Técnico aposta em “peso da camisa” do São Paulo para recriar futebol feminino

Depois de 14 anos, o São Paulo decidiu nadar contra a corrente da recessão do restante do esporte brasileiro e reabrir o seu time de futebol feminino. Para isso, o Tricolor realizou peneiras nos dias 7 e 8 de março no estádio Ícaro de Castro Mello, no Ibirapuera, sob a supervisão do grande responsável pelo ambicioso projeto: Marcelo Frigério, recém-contratado do Kindermann-SC, atual vice-campeão brasileiro entre as mulheres.

O novo comandante tratou o peso do nome do São Paulo como o diferencial para a sua escolha. “Não dá nem para discutir o peso da camisa do São Paulo. Acho que, hoje, o clube é a maior força do futebol feminino no Brasil. Os patrocínios estão chegando e o orçamento é bom para montar o time. Além disso, eu faço tudo na parte técnica do projeto, do futebol. Tenho autonomia para fazer o que quero. É diferente”, explicou Marcelo, que revelou uma situação diferente no time de Santa Catarina.

“No Kindermann, em várias situações eu não conseguia fazer do jeito que queria. Tive que passar por muitas coisas lá para fazer o trabalho que a gente fez, mas aqui no São Paulo está tudo bem, sou responsável por essa parte”, assegurou o técnico, principal nome do Tricolor até mesmo na escolha das atletas de base, selecionadas na peneira do dia 7 de março.

“Da maneira que o projeto está sendo conduzido, tem tudo para ser melhor do que em todos os times do Brasil. A gente vai ter um CT só nosso, que é o Esporte Vila, que era do José Roberto Guimarães. Ele levava a Seleção Brasileira de vôlei para lá, o próprio São Paulo ficou lá um tempo. Nessa semana, a gente entra lá no CT só das meninas, só nosso”, comemorou. Em relação à polêmica diretoria tricolor, o principal aliado de Frigério é o novo diretor comercial do clube, Marcelo Pepe.

Além do futebol feminino, o cartola – indicado por Carlos Miguel Aidar – tenta viabilizar o retorno da equipe de futsal, com sede em São Bernardo do Campo, e até mesmo um novo time de vôlei feminino, remodelando a imagem do São Paulo “Futebol” Clube como uma das principais instituições de todos os esportes.

Apesar de mandar as partidas em Barueri, cuja prefeitura se tornou parceira do clube no projeto, o treinador também avalia a possibilidade de realizar alguns jogos da equipe feminina no Morumbi. “Os nossos jogos que valerem a pena serão disputados na Arena Barueri. Alguns a gente vai fazer no CT do Barueri, que é muito bom, e vai servir bem para partidas contra times menores. Quando a nossa equipe estiver estável, com bons resultados e “apresentável” para fazer um jogo legal para o torcedor no Morumbi, aí a gente manda a partida no estádio tricolor com essa finalidade”, explicou Frigério.

Ainda assim, mesmo se o time feminino principal atuar no Morumbi, as jovens garotas da base não terão intercâmbio com o trabalho realizado no CFA de Cotia – obra da antiga gestão são-paulina e principal orgulho do ex-presidente Juvenal Juvêncio. “As meninas da base vão treinar aqui no Ibirapuera, serão dois treinos por semana”, contou o técnico.

Frigério salientou que todo o trabalho com a categoria de base era um projeto antigo seu, e que já vinha negociado com o governo do Estado de São Paulo e o próprio Ibirapuera antes de fechar com o São Paulo. “É custo zero para o clube”, disse o técnico sobre as parcerias. Segundo o técnico, o trabalho com a formação de atletas será intenso e as meninas que entrarem para a base também terão bolsa de estudos em uma escola particular.

“Não pegaram meu frango, né?”, perguntou Helena, 13, sobre o desempenho na peneira do sub-15 do São Paulo. A menina, proveniente de Limeira, fazia testes para ser goleira da equipe. “Lá em Limeira o pessoal joga mais futsal, mas minha vontade é jogar soçaite”, disse.

Já Mariane, de 19 anos, precisou percorrer 554km para participar da peneira sub-20. “Soube da peneira na quarta-feira à noite”, contou a zagueira, que mora em Fernandópolis e estava hospedada na casa de um parente em Taboão da Serra. Era seu primeiro teste em um time grande e o nervosismo tomava conta. “Não dormi nada durante a noite”, comentou.

Ketlyn, de 16 anos, participou da peneira acompanhada pelo pai. Acostumada a jogar na Portuguesa, se arriscou em outro processo e foi uma das 18 selecionadas para integrar a equipe sub-17 do São Paulo. “Fiquei muito feliz e minha família também”, afirmou a jovem ao comentar a boa notícia. “Sonho em ser a próxima Marta”, completou.

O técnico ainda pretende fechar com outras jogadoras que comandou no Mundial em questão, realizado na Alemanha. Com o time sendo formado, o treinador terá um prazo curto para fazer ajustes a tempo da estreia do São Paulo. “No início da temporada eu não vou conseguir dar um padrão de jogo, mas a Copa do Brasil termina dia 8 de abril. O Campeonato Paulista começa dia 19. Vamos disputar o Paulista, o Brasileiro, a Copa Mulher, os regionais e os abertos por Barueri”, comentou.Sobre o time principal feminino, o técnico revelou ter um projeto ambicioso. “No time principal a gente já tem 20 meninas contratadas. Todas meninas com passagem pela Seleção. A melhor jogadora da Seleção Argentina, a Florencia Jaimes, está contratada. A meia da Seleção Paraguaia, a Dulce, tá contratada. A gente tá tentando fechar com a Maribel Dominguez do México e com a Charlyn Corral”, contou. Aos 36 anos, Maribel é a maior jogadora da história do México, ao posto que Charlyn Corral é, hoje, a maior jogadora em atuação no país, com 23 anos. “Estou esperando a resposta das duas”, disse o treinador. Além delas, o clube já tinha anunciado oficialmente as contratações da meia Ester, que fez parte da seleção vice-campeã nas Olimpíadas de Pequim e jogou o Campeonato Alemão na temporada de 2013/2014, e a atacante Adriana Costa Tiga, a Tiganinha, que defendeu a Seleção da Guiné Equatorial na Copa do Mundo de 2011, sob o comando de Frigério.

Apesar do início dos trabalhos, o treinador é rígido quanto aos objetivos da equipe que disputará os campeonatos. “A gente tem que estar entre os três, quatro primeiros”, afirmou. A situação será possível, segundo o treinador, graças à criação da seleção feminina permanente. “A Seleção permanente nivelou (os campeonatos). Então vamos ter um time aí pra brigar, pra poder chegar”.

O treinador aprovou as medidas recentes tomadas em relação à Seleção Feminina, além de ter elogiado o trabalho de Vadão à frente do grupo, apesar de o time ter sido eliminado precocemente da disputa do título da Copa Algarve, em Portugal, com a derrota por 3 a 1 para a Alemanha.

“Confio muito no Vadão e na ideia da seleção permanente, porque, para que a gente possa recuperar o tempo que a gente está atrás dos Estados Unidos e outras seleções, a única maneira é mesmo ter uma Seleção permanente. Ter uma boa comissão física, um trabalho bem feito, com profissionais bons. As meninas estão registradas, ganhando bem… É a primeira vez que eu acredito mesmo, acho que tem tudo pra dar certo”, disse.

Frigério também comentou que gostaria de treinar a Seleção e que, mesmo com oportunidades para assumir o cargo, nunca seguiu a lógica de realizar bons trabalhos apenas para chegar em Teresópolis. Atualmente, descarta a possibilidade de ser chamado. “Se outra pessoa estivesse lá, eu poderia pensar ‘podia ser eu’. Mas o fato de estar o Vadão lá é excelente, o Brasil está bem servido”, avaliou. “Sempre gostei do Vadão, acho um excelente técnico e é a primeira vez que eu acredito mesmo na Seleção”, enfatizou o técnico do São Paulo.

Apesar do envolvimento com o futebol feminino, Marcelo Frigério não descartaria a hipótese de voltar a treinar a categoria masculina. A facilidade de encarar os projetos foi um dos fatores levantados pelo técnico, que só assumiria um novo projeto se viesse por parte de um clube tido como grande.

“Eu já trabalhei na base do Palmeiras, em três categorias, e um ano no profissional da Inter de Limeira. É muito mais fácil trabalhar com o masculino do que com o feminino. Eu encararia sim, mas não teria segurança, o futebol brasileiro hoje está falido. Então se fosse uma oportunidade de voltar para base do Palmeiras, do São Paulo, do Santos, do Corinthians, que são os clubes grandes… O resto, ninguém paga ninguém. Nos grandes você ainda tem uma segurança, principalmente na base. O São Paulo, por exemplo, é super sério. Pô, adoraria. Mas pra ir para uma barca, pegar um time da A2 ali no masculino profissional… Melhor ficar no feminino”, concluiu.

 

Fonte: Gazeta Esportiva

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