Do desinteresse à aventura boliviana: ‘causos’ da Libertadores de 92

Foram 14 jogos, oito vitórias, três empates, três derrotas, 20 gols feitos e nove sofridos. Mas as lembranças do primeiro título do São Paulo na Libertadores não se resumem a números. A conquista que passou por Santa Catarina, Bolívia, Uruguai, Equador e Argentina tem histórias curiosas lembradas às gargalhadas 20 anos depois.

O encontro promovido pela Gazeta Esportiva.Netentre o então preparador de goleiros Valdir de Moraes e Zetti na escola para goleiros do ex-jogador, na capital paulista, teve muitos minutos de recordações. E sorrisos dos dois.

“A Libertadores tem histórias. Antigamente, era dura”, constatou Valdir. “A logística antes era muito difícil, ninguém te ajudava a chegar aos estádios. E quando se fazia o primeiro jogo no Brasil e o segundo lá, era guerra. Aqui, dávamos água, refrigerante bonitinho para todos. Lá, não tinha nada disso, não achava nem vestiário. Os torcedores podiam até invadir o campo”, concordou Zetti.

“O título é mais valorizado por termos passado por provações e dificuldades grandes. Isso faz parte de um time vencedor. O São Paulo tinha tudo naquela época: um treinador excepcional, uma boa equipe, equilíbrio emocional diretivo para nos dar o melhor possível. Não conquistou o título por acaso”, enalteceu Valdir. “Valeu o esforço nosso. Foi tão bom ir para Tóquio…”, completou o camisa 1 daquele time, também campeão mundial em dezembro daquele ano.

Confira as principais histórias contadas pelos dois:

Djalma Vassão/Gazeta Press

Zetti, goleiro em 1992, e Valdir de Moraes, preparador de goleiros naquele ano, trocam boas lembranças

Desinteresse

 

O primeiro obstáculo para o Tricolor conquistar a América do Sul foi interno. A desconfiança de Telê Santana em relação à Libertadores tinha concordâncias no elenco, apesar de a diretoria reiterar o sonho de se tornar o maior clube do continente. O grupo, na verdade, gostaria inicialmente de conquistar o segundo Brasileiro consecutivo.

“No meu tempo, o Uruguai e o Paraguai tinham mais títulos da Libertadores porque não ligávamos muito. Com o tempo, o Brasil começou a dar importância”, contou Valdir, citando um dos argumentos do treinador por não ter começado a competição com força máxima – e a equipe estreou perdendo para o Criciúma por 3 a 0 em Santa Catarina.

“Quando o São Paulo começou a disputar a Libertadores, não era tão importante. Teve jogos em que o Telê colocou time misto porque não tinha retorno. Era uma competição que não revelava ninguém e tinha sempre problemas com a arbitragem, que favorecia sempre o argentino, o paraguaio”, lembrou Zetti.

As vitórias na sequência, porém, contagiaram os atletas. “Entramos meio despreocupados. Só que as coisas foram acontecendo. A primeira fase era muito complicada, com dois times da Bolívia, mas passamos bem. Conforme foram passando os jogos, conseguimos nos classificar, e tivemos esperança de chegar. Aí começou a mudar. Depois que passamos do Nacional (nas quartas de final), o time começou a acreditar mais”, apontou o dono da camisa 1 na conquista.

“Punk” no campo e no avião em Oruro

A segunda e terceira rodadas da fase de grupos seriam na Bolívia para o São Paulo. E a primeira parada foi em Oruro, cidade localizada 3.706m do nível do mar e onde o oponente seria o San José. Bastou chegar à capital do país, La Paz, e seguir para Oruro para principalmente Zetti participar de um trajeto aéreo inesquecível.

“Foi uma das piores viagens que fiz”, disse Zetti, hoje gargalhando antes mesmo de soltar as primeiras palavras sobre o realto. “Lá é tão alto que o avião desce, não sobe”, gracejou Valdir enquanto o pupilo ganhou fôlego para parar de rir e contar a experiência.

“Tínhamos uma preocupação muito grande em adaptação à altitude. Preferimos chegar em cima da hora para não termos reação no organismo. Mas para chegar a Oruro foi punk. Foi fretado um avião para subirmos antes do jogo. Saímos três horas antes e fomos no avião do Exército porque o avião que fomos a La Paz não podia subir. Eram dois motores, com cadeirinhas piores que de madeira. E a descida…”, apontou, franzindo a testa e fechando os olhos para mostrar a tensão.

 

“Eu estava junto com o Pintado, vendo o motorzinho ali e a roda quase perto da minha cadeira. Lembro que, quando estávamos chegando em Oruro, levava 40 minutos de La Paz, chegamos à cidade desviando das montanhas porque era muito alto. Não existe asfalto, era cascalho e terra até no aeroporto. Eu ficava olhando na janelinha, procurando o aeroporto, e não achei. Era um terrenão descampado. Quando o avião desceu, foi punk. Fiquei com medo, saiu deslizando, levantando um poeirão”, afirmou o hoje ex-goleiro.

Em campo, o placar até indica facilidade por ter terminado 3 a 0 para os brasileiros. Mas mesmo Valdir de Moraes sofreu com a altitude. “O Valdir desmaiou, foi parar na maca”, falou o risonho Zetti, logo sendo interrompido por seu mestre. “Não cheguei a desmaiar, não”. “Não, mas deu falta de ar em todos. No banco ficavam dois cilindros de oxigênio e no vestiário tinham 11 já fixos porque já sabiam que os times que iam lá tinham problemas. Essa foi a grande dificuldade nossa”, corrigiu Zetti.

Ônibus vira vestiário em La Paz

 

A segunda parada era voltar a La Paz para enfrentar o Bolívar. Para quem enfrentou os 3.706m de altitude de Oruro, os 3.640m que separam a capital boliviana do mar não seriam tão grande problema. A dificuldade, contudo, estava em chegar ao estádio Hernando Siles.

“O congestionamento em La Paz é pior que o de São Paulo. Com o ônibus parado, pegamos o material e nos trocamos lá dentro”, lembrou Valdir, contando que o veículo virou vestiário para evitar que o time perdesse de W.O.

“Chegamos com 15 minutos de atraso, dentro da tolerância. O time adversário já estava em campo e entramos de agasalho e chuteira, sem aquecer. Descemos do ônibus direto para o campo”, completou Zetti, admitindo o prejuízo do atraso. “O jogo foi 1 a 1. Começou o jogo já 1 a 0 para os caras, aí o Raí empatou”, aliviou-se o ex-goleiro.

 

Equatorianos preocupavam mais que os argentinos

O São Paulo foi campeão batendo o Newell’s Old Boys nos pênaltis, mas os argentinos não foram o pior obstáculo na conquista. Zetti acredita que o Barcelona de Guaiaquil trouxe mais problemas nas semifinais – os brasileiros venceram por 3 a 0 no Morumbi e perderam a volta, no Equador, por 2 a 0.

“Quem preocupou mais foi o Barcelona. Ganhamos de 3 a 0 e achávamos que estava tranquilo, mas lá a pressão foi muito grande. No primeiro tempo, já estava 2 a 0 para os caras. Foi difícil chegar ao estádio e os caras puseram uma caixa de som virada para o vestiário, você não conseguia conversar lá dentro. E foi uma tortura de bola na área”, recordou o goleiro. “Contra o Newell’s, perdemos de 1 a 0 lá e poderíamos fazer o resultado em casa – não estávamos tranquilos, era uma final, mas já estávamos mais relaxados”, comparou.

A opinião do camisa 1 daquela equipe, contudo, é repreendida por Valdir de Moraes, que viajou pela América do Sul assistindo aos adversários do clube como olheiro. “Na Libertadores, todos os jogos foram difíceis. O São Paulo encontrou grandes equipes, muito bem montadas. É que o time tinha confiança, vontade e determinação para chegar aonde chegou”, enalteceu o preparador de goleiros.

Multidão marcante

Após defender o pênalti de Gamboa que garantiu o título, Zetti mal teve tempo de comemorar. Depois do apito final, os torcedores invadiram o gramado do Morumbi para guardar lembranças da histórica partida, incluindo peças de roupa, e nem deram tempo para o goleiro achar outros companheiros.

“O Muller foi o primeiro a correr e me abraçar porque corre mais do que o Valdir e chegou na frente. Em segundo veio o Valdir. Aí fui carregado pela multidão, que puxava todo o meu uniforme. Quando vi o túnel, logo pulei para dentro. Mas a cena da torcida invadindo o campo ficou como uma lembrança bacana”, lembrou o então camisa 1. Valdir, por sua vez, fugiu rapidamente. “Fui logo para os vestiários”, recordou.

O curioso é que os mesmos torcedores ensandecidos com o título reclamaram de Telê Santana no segundo tempo, quando o técnico trocou Muller por Macedo e o jogo estava 0 a 0, placar que tornava o Newell’s Old Boys campeão. “O Telê tomou uma vaia por ter tirado o Muller, mas o Muller estava mal naquele jogo”, defendeu Zetti, apontando que Macedo sofreu o pênalti que Raí converteu, mantendo as chances são-paulinas.

Beleza natural e recompensadora

 

O São Paulo da Libertadores de 1992 é até hoje um exemplo de equipe capaz de encantar e vencer, mas a beleza nunca foi o principal objetivo do time. Zetti atribui o espetáculo dado por ele e seus companheiros à qualidade dos jogadores.

“Era um time que jogava bonito, mas não queríamos jogar bonito. Queríamos vencer e o fato de jogar bonito acontecia naturalmente”, disse, lembrando que havia preocupação defensiva. “Tínhamos uma defesa simples e forte. E eu brincava com o Pintado que, se ele fizesse um gol, pediria para o Telê tirá-lo do time porque não podia passar do meio-campo.”

Com este quesito, mesmo a demora para abrir o placar na decisão não enervou os atletas. “O gol saiu no segundo tempo, mas não senti nenhum temor. A equipe estava tão bem. A nossa confiança era muito grande. Sabíamos que não íamos perder no Morumbi. O time estava muito bem organizado, sabia como jogar”, elogiou Zetti. “Individualmente, o time tinha capacidade. E o conjunto do São Paulo era muito bom. O time já entrava com confiança”, concordou Valdir.

Fonte: Gazeta Esportiva

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