Meia do São Paulo nos anos 90, Sierra torcerá pelo Tricolor

O chileno chamou a atenção de 100 mil são-paulinos no dia 3 de agosto de 1994, quando São Paulo e Unión Española (CHI) duelaram no Morumbi por uma vaga na semifinal da Taça Libertadores da América. Baixinho, com uma habilidade incrível com a bola nos pés e mortal nas cobranças de falta, José Luiz Sierra endureceu muito o jogo para o Tricolor. Além de marcar um gol de falta, participou dos outros dois tentos de sua equipe, que vendeu caro a derrota por 4 a 3. Curiosamente, ali começaria um processo de queda do time brasileiro, provocada pela saída da base que conquistou tudo no início da década de 90 e dos problemas estruturais no estádio Cícero Pompeu de Toledo.

Sem Raí e Leonardo, o São Paulo precisava de um novo camisa 10, um cérebro capaz de conduzir a reformulação da equipe dentro de campo. Por isso, o clube foi a Santiago e desembolsou US$ 1,2 milhão para contratar o então meia de 26 anos. Sua apresentação foi com status de craque: no gramado do Morumbi, com direito a chegada de helicóptero com toda a sua família.

– A recepção que o São Paulo me proporcionou ficará marcada para sempre na minha memória. Estávamos no aeroporto e a apresentação era longe, no Morumbi. De repente, apareceu um diretor me dizendo que íamos de helicóptero. Quando cheguei ao estádio, meus pais choraram muito. Posso dizer que minha passagem pelo São Paulo foi um grande momento na minha carreira – afirmou o hoje treinador do Unión Española, em conversa no Chile.

Dentro de campo, a esperança se transformou em desilusão. Mesmo sendo comandado por Telê Santana, Sierra teve muitas dificuldades de adaptação. A qualidade nos pés continuou a mesma, mas a maneira de atuar no futebol brasileiro era completamente diferente. No Chile, o time jogava em função dele. No Brasil, principalmente no São Paulo, ele devia se encaixar na engrenagem da equipe. Tanto que, em pouco mais de um ano, jogou apenas 43 partidas e marcou três gols.

A passagem não foi como a imaginada, mas Sierra só tem coisas boas a falar do São Paulo.

– Na época em que fui contratado, o São Paulo era bicampeão da Libertadores, bicampeão mundial de clubes, e tinha perdido uma nova decisão na América do Sul para o Velez. Era um time mundialmente conhecido, forte. Quem não queria jogar no São Paulo? Quando cheguei, a disputa por posições era muito grande. Havia muita gente boa. No começo, tive uma lesão muscular que me atrapalhou bastante. Quando voltei, entrava e saía da equipe. Depois de um ano, recebi uma proposta do Colo Colo e quis voltar porque precisava atuar para conseguir uma vaga na Copa do Mundo da França, em 1998. Não tenho absolutamente nada a reclamar do São Paulo – afirmou.

Apesar de ter jogado pouco no Tricolor, o dono da camisa 10 na época guarda com muito carinho uma partida em especial: a vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians, no dia 23 de novembro de 1994, pelo Campeonato Brasileiro.

– Aquele jogo foi especial. Lembro que fizemos 1 a 0 com o Cafu, o Corinthians empatou com o Marcelinho Carioca, e depois marquei de cabeça o gol da vitória. Pela rivalidade que existe entre as equipes, foi uma vitória muito festejada, principalmente para quem tinha pouco tempo de clube, como eu – lembrou.

Do grupo de trabalho daquela época, Sierra guarda recordações do goleiro e capitão Rogério Ceni, que hoje ainda defende a equipe do Morumbi.

– Ele é um cara acima da média. Além de belíssimo goleiro, é o maior goleiro-artilheiro do mundo. Posso dizer que ele é meu amigo e que tenho orgulho de falar que o tive como companheiro na minha carreira. Por favor, quando encontrá-lo, diga que mandei um forte abraço e fiquei muito feliz com a sua continuidade por mais um ano.

Disposto a reencontrar seu futebol, Sierra voltou ao seu país e vestiu a camisa do Colo Colo. Depois, teve rápida passagem pelo Tigres (MEX), onde também não obteve muito sucesso. Retornou ao Chile novamente pelo Colo Colo até voltar em 2002 para sua casa, como ele mesmo define a Unión Española. Lá, jogou mais sete temporadas até se aposentar em 2009, já com 41 anos. No modesto clube que fica na periferia de Santiago, iniciou carreira como treinador dos juniores. Em 2012, acabou promovido para o time profissional. Como técnico, o gringo diz ter adotado uma combinação de estilos: paizão, mas enérgico quando precisa.

Nesse momento, tem uma tarefa dura pela frente: eliminar a campeã La U dos playoffs do campeonato chileno. No primeiro jogo, disputado no estádio Santa Laura, houve empate por 0 a 0. O jogo decisivo será disputado no domingo.

– Estou sempre junto dos meus jogadores. Converso, dou espaço para falarem. Mas peço que todos tenham seriedade e profissionalismo. Domingo, teremos um jogo muito difícil contra o Universidad de Chile, mas podemos vencer. Estamos trabalhando forte porque chegou a hora do tudo ou nada. Mas confio nos meus atletas – ressaltou.

Como treinador, Sierra conhece com riqueza de detalhes o Universidad Católica, adversário do São Paulo na noite desta quinta-feira, pela Copa Sul-Americana. O chileno não hesita em apontar o Tricolor como favorito, mesmo com o duelo sendo disputado no estádio San Carlos de Apoquindo.

– Desde o começo do ano, enfrentamos oito vezes a Católica. Jogamos pelo Apertura, pela Copa Chile, pela Libertadores e pelo Clausura. É um time muito diferente de La U, que sai para o jogo e deixa jogar. A Católica espera o adversário e não se arrisca muito. Eles têm bons valores, mas acredito que o São Paulo vá se classificar. Aposto em duas vitórias – finalizou.

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