Como Ney Franco montou um time campeão e irritou meio elenco do SP?

É difícil explicar o descompasso entre o sucesso dentro de campo e a rejeição perante o elenco na trajetória do técnico Ney Franco no São Paulo, que ficou exatamente um ano entre junho de 2012 e junho de 2013. Responsável por um dos melhores semestres da história recente do clube, logo depois de assumir, ele deixou o Morumbi pela porta dos fundos com relação despedaçada e atritos públicos com o elenco. Neste domingo, Ney reencontra boa parte do elenco com que trabalhou em sua estreia pelo Flamengo, no Brasileirão, e já deve imaginar a recepção. Do goleiro Rogério Ceni, por exemplo, Ney provavelmente não receberá cumprimentos.

Ney Franco assumiu um São Paulo de Emerson Leão que não tinha esquema tático. Em dois jogos, ele encontrou: 4-2-3-1, com Lucas na ponta direita. Em um semestre, o São Paulo fez a melhor campanha do segundo turno do Brasileirão e foi campeão da Sul-Americana. Chegou à Libertadores e viu a valorização do jogador mais caro da história do clube, que sairia para o Paris Saint-Germain por R$ 116 milhões. Mas o sucesso parou aí.

O ex-diretor de futebol Adalberto Baptista deu respaldo a Ney Franco durante toda a passagem. Em 2013, nada deu certo. Nem o planejamento, nem a execução. Os resultados ruins fizeram com que o ambiente fosse dominado pelo aborrecimento dos jogadores com a conduta do treinador no dia a dia. Abaixo, os detalhes que fizeram Ney Franco ir do sucesso absoluto à porta dos fundos no São Paulo.

1. O achado Lucas

Ney Franco não criou Lucas. O jovem, então com 18 anos, já era titular e promissor quando o treinador chegou ao Morumbi. Mas foi a partir do posicionamento correto de Lucas que o São Paulo decolou e se transformou completamente, resultando em seis meses brilhantes de trabalho. Ney Franco já havia trabalhado com o jogador na seleção brasileira sub-20 e o escalou na ponta direita. Lucas, então, rendeu a incrível fortuna aos cofres são-paulinos, e foi o protagonista da equipe até o fim de 2012.

2. A relação com Adalberto

Não é segredo que o ex-diretor de futebol Adalberto Baptista colecionou desafetos no São Paulo, entre jogadores, funcionários e companheiros de diretoria. Mas foi ele o escolhido pelo ex-presidente Juvenal Juvêncio como braço-direito. Adalberto mudou o estilo do São Paulo, gastou mais, tentou montar time badalado e acabou conquistando um título. Foi completamente fiel a Ney Franco, a quem defendeu e teve de demitir contrariado. Mas como não havia simpatia para com Adalberto, Ney Franco também sofreu rejeição por tabela no São Paulo. O planejamento da equipe entre o técnico e o diretor era isolado de todo o resto do clube, o que criou clima de secretismo no clube.

3. Raiz dos problemas: o treino

A raiz dos problemas de Ney Franco com o elenco do São Paulo era o treino, o dia a dia. O treinador tem o costume de deixar as atividades técnicas, de campo, a cargo de seu auxiliar técnico Eder Bastos. Por vezes, escolhia não ver as atividades, o que irritava boa parte do elenco são-paulino. Era Eder quem reportava o treino a Ney. E, para piorar, a impressão do elenco sobre Eder era a pior possível. Alguns jogadores creditavam o fato de estarem na reserva à má avaliação do auxiliar. A metodologia de trabalho de Ney Franco sempre incomodou no São Paulo, principalmente ao capitão Rogério Ceni, mas no primeiro semestre de trabalho as ressalvas foram esquecidas devido ao excelente desempenho do treinador no comando da equipe. Jogadores também criticavam a preparação física da comissão técnica de Ney.

4. O primeiro atrito: Ceni pivô

O São Paulo vivia excelente momento quando os problemas internos do time vieram a público pela primeira vez. Quartas de final da Copa Sul-Americana, jogo no Morumbi contra a inofensiva e desconhecida LDU de Loja, do Equador. Jogo empatado em 0 a 0. No segundo tempo, bastava um gol dos visitantes para eliminar o time da casa. Rogério Ceni, do gol, pediu a Ney Franco que colocasse Cícero em campo, para jogar como centroavante. Ney Franco colocou Willian José, e Ceni protestou. O São Paulo avançou de fase, mas o técnico comprou a briga com o goleiro. Depois do jogo, criticou a ingerência e disse que era “cada um na sua”.

5. Planejamento errado

Se Ney Franco foi extremamente habilidoso para comandar a recuperação de um time em pouquíssimo tempo, após a demissão de Leão, o sucesso não foi o mesmo quando o técnico teve autonomia para planejar a equipe. Para 2013, a diretoria contratou nomes de impacto como o meia Paulo Henrique Ganso (se transferiu em setembro de 2012) e o zagueiro Lúcio. E além deles, ainda no início da temporada, chegaram Aloísio, Wallyson, Negueba, Roni, Caramelo e Silvinho. Nada funcionou. A lacuna na ponta direita, aberta após a saída de Lucas, não foi reposta até o dia da demissão de Ney Franco, e o time – em meio a todas as ressalvas entre técnico e elenco – se perdeu no primeiro semestre.

6. Atritos aumentam

Ao passo que o São Paulo começou sofrendo na Libertadores, os atritos entre elenco e comissão técnica aumentaram. Era absolutamente comum, entre março e abril de 2013, ouvir dentro do clube que Ney Franco havia perdido o comando do vestiário. Houve reflexos disso em campo, como quando Paulo Henrique Ganso reclamou da reserva e, principalmente, quando Lúcio se revoltou ao ser substituído em jogo contra o Arsenal de Sarandí, na Argentina, e depois deu declarações que lhe renderiam alguns jogos de afastamento. Naquele momento, a harmonia entre jogadores e técnico estava comprometida.

7. Isolamento

Após a eliminação na Libertadores, os problemas entre Ney Franco e elenco tomaram conta das discussões entre dirigentes do São Paulo. Naquele momento, se a permanência do técnico fosse decidida em uma votação da diretoria, Ney cairia por ampla maioria. Mas dois votos o seguraram por mais alguns meses: o de Adalberto Baptista e, obviamente, o de Juvenal Juvêncio, que dava total autonomia para seu braço-direito.

8. Afastamentos

A relação com o elenco que em maio de 2013 já era péssima se deteriorou ainda mais quando Ney Franco, Adalberto e Juvenal anunciaram a lista de sete jogadores afastados: Cortez, Fabrício, Cañete, Wallyson, João Filipe, Luiz Eduardo e Henrique Miranda foram retirados dos treinos com os profissionais e mandados para Cotia. Para o elenco, pesou principalmente o isolamento ao volante Fabrício, visto por Ney como liderança negativa do elenco. Mais tarde, quando Ney Franco foi demitido na mesma data do aniversário do volante, Fabrício disse ter recebido um presente.

9. Ausência em treino

Três semanas antes de ser demitido, Ney Franco não foi a um treino da equipe, em um sábado. A folga, segundo Adalberto Baptista, já estava programada. Mas o fato irritou jogadores e outros dirigentes, que na época afirmaram que não era a primeira vez que isso acontecia num sábado (aos finais de semana a imprensa não pode acompanhar os treinos no CT da Barra Funda).

10. “Não posso entrar para dar um passe”. Demitido

A imensa pressão interna pela demissão de Ney Franco acabou convencendo o presidente Juvenal Juvêncio na tarde do dia 4 de julho por causa de uma frase dita pelo técnico após derrota para o Corinthians no primeiro jogo da Recopa Sul-Americana. O treinador afirmou que não poderia “entrar em campo para dar um passe”, partilhando a culpa com os jogadores. Na manhã do dia seguinte, foi anunciada a saída que, no discurso oficial, foi tratada como “comum acordo”.

11. Legado zero x Fritou Ganso

Na estreia de Paulo Autuori, no jogo de volta da Recopa Sul-Americana, com o São Paulo derrotado, o goleiro Rogério Ceni – o maior dos críticos à metodologia de trabalho de Ney – afirmou que o legado da passagem do treinador pelo Morumbi era “zero” logo depois de afirmar que o clube havia parado no tempo. Pouco tempo depois, em entrevista ao jornal O Globo, Ney Franco rebateu com frases fortes. Disse que Rogério Ceni “fritou” Paulo Henrique Ganso no São Paulo e que não teve no goleiro o capitão que precisava. E Ceni respondeu mais uma vez: falou que, se tivesse tanto poder no clube quanto dizia o técnico, Ney teria sido demitido antes.

 

Fonte: Uol

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