‘Se eu fosse os outros, nunca iria querer enfrentar o Eder Jofre’

Melhor peso galo da história, integrante do Hall da fama e considerado o 36º melhor pugilista de todos os tempos. Eder Jofre teve uma carreira irrepreensível, que só teve solavancos em duas derrotas, para o mesmo oponente, o japonês Fighting Harada. Mas não é só. A história do paulistano criado no Parque Peruche é ímpar. Confira a entrevista com o Galo de Ouro, que comentou suas derrotas, a vida de vegetariano, a carreira de vereador e fez tributo a Kid Jofre, seu pai e técnico.

Desde a infância você foi envolvido pelo mundo do boxe, devido à sua família, formada não só pelos Jofre, mas também pelos Zumbano. Como foi aquela época?
Moramos em dois ou três lugares, inclusive em Santos, porque meu pai era técnico (Aristides “Kid” Jofre dava aulas de boxe). Mas morei mais tempo no Parque Peruche, na Zona Norte de São Paulo. E esse bairro era a coisa mais maravilhosa que tinha para criança. Brincava de carrinho de rolimã – que a gente mesmo fazia -, de esconde-esconde, pulava corda… Coisas que a molecada de hoje nem sabe o que é. Foi um tempo muito bom. E, felizmente, Deus olhou por mim e me deu essa vontade de treinar e lutar boxe. Desde molequinho eu colocava a luva com meus tios, os Zumbanos – minha mãe era Zumbano – e brincava com um ou outro no bairro. Sempre me saí bem e batia nos caras, porque meu pai, Kid Jofre, foi quem me ensinou a lutar, a ter a guarda correta, soltar os golpes corretamente. Não como hoje, que os caras dão golpe com o cotovelo aberto, a mão aberta. Nem sei como assisto a essas lutas.

Mas antes de entrar de vez no boxe, você tentou o futebol. Foi uma decepção para o seu pai…
Foi. E olha que era artilheiro do time [risos]! Hoje vejo os ponta-esquerdas… [mais risos e cara de decepção]. Eu queria ser jogador de futebol porque não ia apanhar na cara, porque você leva só uma ou outra “botinada”. Para mim, jogar futebol era uma diversão. Mas para o meu pai era um desgosto. Teve uma época que não ia à academia e falei para ele que achava que ia ser jogador de futebol. Ele ficou magoado, falava ‘Eder, você leva jeito para o boxe. Você é bom, se não fosse não colocaria meu filho para lutar’. Ele me incentivou neste sentido e acabei voltando a treinar, pra valer. Fui campeão do Sesi, da Gazeta, paulista, brasileiro…

Além do seu pai técnico, você teve a influência de tios e primos, os Zumbano. Uma frase famosa diz que “sempre haverá um Zumbano no ringue”. Você acredita nisso?
Só teve um Zumbano que não lutou na minha época. Entre os que foram pugilistas, Tonico, o peso pesado, pegava como um touro. E hoje tem o Raphael (Zumbano, seu primo), também pesado. E o cara é bom, valente, puxou a família. Acho que sempre haverá, temos poucos Zumbanos hoje, só o Raphael está treinando. Mas ele tem que cuidar dele mesmo agora, e não pensar nisso.

Qual dos parentes foi sua maior inspiração?
Foi o Ralf. Eu associava a técnica do Ralf Zumbano com a pancada do Zumbanão (Tonico). Pensava, ‘poxa, se eu pegasse como o Zumbanão’… É aquela coisa que você tem quando é moleque, eu os admirava, assisti a quase todos eles lutarem e me entusiasmei pra caramba.

Houve pressão quando você era jovem, para ser tão bom ou até melhor que eles?
Quando o público via que no primeiro round eu já estava com a guarda correta, já se entusiasmava. Aí viam que eu batia e apoiavam mais. E eu batia mesmo, tinha moleque que virava as costas porque sabia que ia para o chão. Mas sempre alguém comentava: ‘tem a família aí, não vai fazer feio’. Tinha gente da própria família que vinha perguntar se estava bem treinadinho. O mais importante é o treino: você se dedicar, treinar com a guarda do lado do queixo, a esquerda na frente, cabeça encolhida e conseguir abrir espaço para nocautear.

Porque você acha que os seus parentes não chegaram ao título?
Nós ainda não tínhamos contato com empresários que fizessem as lutas. Só depois de um bom tempo e, modéstia à parte, depois que passei a profissional, que conseguimos. Alguns viram que não ganhavam dinheiro e acabaram deixando de lado o boxe.

Sua carreira parece ter sido muito bem construída para você ser um campeão. E numa época em que os lutadores iam muito para o ringue.
Sim, é verdade. Na época em que passei a profissional havia empresários, como o Jacob Nahun, que pegava os amadores e passava adiante quem tinha competência. E aí se ganhava um dinheiro bom. Hoje em dia cadê os profissionais? Está difícil, principalmente para um peso pesado como o Raphael (Zumbano)…

Falando sobre sua trajetória, como foi a luta contra Joe Medel, prévia do combate pelo seu 1º título, em agosto de 1960, em Los Angeles?
Esta foi uma parada, foi o cara mais difícil que peguei. Passei muito dificuldade, mas ainda me recuperei para ganhar por nocaute. Um monte de gente me recebeu no aeroporto.

E a do cinturão dos galos, também em Los Angeles, contra Eloy Sanchez?
A do título foi moleza. Depois de pegar um Joe Medel, um Danny Kid – valente pra caramba – foi fácil. Eu levei a luta como queria e derrubei o cara logo. Depois da luta foi aquela satisfação, aquela alegria.

Como era o clima, já que havia muitos mexicanos na torcida por Sanchez?
Os mexicanos torciam e quando estava passando no corredor, na saída do camarim até chegar no ringue, o que eu ouvi… “Jofre, o Sanchez vai te matar, vai te nocautear”, “vai te ‘tumbar’ (derrubar)”. Eu só falei “lá dentro a gente vê”. Meus principais rivais foram sempre os mexicanos. Eles são fortes e valentes pra caramba. Mas se fosse um deles, nunca ia querer lutar com Eder Jofre (risos).

Depois da unificação você começou uma fase de baixa, que culminou numa parada do boxe. Quais eram as dificuldades?
Eu comecei a pegar mais peso. É normal, no boxe existem muitas categorias e isso é bom porque existe uma igualdade. Muita gente pergunta, o boxe não é violento? É claro que é violento, apanhar na cara não é violência? Mas tem regras, existe uma igualdade. Era um sacrifício danado, porque eu não era muito mais pesado que o peso galo, que é 53,5 kg. E chegava a 55kg, 54 kg, sem treino. Quantas e quantas vezes eu não passei com fome. E lutava com fome… Nocauteava rápido para ir para casa comer (risos)!

Uma curiosidade é o fato de você ser vegetariano desde essa época. Nunca teve algum prejuízo na preparação?
Eu como macarronada, como arroz e feijão, batata cozida ou frita e muito esporadicamente ovo. Tomo leite, iogurte, coalhada, mel… E nunca fez falta comer carne. Hoje até tenho nojo quando vejo gente comendo carne. É um contrassenso no esporte, mas eu sempre estive bem fisicamente.

As suas únicas derrotas foram para o japonês Fighting Harada. Qual o sentimento daqueles únicos tropeços?
Foi um momento de muita tristeza. Mas na minha concepção eu não havia perdido a luta. Porque se o juiz atuasse como um juiz de ringue, ele teria sido desclassificado. Ele deu cotovelada, deu cabeçada, me segurou. No boxe não pode fazer isso. Ele era bom, tinha um preparo físico que eu nunca vi igual em um lutador. Parecia que davam corda nele entre os assaltos.

Depois, você parou no boxe e fez uma série de exibições pelo Brasil. Isso encorajou sua volta?
Foi gostoso, a gente ia para o interior e enchia os ginásios. Eu tinha sido campeão mundial e depois de alguns meses das derrotas fui fazer essas exibições. E isso acabou ajudando para que eu voltasse ao boxe, eu vi que o povo estava do meu lado. Passei a peso pena, com alguns quilos a mais, e fiquei mais forte.

Mas seu filho também ajudou para essa volta, não é?
Foi mesmo. Ele falou: ‘Pai, o que você trabalha? Você não faz nada?’. Eu falei, ‘como não faço nada? Treino pra caramba’. Mas ele, molecão, ainda não sabia muito bem das coisas e decidi mostrar a ele o que eu fazia. Voltei e fui campeão de novo. Peguei paradas duras e nunca sofri uma derrota como peso pena.

Quais foram as diferenças entre os títulos?
Do pena foi mais fácil. Apesar de todas as lutas serem difíceis, eu ganhei todas. Fiquei entusiasmado, podia comer bem. Isso que era gostoso, fazer um treino puxado e poder me alimentar. Não tinha nada igual.

O fim de sua carreira foi complicado pela morte do Kid Jofre, seu pai e seu técnico desde o início, e de seu irmão, Dogalberto. A decisão de parar foi óbvia, por conta disso?
Era um momento de refletir bastante, pensar bem. Agora não sei falar o que passou na minha cabeça naquele momento, mas foi difícil… Tem mil palavras para enaltecer meu pai. Ele me passou a competência dele, os ensinamentos, e felizmente, como filho, pude assimilar tudo e ser bicampeão mundial. Infelizmente ele pegou câncer de tanto fumar. Depois que meu pai faleceu, meu irmão me ajudou, foi ele quem cuidou da academia. Modéstia à parte, eu sabia mais que ele, mas ter o incentivo do meu irmão fazia a diferença. Minha família felizmente sempre foi unida.

Fora do esporte você foi para a política, sendo eleito vereador em São Paulo. Porque não seguiu carreira até hoje?
Meu Deus do céu, haja paciência! E sabe por quê? Você sai na rua e todo mundo vem pedir uma casa, uma ajuda, uma graninha. É demais. Deu certo, mas em uma das eleições um cara colocou no jornal que eu não tinha feito nada. Fiz um montão de projetos, mais de 30. Aquela lei dos assentos para idosos nos ônibus e a do passe gratuito para eles é minha. Só que quando não fui eleito novamente decidi parar. Se o povo não quer, eu não vou.

Há muitas diferenças do boxe de seu tempo com o que começou nos anos 80 e deu nova vida ao esporte. Como você vê isso?
Infelizmente Kid Jofre já morreu. Ele sabia ensinar o boxe. É preciso ter técnica. Pra saber jogar futebol, o cara precisa saber driblar. Nós devemos aplaudir o Mike Tyson, ele não foi um garoto como eu, que desde moleque lutava. Só depois de muitos problemas ele se dedicou e foi o campeão que foi, um fenômeno para o boxe que fez muita gente voltar a lutar, levou o público aos ginásios. São essas coisas que fazem o boxe acontecer. Me mostra aqui no Brasil quem pode fazer isso… Nós temos bons lutadores, mas que não aparecem porque não têm chance de se dedicar aos treinos pela falta de apoio.

Do que você tem saudades?
Tenho saudade do tempo que eu lutava. Dá saudade, sim. Porque é gostoso, se você está fisicamente e tecnicamente bem, entra no ringue e não está nem aí com o Zé Mané que vai entrar do outro lado.

E resta algum sonho?
Eu sonho ver o Raphael como campeão, enaltecendo ainda mais o nome da família. Não é fácil, mas com muito treinamento e dedicação ele pode chegar lá.

Do Uol

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