Amigo são-paulino, leitor do Tricolornaweb, estou realmente chateado. Morreu Juvenal Juvêncio, pessoa que eu, como milhões de são-paulinos, amamos e odiamos em algum momento de sua história no Tricolor. Mas inegavelmente, um são-paulino de coração e que fez tudo, de acordo com sua consciência, que era melhor para nosso clube.
Juvenal foi o melhor diretor de futebol que conheci em minha vida. Fez parte, em 1986, da diretoria do então presidente Carlos Miguel Aidar. Não foi ele quem criou, mas foi por ele que passou a geração dos Menudos do Morumbi. Depois, como presidente, uma catástrofe, pois montamos aquele que foi, talvez, o pior time da nossa história. Mas trouxe Telê Santana e a partir dali teríamos anos de glória. (PS: quero fazer uma retificação neste texto, alertado que fui, que o responsável pela contratação de Telê Santana foi Fernando Casal De Rey, como diretor de futebol e Eduardo Mesquita Pimenta, como presidente).
Voltou à cena como diretor e vice-presidente de Futebol na gestão de Marcelo Portugal Gouvêa. Foi ele quem trouxe Cuca e uma penca de jogadores desconhecidos, baratos, quase de graça, mas que dariam um Paulista, uma Libertadores, um Mundial e três títulos brasileiros. Pelas suas mãos chegaram Danilo, Junior, Mineiro, Josué, Fabão, Rodrigo, André Dias, Grafite, Amoroso, Luizão, Lugano.
Tivesse Juvenal Juvêncio cumprido o que o estatuto do clube previa, e não rasgado esse regimento, sairia como o melhor presidente de nossa história, pois ao final dos dois mandatos de dois anos, ele teria sido, consecutivamente, campeão da Libertadores e Mundial como vice-presidente, tricampeão brasileiro como presidente e vice-campeão brasileiro no ano seguinte. Sairia e voltaria depois de dois anos, aclamados por toda a coletividade.
Mas foi exatamente na perpetuação do poder – ao invés de ficar quatro, ficou oito anos – que ele se perdeu. Seu egocentrismo e vaidade exacerbadas deixaram-no cego. No seu campo de visão apenas ele, e mais ninguém, teria condição de gerir o São Paulo. Seu fanatismo pelo Tricolor ultrapassou a razão e ele perdeu a noção da importância da alternância de poder.
Com as críticas que começaram a surgir e denúncias de corrupção, Juvenal foi se isolando e para manter-se forte, começou a distribuir cargos e presentes, como viagens com o time por conta do clube, contratos suspeitos, que agora serão auditados pela empresa contratada para analisar tudo que foi feito no clube nos últimos cinco anos, e um domínio absoluto e supremo sobre o CT de Cotia, tendo Geraldo como seu braço direito. Aliás, as denúncias que fiz sobre o CT de Cotia me custaram um processo, do Geraldo mas subsidiado por JJ. Ganhei e, até pelo tempo que o processo durou, fiquei cerca de três anos sem conversar com ele.
Um dia, já no meio das denúncias contra Carlos Miguel Aidar, um interlocutor dele me procurou e pediu que eu ligasse para ele, pois ele precisava falar comigo. Liguei e perguntei se ele ainda estava bravo comigo. Juvenal respondeu que não, pois fez duas – perdoem, leitor, mas usarei as palavras dele – cagadas na vida: uma brigar comigo; outra indicar esse fdp para a presidência do São Paulo. E a partir daí voltamos a conversar.
Não apoiaria sua volta à presidência do clube, se hoje ele tivesse plena saúde, pois acho que seu tempo passou. Mas tenho em conta que ninguém, nenhum outro presidente, fez pelo social o que Juvenal fez. O clube era exemplo, era digno, dava gosto de andar. As reformas, as obras, tudo impecável. O sócio do São Paulo poucas vezes foi tão respeitado quanto em sua gestão.
Juvenal Juvêncio ficará na história. O amei e o odiei como tantos outros milhões de são-paulinos. Mas nunca deixarei de reconhecer o que ele fez pelo São Paulo. E como gosto de ver sempre o lado positivo e acho que esse lado tem que superar o lado negativo – quando ambos existem -, estou com o coração enlutado pelo seu passamento.