Ganso explica por que prefere passe ao gol: “Mostra que sou diferente”

Paulo Henrique Ganso é tão diferente que prefere deixar um companheiro na cara do gol a estufar, ele mesmo, a rede adversária. Parece difícil entender, mas não é. O meia do São Paulo gosta de ser e parecer genial. De enxergar o que ninguém enxerga. De atingir o grau máximo de dificuldade nas ações, ainda que elas pareçam naturais. O desejo de se soltar do mundo dos “normais” faz com que o passe seja, para ele, a cereja do bolo.

Gol? Os artilheiros fazem, os zagueiros também. No time dele, até o goleiro faz. Mas o passe…

– É muito difícil achar um companheiro na cara do gol. Isso me deixa feliz porque não são todos os jogadores que fazem, só os diferentes. Então, isso me mostra que realmente sou diferente – afirma, sem falsa modéstia.

Ganso tem apenas 25 anos, mas já deu voltas nas previsões por duas vezes na carreira. A primeira não foi positiva. Muitos o apontavam como um gênio talvez até melhor que Neymar, no surgimento da dupla no Santos, mas o craque sucumbiu diante de problemas físicos. Depois disso, chegaram a considerá-lo um jogador “gelado”, sem sangue nas veias, caso perdido. De novo, erraram feio.

Com a camisa 10 do Tricolor às costas, ele termina 2014 com o vice-campeonato brasileiro, tendo participado de 61 dos 69 jogos da equipe, vibrante a ponto de se tornar “reclamão”, comparado por Rogério Ceni ao genial tenista Roger Federer, e apelidado de “Google” por Kaká, pois a tudo e todos consegue encontrar dentro de campo.

Entrevista Ganso São Paulo (Foto: Marcos Ribolli)Ganso se diz bem à vontade no São Paulo e  nem pensa no momento em sair do país (Foto: Marcos Ribolli)

Uma virada surpreendente, apoiada numa preparação física intensa, no companheirismo que encontrou no torcedor, e que não chegou ao ápice. Ganso quer mais em 2015. Quer jogar ainda melhor – e conta nesta entrevista ao GloboEsporte.com o que precisa fazer na próxima temporada –, voltar à Seleção e ganhar títulos pelo São Paulo. O único até agora foi a Copa Sul-Americana de 2012, quando atuou como mero coadjuvante, pois havia acabado de chegar.

GloboEsporte.com – Ganso, você disputou 61 jogos neste ano. Para um jogador que ficou marcado por não conseguir ter sequência, o número pode ser considerado um título pessoal?
Ganso – Essa é uma conquista que venho tendo desde o ano passado. Só perdi alguns por suspensão. Mas, para mim, o importante foi ter, além de quantidade, a qualidade. Mostrar o futebol alegre que todo mundo quer ver.

Então a diferença para 2013 foi ter conseguido aliar qualidade com quantidade?
Foi uma coisa grandiosa porque no ano passado nós brigamos para não cair. Eu estava jogando bem, mas se não consigo ajudar o São Paulo a brigar por títulos, ninguém enxerga. Espero que em 2015 eu possa fazer ainda mais jogos, com mais qualidade e, se possível, com títulos.

O que não fez tão bem em 2014, que pode melhorar em 2015?
Chutes de fora da área. Fiz muito pouco, preciso melhorar muito. Arriscar mais jogadas individuais perto da área também. Quero e vou melhorar em 2015.

Além de ter jogado muitas vezes, você se tornou mais combativo em campo. Isso exige um esforço físico maior. Como é sua preparação? Faz algo diferente de anos atrás?
Diariamente, faço trabalho funcional ou reforço muscular, trabalho isocinético (consiste na análise das capacidades musculares), um pouco de cada coisa. Isso dá mobilidade e potência muscular para que eu possa dar combate dos dois lados, roubar bolas e estar presente na área para fazer os gols. Sempre fazemos musculação antes dos treinos porque é jogo atrás de jogo. Sem isso, acabamos perdendo massa muscular.

Na reta final do Brasileiro, o Muricy disse que não te poupava porque você fazia a bola correr e não corria tanto. Mas em alguns jogos que o São Paulo se defendeu com duas linhas de quatro, você teve de acompanhar o lateral pelo lado direito. Concorda com essa impressão de que não corre tanto?
É uma impressão do Muricy, né? (risos). Que faço a bola correr muito… Quando se faz um bom treinamento e está bem posicionado, você corre menos, entre aspas. Corre certo por estar bem posicionado. Nosso time teve boa postura tática, por isso eu corria menos, entre aspas.

Foi-se o tempo em que o jogador mais dotado de talento corria menos que os outros?
Hoje, todo mundo corre, mesmo um jogador mais talentoso. A não ser que o treinador monte uma equipe para o talentoso resolver. Depende do treinador, da equipe, do grupo.  Porque, às vezes, um grupo não aceita esse tipo de coisa. Imagina se o Kaká chega e nós formamos uma equipe para ele jogar? Talvez não aceitassem. Mas ele mostrou sua forma tática, correu como um garoto, deu exemplo para todos e se encaixou muito bem.

E te apelidou de “PHGoogle”.
(risos) O apelido é uma brincadeira do pessoal que fala que sempre consigo encontrar os atacantes na cara do gol, os deixo numa posição muito boa. Por isso, o apelido.

E por que vê um jogo que os outros não veem?
Eu sempre procuro ter várias opções de passe, pensar à frente do zagueiro. Imaginar o que ele vai fazer, se vai sair à direita, à esquerda, pra frente ou pra trás. Antecipar a jogada antes do adversário.

Entrevista Ganso São Paulo (Foto: Marcos Ribolli)Ganso atendeu à equipe do GloboEsporte.com na semana passada (Foto: Marcos Ribolli)

Há um exercício para isso ou é apenas dom?
Um pouco de dom e um pouco de pensamento. Antes dos jogos, eu fico pensando no que pode acontecer, fica tudo meio automático na minha cabeça.

Cria as jogadas na sua cabeça, antes de o jogo começar?
Crio as jogadas, mas nem sempre elas saem certas. Pelo menos fica na criatividade.

Lembra-se de algum lance idealizado antes do jogo e que tenha se concretizado?
Olha, teve um passe para o Pato no Morumbi. Nós ganhamos de 2 a 0, mas ele perdeu esse gol. Ele é muito inteligente, se desloca muito fácil, e eu sabia que o zagueiro ia abrir e eu conseguiria encaixar essa jogada. Estava meio predefinida.

Você, talvez, seja o único jogador que prefere dar um passe difícil, uma assistência, a fazer um gol. Isso o faz se sentir mais genial?
É que o passe é muito difícil numa partida de futebol. Conseguir achar um companheiro na cara do gol, só para fazer o gol contra o goleiro, ou mesmo sem goleiro, só para dar o toque de lado. Isso me deixa feliz porque, como é tão difícil, não são todos os jogadores que fazem, só os diferentes. Então isso me mostra que realmente sou diferente. Por isso, gosto de dar esse passe que desconcerta qualquer equipe.

Houve um trecho do campeonato em que você e o Pato criaram muitas chances de gol. Acho até que ele perdeu a maioria, mas desde o Neymar não surgia um jogador que te desse tanta opção de passe, concorda?
O Pato é muito inteligente, está sempre bem posicionado, acho que pela facilidade de arranque e a força física. Ele tem a facilidade de sair sempre na frente do zagueiro, isso facilita bastante. Espero que em 2015 ele faça todos os gols que criarmos (risos).

Outra marca sua neste ano foram os cartões amarelos, alguns por reclamação. Tornou-se um jogador “reclamão”?
Procuro sempre conversar com a arbitragem. Às vezes, reclamo porque no campo não dá para ter sangue de barata. Quero ganhar todos os lances, escanteios, pênaltis, faltas. Acho que a qualidade da nossa equipe e a briga pelo título criaram esse espírito, me motivaram ainda mais.

Mas não se preocupa em criar uma fama negativa com a arbitragem? É visível que alguns jogadores recebem tratamento diferente dos árbitros depois de um certo histórico.
O cuidado é saber conversar. Tem hora que não dá. No ritmo do jogo, na intensidade, acabo extrapolando, mas procuro conversar numa boa.

Como é ter tanta gente opinando sobre seu estilo de jogo? O Muricy, seu técnico, o quer dentro da área. O Tostão (ex-atacante e colunista da “Folha de S.Paulo”) acha que você deveria jogar de área a área, semelhante aos meio-campistas europeus. O Luxemburgo também opina. Você absorve e tenta usar algo no seu jogo ou ignora e atua da maneira como acha certo?
Eu pego conselhos de cada um, um pouquinho de cada coisa se for para ajudar a melhorar. Já trabalhei com o Vanderlei Luxemburgo. Ele me ajudou bastante, diz que tenho de estar próximo da área porque ali vou causar perigo ao adversário. O Tostão fala de jogar de área a área e isso depende da força física, que estou melhorando bastante. E o Muricy me cobra para entrar na área. Entrei e fiz alguns gols para ajudar o São Paulo.

Num deles, inclusive, o Muricy disse que você demoraria meses para entrar de novo.
É, e no jogo seguinte eu fiz outro gol, né? Brinquei com ele: sou artilheiro (risos).

Quando se transferiu do Santos para o São Paulo, o ex-presidente Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro disse que você tinha uma lesão incurável. Ele voltou atrás na declaração em razão de sua boa fase. Como reage a isso?
Desde o dia em que ele falou, entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Sei da minha qualidade e de tudo que se passou. Quem planta o bem colhe o bem. Foi muito pesado o que ele falou. Não tenho que perdoar, quem perdoa é Deus. Espero que ele possa aceitar de coração que estava errado e veja os bons frutos que estou colhendo.

A torcida do São Paulo tem uma relação bacana com você, ao contrário do que aconteceu nos seus últimos meses de Santos. Hoje, acredita que sua identificação aqui já é maior do que foi no antigo clube?
Desde a minha chegada, recebi muito apoio de todo mundo que trabalha no São Paulo, e o do torcedor foi um diferencial porque eu precisava muito naquele momento conturbado. Isso me deu força para treinar mais, lutar mais por esse time. Hoje, sem dúvida alguma, eu me sinto muito em casa. Para melhorar ainda mais minha relação com o torcedor do São Paulo, quero dar um título a eles. Vários. E espero que seja um especial, que é a Libertadores.

Ela nem começou e já está difícil, não é?
Começou difícil, com uma chave complicada, mas temos uma grande equipe, e reforços ainda podem chegar para melhorar.

Um jogador como você torce para ter duelos como o clássico contra o Corinthians logo na fase de grupos? Isso instiga?
Eu gosto de jogos decisivos. Numa grande competição, poder eliminar grandes equipes numa primeira fase é importante.

Voltar a ser convocado pela seleção brasileira é outra meta para 2015?
Vestir a camisa da Seleção vai ser algo natural. Estou fazendo um bom trabalho para um dia ter essa oportunidade. A meta principal é melhorar minha qualidade de jogo pelo São Paulo e ganhar os títulos que quero muito.

Quanto a renovação do Rogério pode contribuir para o sucesso do São Paulo em 2015?
O Rogério é o líder da nossa equipe. Formamos um bom grupo em três ou quatro meses, que pode melhorar com reforços. E ele é o líder essencial para as competições que vamos disputar. Sem ele, a busca dos títulos seria muito complicada. Com ele, temos uma grande chance.

Paulo Henrique Ganso São Paulo (Foto: Marcos Ribolli)Ganso diz que vem “aprendendo” a ser capitão com Rogério Ceni
(Foto: Marcos Ribolli)

Ele te comparou ao Roger Federer.
(risos) O Rogério é o mito, sou fã incondicional dele. Já era antes, hoje então, dentro e fora de campo. Ele me ajudou muito.

Ele disse a nós que você é o jogador mais extraordinário com quem ele já atuou. Essa relação com um cara que está há 25 anos no clube injeta uma responsabilidade diferente em você?
A responsabilidade aumenta demais, mas eu tenho meu futebol, minha qualidade, sei o que representa essa camisa do São Paulo. A número 10, então, é grandiosa. Fico lisonjeado pelo que ele fala de mim. Tenho de melhorar a cada jogo para dar um título não só ao torcedor, mas também ao Rogério.

Sentiu-se bem com a faixa de capitão?
Eu me senti superbem. Apesar de falar pouco dentro do vestiário, só mais nas brincadeiras.

O Rogério ressaltou sua liderança técnica ao falar dos capitães que usaram a faixa. Acha possível um jogador conquistar o respeito de todos apenas por seu talento ou é preciso ter uma ascendência diferente sobre os companheiros?
Com a qualidade dentro do campo nos treinos e jogos, você acaba ganhando a confiança do grupo, e isso te dá certa liderança. Para ser campeão, um grupo precisa de vários líderes, e do líder principal, o capitão, que hoje é o Rogério. Eu me sinto um líder na equipe, espero falar mais. Estou convivendo com o Rogério, quero pegar experiência para um dia ser capitão.

O carteado uniu vocês?
Carteado, pôquer, sinuca, cacheta… Tudo que tem, nós brincamos. E pego um pouco da liderança dele.

Você falou da camisa 10, que assumiu depois da saída do Jadson. Sente-se melhor com ela do que com a 8, não é?
Por eu ser fã do Kaká, acabei chegando com o número 8, mas nunca tive esse problema. Usei a 8 de um ídolo, agora uso a 10 que foi do Raí, de quem também sempre fui fã.

Você e o Neymar ainda se falam com frequência? Mantiveram a mesma amizade?
Estamos sempre nos falando por WhatsApp, telefone, não perdemos a amizade. O mais importante é saber que ele está feliz num grande clube e na seleção brasileira, isso me deixa orgulhoso.

Você já disse para ele não virar mais amigo do Messi do que seu?
(risos) Isso nem preciso falar, ele sabe de coração. Eu falei que daqui a pouco, se tudo correr bem, estaremos juntos novamente na Seleção.

Seu contrato vai até 2017, mas você sempre falou do sonho de atuar na Europa. Como vê isso atualmente?
Quando se está feliz num lugar, acaba-se até esquecendo esse projeto. Claro que é o sonho de todo jogador atuar num grande clube da Europa, mas hoje estou bem tranquilo e feliz no São Paulo. Se tiver que acontecer, que aconteça naturalmente. Mas tenho vida longa aqui.

 

Fonte: Globo Esporte

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