de comemorar gol. 
Pimenta: Eu não gostaria de falar muito sobre o assunto, mas o Nelsinho foi afastado durante a competição porque cometeu exageros. Inicialmente, isso gerou um problema no plantel, mas depois eles entenderam bem a posição da diretoria e tudo foi superado.

GE.Net: Na época, três jogadores que estavam afastados do elenco e esperavam por novos contratos revelaram necessidades financeiras enquanto treinavam no clube: o Baiano, o Vizolli e o Edmilson, que até vendia camisetas para aumentar sua renda… 
Pimenta: Sinceramente, não me lembro desses problemas. Sempre existe alguém descontente, mas, no geral, tínhamos um ambiente bem harmonioso, com todos os problemas bem superados. Sempre existem exceções, mas nada que afastasse o equilíbrio das relações entre elenco, comissão técnica e diretoria.

GE.Net: O Valdir de Moraes conta que o Pintado renovou seu contrato em 1992 em cinco minutos…
Pimenta: Sim, porque todos queriam jogar no São Paulo. O São Paulo sempre foi bom pagador, pontual, com os salários mais altos. E já tinha infraestrutura. Era um clube muito avançado.

Fonte: Gazeta Esportiva

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