A longevidade e a capacidade de reinvenção de Ceni

A posição de goleiro é uma fábrica de mitologias. Desde o soviético Lev Yashin, o Aranha Negra, e o inglês Gordon Banks é assim. Por ser o início e o fim do jogo, por guardar a meta, e ser o único que troca os pés pelas mãos, traz todos os requisitos para a fantasia. Comecei a curtir futebol, nos anos 80, tendo Rodolfo Rodrigues como ídolo. A sequência de defesas contra o América de Rio Preto, no Paulista de 84, sempre povoou minha mente. A rapidez dos gestos, precisos, aliada ao reflexo, em série de cinco interceptações, é um desafio à física, à lógica, à verdade dos olhos. Dois anos antes, Dino Zoff era campeão do mundo pela Itália aos 40 anos. O mais velho até hoje a levantar o caneco mais cobiçado do planeta.

Pois Rogério Ceni me soa como uma mescla do italiano com o uruguaio. A longevidade em alta performance remete a Zoff. A elasticidade e a capacidade de gerar idolatria conjuminam com Rodolfo. São apenas paralelos, já que a memória afetiva da bola produz essas intersecções quase que espontâneas. Na última quarta-feira, vendo Ceni ter mais uma noite de tantas noites e dias de gala, esses elos me assobiaram. É impossível não se admirar que um sujeito chegue à maturidade como um atleta, um líder, um ídolo de um grande clube. Que consiga, na prorrogação, em um tempo em que o mais provável é que fosse apenas pôster na casa de um sem número de fãs, ter desempenho tão virtuoso.

Daqui três dias, Ceni estreará em sua última Libertadores. Diante de um rival que marcou sua carreira por bons e maus momentos. Que foi a vítima no seu centésimo gol e algoz em algumas derrotas sentidas. Será um duelo inédito. Isso é que merece alvíssaras. Aos 42 anos, ainda compete ao goleiro vivenciar novidades. Noves fora a tensão do jogo, é de se celebrar que no inverno da carreira ainda haja verões assim. Os amantes do futebol temos que desfrutar dessa oportunidade. Ver um atleta que bateu tantos recordes e que é o maior ídolo em atividade de um grande clube ainda atuando em alto nível é um privilégio.

É tudo muito fugidio na vida. No futebol parece que a velocidade com que as boas coisas escorrem é maior. O tempo é outro, mais veloz. Ceni, no entanto, parece ter amolecido esse fluxo. A impressão é de que joga desde sempre. Contra o Santos não era um jogo decisivo, apenas quarta rodada do inchado e desvalorizado Campeonato Paulista. Sua performance, porém, supera essa marginalidade com a reiteração da sua aparente perenidade.

Ceni desafia o tempo. Sem ignorar a boa vontade que o deus Cronos tem com os goleiros, o fato é que o são-paulino vem quebrando barreiras. A dedicação aos treinos, o sentido de comando, a sabedoria que soube adquirir com o tempo. Não fossem essas características e não teria se tornado o maior goleiro-artilheiro da história do futebol. Desafiar os preceitos da profissão, treinar exaustivas cobranças de falta até tornar-se um especialista no quesito. A amálgama de diversas virtudes fazem com que o titular há duas décadas do gol tricolor caminhe para a disputa de uma nova Libertadores tendo o respeito, a admiração de companheiros e rivais. É de fato um mito!

 

Fonte: Lance

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