Da máquina de café ao futebol, Aidar começa a mudar o São Paulo

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Na última quinta-feira, Carlos Miguel Aidar acordou às 7h30 – uma hora mais tarde que de costume –, leu os três jornais que assina e foi surpreendido pela chegada de um motorista para levá-lo ao Morumbi. É um privilégio do presidente do São Paulo, cargo ao qual ele voltou 30 anos depois de ser eleito pela primeira vez. O advogado, hoje com 67 anos, se divertiu quando o rapaz perguntou se era preciso avisar às pessoas no estádio que ele estava chegando. Disse que não precisava:

– Não tenho frescura…

Duas horas e meia depois, Aidar estava instalado em seu gabinete, conversando com os repórteres do GloboEsporte.com em sua primeira entrevista exclusiva após a eleição – realizada na quarta-feira à noite. O novo presidente tricolor falou sobre como está começando a mudar o São Paulo. Desde alterações mais sutis até as que devem configurar uma gestão bem diferente da de Juvenal Juvêncio, que durou oito anos e terminou na última quarta.

Eleito por 133 votos contra sete em branco, Aidar já pediu a instalação de um computador em sua sala. Também quer um sistema mais eficiente para se comunicar com Maristela, a secretária da presidência. Hoje, ele precisa apertar uma campainha para que ela vá até o local.

– Maristela, você não precisa vir até aqui toda hora, vamos providenciar um ramal interno.

O telefone, que fica num móvel às costas do presidente, será transferido para a mesa principal. Ele também quer uma máquina de café, e até a bala que Juvenal ofereceu à reportagem em sua última entrevista foi substituída. Aidar sabe que terá de governar à sombra da forte imagem deixada pelo antecessor e não se importa. Ele se derrete em elogios ao amigo, mas defende mudanças.

Já encomendou a quatro empresas de consultoria um diagnóstico para elaboração de um novo modelo de gestão. Pretende reduzir o número de adjuntos, assessores e consultores da diretoria, que hoje completam sete folhas de papel em letras minúsculas. Ele corre para nomear a nova diretoria e espera descobrir rapidamente porque o time de futebol rende muito menos do que se espera pelos jogadores que tem a fim de evitar novos vexames, como a eliminação diante do Penapolense, no Paulistão, considerada pelo novo chefe uma “atuação desastrosa”. Na entrevista, Aidar também revelou o que vai fazer sobre a interminável polêmica da Taça das Bolinhas.

– Os jogadores precisam saber que o São Paulo sempre entra para ser campeão. O São Paulo quer ser campeão.

Confira a íntegra da entrevista concedida por Aidar, seu primeiro ato na sala da presidência, interrompida por inúmeros telefonemas e mensagens de parabéns:

GloboEsporte.com – Já percebemos que seu telefone não para de tocar…

Carlos Miguel Aidar – Ah, recebi muitas mensagens. Até uma do Mário Gobbi (presidente do Corinthians)

Recebeu de algum outro adversário?

O Mário não é adversário, ele é meu amigo. Eu gosto muito dele.

E o Andrés Sanchez (ex-presidente do Corinthians, desafeto de Juvenal)? É adversário?

Não, ele é uma figuraça.

É um personagem?

É o novo folclórico. Saiu o (Vicente, ex-presidente do Corinthians) Matheus, veio o Juvenal, agora é o Andrés. Sempre tem de haver um. Faz parte do perfil. Ele é um cara legal, conseguiu botar um estádio em pé. Claro que tem méritos.

Ele ficou bravo quando você disse que Itaquera era muito longe…

Eu tinha de falar ao sócio e não podia falar só de futebol. Ao mesmo tempo, aprendi agora a conviver com mídia social. Na minha época, eram três rádios e três jornais. Não existiam sites, blogs, essa porcaria aqui (apontando para o telefone celular). De repente, você vê que é tão vulnerável, exposto, e tem de falar com o torcedor. Algo que ele goste de ouvir. Dei uma brincada. O Andrés é candidato a deputado, quanto mais estiver na mídia, melhor. Ele está eleito, terá uma votação imensa.

Você vai votar nele ou no Marco Aurélio Cunha (ex-superintendente de futebol do São Paulo, conselheiro do clube)?

Eu? Não sei, vou pensar (risos).

Como foram suas primeiras horas como presidente?

Acordei mais tarde hoje, às sete e meia. Coloco o despertador para seis e meia, mas normalmente acordo antes. O porteiro me deu parabéns, tinha motorista para me pegar. Não estou acostumado com essas coisas. Aí, ele perguntou se eu queria que ele passasse rádio. “Rádio pra quê?”. “Pra avisar que o senhor está chegando”. Claro que não (risos)!. É o “TKS”, o “QAP”, aquela linguagem lá. Não tenho frescura.

Daqui a pouco o porteiro, o garçom e todo mundo vai começar a pedir jogador…

Nossa, o que já recebi de mensagens e e-mails com propostas de trabalho… Planos de não sei o quê, ofertas de estrutura. Ainda nem tive tempo de ler.

Por falar nisso, você disse há meses que pediria estudos de modelo de gestão. Vai fazer isso?

Já pedi na Fundação Getúlio Vargas, no Instituto Áquila, na Gradus e na Pragmatis. Marquei com o Roberto Natel, que vai ser o vice, para trocarmos ideia, e conversei com o Juvenal nesses dias todos. Assim que eu constituir a diretoria, vou receber as empresas em reuniões, separadamente, para que apresentem suas versões. A ideia é contratar uma para fazer diagnóstico e modelo de gestão. Acredito que demorem de 30 a 60 dias. Eles pegam todas as pessoas que trabalham no clube, um organograma que nem temos, e trocam ideias. E vamos tentar governar em cima desse plano. No futebol, não dá para ser tão científico, mas na gestão, dá. Você estabelece bem as funções de cada um, não cria atividade de conflito. Vou delegar muito, vocês vão falar muito mais com o vice de futebol do que comigo.

Com o Ataíde Gil Guerreiro? 

É um nome forte (risos). Preciso falar com o João Paulo (de Jesus Lopes, atual vice-presidente de futebol).

O João Paulo falou em tom de despedida no dia da eleição…

Ele é muito meu amigo desde o governo do Laudo Natel, em 1971. Vou conversar com ele, eu o quero na diretoria. Ele tem muita experiência administrativa.

Quantas pessoas haverá em sua diretoria de futebol?

O vice, os diretores do time profissional, da base e de relações internacionais. Aí, tem o gerente executivo, que hoje é o Gustavo (Vieira de Oliveira) e está indo muitíssimo bem. Espero definir logo para anunciar todos de uma vez. Já estou rascunhando.

Carlos Miguel Aidar Eleito (Foto: Carlos Augusto Ferrari/GloboEsporte.com)Carlos Miguel Aidar no momento do anúncio do resultado da eleição (Foto: Carlos Augusto Ferrari/GloboEsporte.com)

 

No seu organograma havia também a possibilidade de um superintendente de futebol. Haverá um? 

Por enquanto estamos sem, tem funcionado diretamente com o Gustavo.

O último foi o Marco Aurélio Cunha. Poderia ser ele?

Acho que não há clima para isso. Se há algo que não vou fazer é magoar o Juvenal. Ainda que um dia eu ache que o Marco é a solução, não vou magoar o Juvenal. O Marco foi responsável por essa crise política que marcou essa eleição.

Você pretende mexer algo nas comissões técnicas das categorias de base?

Ainda não conheço, mas analisando a performance do Santos, vejo que eles disputaram seis finais seguidas do Campeonato Paulista e tiveram três gerações de 2002 para cá. Vendem e continuam produzindo, tudo molecadinha deles. Então tem alguma coisa lá que nós não temos. Não sei bem o que é, mas precisamos nos debruçar e prestarmos atenção nisso. É impressionante. Eles tinham um time com Robinho e Diego, depois Neymar e Ganso, agora Gabigol e Geuvânio. E os caras dão certo. Por quê? Por que a gente não consegue aqui, com uma estrutura infinitamente superior? Temos tremendo orgulho disso. Dizem que são-paulino é arrogante, tem nariz em pé, mas somos melhores mesmo. Só não estamos ganhando o que gostaríamos. Não dá para ganhar tudo, mas tem que disputar, né?

Presidente…

Isso aqui é o futuro do São Paulo! (Aidar interrompe e mostra uma apostila da parceria com o Shandong Luneng, clube chinês)

É mesmo? Essas parcerias sempre são anunciadas com pompa e nunca dão em nada…

Nunca foi tão evoluído como agora.

O que isso pode dar ao São Paulo?

Muito dinheiro. A ideia, no fim, é disputar o campeonato na China, ter um time B para jogar lá.

 

Essas parcerias sempre envolvem um time grande do Brasil e outro de fora, menor. O que o clube brasileiro tem a ganhar?

Se não dá certo, é problema de gestão. Fiquei reticente em falar sobre um fundo de captação de recursos porque tivemos exemplos ruins recentemente. O Paulista faliu. No Santos, fizeram o Terceira Estrela, e figuras importantes da economia brasileira brigaram. Sai um, sai outro… É problema de gestão.

Mas e o dinheiro? Como chegaria da China para o São Paulo?

Temos a informação de que a China resolveu investir no futebol, transformá-lo num esporte popular. O Shandong tem um CT com 45 campos de futebol. O dono desse clube explora energia na China e tem três milhões de empregados. E ele se apaixonou pelo Juvenal, consulta o Juvenal. Estamos construindo uma relação intimista, um conselho presidido pelo Juvenal que terá integrantes da China e do São Paulo, o Roberto Natel (novo vice-presidente do clube) e o Osvaldo Vieira de Abreu (diretor financeiro da gestão anterior). Vamos começar a colocar jogadores lá. Um Luis Fabiano não vai querer, mas um menino de 15 anos, com um projeto desses para ajudar a desenvolver o futebol no país… Acho que há como ter retorno. O que estraga é a fama de que o brasileiro tem mania de enganar o estrangeiro. Fama de não ser sério.

A ideia de transformar o CT de Cotia (exclusivo para a base) numa unidade autônoma de negócios está mantida?

Sim. O garoto chega aos 20 anos e está na boca da torneira para sair. Ou vem pra ser profissional no São Paulo ou é dispensado. O clube investiu nele dos 13 aos 20 anos e descobre que investiu mal porque não conseguiu avaliar que ele não seria um bom aluno. Jogou dinheiro fora? Se ele não vier para o time principal, vai ser negociado, emprestado por dez reais, vendido por cem mil. Algo vai ser feito. Ele é capital, é moeda.

E a faculdade de futebol? (Plano do clube para transformar a formação de jogadores em algo científico, como num curso universitário, com avaliações constantes, aprovações e reprovações)

O menino presta o vestibular, que é o teste. Quando começa a despertar, vem um monte de empresários no ouvido dele. Acho que temos de conviver com isso, não sou contra. Até porque, se você não atende o empresário lá dentro, ele pega o garoto do lado de fora. Precisamos saber estabelecer uma relação com o agente. Hoje, nenhum clube tem 100% dos direitos de todos os seus jogadores.

Você não acha que o time do São Paulo joga muito menos do que poderia?

Não tenho a menor dúvida disso. O São Paulo tem condição de jogar muito melhor do que está atuando. Individualmente, o time é muito bom, mas ainda não se ajustou. O time melhorou muito quando entrou o Souza no meio-campo, mas ele se machucou e fomos desclassificados pelo Penapolense dentro do Morumbi. Um desastre.

Mas não é pouco para o São Paulo depender de um volante para vencer o Penapolense? 

Vou te dizer. A chance de perder com ele seria muito menor. E o Souza chegou agora…

Isso não respinga um pouco na avaliação do treinador?

O Muricy está tentando, agora veio o Pato, que só fez duas partidas. Esse time ainda vai dar alegrias. Há alguns setores que precisam ser reforçados. Acho o elenco pequeno.

O que o senhor pretende para o futebol do São Paulo neste ano?

Deve brigar pelo título. O São Paulo sempre entra no campeonato com intenção de ser campeão. Você precisa repetir sempre para o jogador: você joga num time que quer ser campeão, cuja torcida está acostumada a ser campeã, então se esforce para ser campeão. Contra o Penapolense, em 90 minutos, demos um chute a gol, do Ganso, de fora da área. Foi uma atuação desastrosa. Faltou o quê? Comprometimento, força de vontade, sistema de jogo? Não sei. Faltou alguma coisa, a ideia é descobrir o quê.

De todas as alternativas que o senhor apresentou para aprovar a cobertura do Morumbi, reformar o estatuto parece a mais barata. É fácil fazer? Você vai fazer? (A situação encontra dificuldades para aprovar o projeto porque, de acordo com o estatuto, é necessário um quórum de 75%, índice muito difícil de se atingir nas reuniões do Conselho)

Eu me arrependo de não ter deixado o Juvenal fazer isso em dezembro. Se eu tivesse enxergado que chegaríamos a esse ponto… Mas minha visão parou no nariz. O mais simples é fazer a reforma. O estatuto não tem cláusula pétrea, ao contrário da Constituição, pode-se mudar a qualquer hora, com um quórum simples. Transformo essa exigência de 75% para metade mais um. É uma questão de me afinar com o Leco (Carlos Augusto de Barros e Silva, presidente do Conselho) para ver se fazemos isso já. Porque se for demorar, teremos de fazer outras mudanças no estatuto. Essas vice-presidências são um problema para a gestão. Quem manda, o vice ou o diretor? Mais adiante queremos fazer uma reforma mais ampla.

Você era o candidato de situação, o que indica um continuísmo, mas qual é a grande mudança da gestão do Juvenal para a sua? 

O estilo de gestão. O Juvenal é mais centralizador. Ele tinha dois ou três auxiliares e resolvia tudo com eles. Os outros eram meio figurativos.

A Copa do Mundo vai ajudá-lo no início de gestão ao parar o futebol por mais de um mês? Muito. Essa Copa veio em boa hora. Terei um mês e meio para articular as coisas e trabalhar aqui dentro. Antes, vamos fazer nove partidas no Brasileiro e ainda há a Copa do Brasil. Acho que vai ajudar muito. Quem sabe a gente contrata alguém…

Um grande reforço, um grande investimento?

O Ribéry, o Neymar e o Messi eu garanto que não vêm. Mas temos de estar atentos, focados. De repente, aparece uma oportunidade. Um grande investimento, um desencaixe financeiro, não existe. Tem de ser um grande negócio. Alguém que queira investir, acreditar nesse começo da gestão. Mas, botar a mão no bolso e tirar, não dá.

Atrás de você há um quadro com a Taça das Bolinhas. O que pretende fazer com ela?

Essa taça tem uma história bonita. O São Paulo conquistou a primeira na gestão do meu pai (Henri Aidar, presidente no ano do título brasileiro de 1977) e a segunda na minha gestão. Criei o Clube dos 13 e a Copa União, e o campeão brasileiro, para nós, seria quem vencesse esse torneio. A CBF não reconheceu porque Flamengo e Inter não cruzaram com Sport e Guarani. Recentemente, o Superior Tribunal de Justiça determinou que o Sport é o único campeão brasileiro de 1987, o que faz com que a taça devesse vir para o São Paulo. Mas confesso que vou levar isso ao Conselho. Porque é um problema pessoal. Se eu raciocinar só como São Paulo, não devolvo taça nenhuma. Mas, como presidente do Clube dos 13, idealizador daquele movimento, acho que querer ficar com a taça é, de alguma forma, apagar aquela história. Ela tem uma simbologia forte para a gente, de primeiro pentacampeão brasileiro. Então, vou pedir ao Leco para colocar o assunto na pauta, irei ao microfone e vou contar essa história com detalhes. Se o Conselho falar que vamos desistir, o São Paulo desiste. Se não quiserem desistir, não iremos.

 

Fonte: Globo Esporte

4 comentários em “Da máquina de café ao futebol, Aidar começa a mudar o São Paulo

  1. Fala muito. Há que se ter respeito; principalmente pelo Marco Aurélio Cunha, de quem, nós os torcedores gostamos muito. Se não fosse ele, não teria oposição neste clube e o ditadorismo iria tomar conta do nosso time. O Dualib fez oque fez no Corinthians porque não tinha oposição.

  2. Quero saber de contratações de jogadores que chegam para resolver , com este elenco vamos ficar no meio da tabela de novo , nossa zaga é bizarra , entrar num Campeonato Brasileiro com Rodrigo Caio e Antonio Carlos na zaga é pedir para sofrer , espero que o Muricy fique em cima do Aidar cobrando reforços.

    Sem contar as peças fracas de reposição como Paulo Miranda , Edson Silva , Wellington , Ademilson.. Vamos conseguir o que com um elenco desses? só passar raiva..

  3. Aidar, va a merda com essa historia de taça das bolinhas, se o STJ definiu o Sport como o verdadeiro campeão de 1987 da
    dane-se voce e o clube dos treze a taça É NOSSA e o urubu que va.. Lamber sabão

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