Título mundial de Eder Jofre faz 50 anos e sobrevive na memória do ‘irmão’ que o ajudou

Naquela aventura em Los Angeles (EUA), em 1960, o pugilista brasileiro contou com a ajuda de um “anjo da guarda”, Manoel Pineda.

Hoje, ele vive na Argentina, e, vítima de Alzheimer, lembra-se somente de um amigo: Eder Jofre.

Ao chegar no aeroporto de Los Angeles para a luta contra o mexicano Eloy Sanchez pelo título, Eder foi recebido por um rapaz que pegou suas malas, as colocou no carro e, ao notar o ar atônito do futuro campeão, disse: “Meu nome é Manoel Pineda, brasileiro, e a partir deste momento sou seu irmão”.

A partir daí, ajudou Eder e seu estafe de todas as maneiras possíveis. Levou o brasileiro em seu carro ao ginásio no dia da luta, fez passeios com a equipe e ficou com a tarefa de tirar da cama o “Galo de Ouro” bem cedinho para as suas corridas diárias.
À época, a pontualidade de Pineda foi apontada por Eder, de forma bem-humorada, como o único “defeito” do amigo, definido como “grande praça” pelo lutador.

A amizade prosseguiu. Quando vinha ao país, Pineda se encontrava com Eder e o recebeu em casa quando o boxeador voltou aos EUA.

HOJE

Num álbum de fotografias em branco e preto, Manoel, agora com 82 anos, aparece ao lado de Pelé, do cantor Roberto Carlos e de estrelas de Hollywood. Mas sua memória só desperta ao ver as imagens que compartilha com o único amigo de quem ainda sabe o nome, Eder Jofre.

Há oito anos, Pineda luta contra o mal de Alzheimer recluso em um apartamento no centro de Buenos Aires, onde recebeu a Folha para uma conversa de poucas frases, às vezes incompletas.

Curvado pela idade, mede 1,63 m, e não pesa mais de 50 kg. Passa os dias em casa, vendo TV com a ajuda de um aparelho auditivo, à procura de um canal que passe lutas de boxe. “Nem sei quanto peso, tô magrinho, mas tô contente. Ah, se eu pudesse… o senhor vai falar com o Eder?”

É o único assunto que interessa a Pineda, que recorda detalhes das principais lutas do amigo. Depois de um longo silêncio, emocionou-se ao relatar contato recente com Eder por telefone.

“Eu falei com o Eder. Esse garoto derrubou todo mundo. Tantos anos”, disse com a cabeça baixa e chorando.

Há mais de 40 anos, Pineda deixou os EUA, onde morou nas décadas de 50 e 60, para se instalar na capital argentina. Trabalhou nos consulados brasileiros de Los Angeles e de Buenos Aires, como técnico do Itamaraty, depois de ter sido fotógrafo.

“Quando estava bem, ele tinha obsessão pelo Eder. Todos os meus namorados precisaram ouvir as histórias dele e olhar as fotos dos dois”, diz a filha Flávia sobre Mané, como ele era chamado afetuosamente por Eder.

Pineda teve a vida transformada pelo “corralito” argentino, que congelou todas as suas economias em 2002.

Ao ver que estava financeiramente quebrado, sofreu um surto psicótico e tentou suicídio. Trancou-se em casa, com pânico e mania de perseguição. O desequilíbrio acionou o Alzheimer, e ele nunca mais voltou à lucidez.

Ao saber da situação do amigo, Eder ficou triste, mas achou ao menos um motivo para sorrir. “É bacana você ter um amigo que, mesmo com Alzheimer, lembra-se de você. Quer dizer que você marcou muito a vida dele.”

Do Uol

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