Em 1998, time de Bauza fez Santos correr “risco de vida” ao decidir título

Ao dirigir o São Paulo no clássico desse domingo, diante do Santos, o argentino Edgardo Bauza subirá ao gramado da Vila Belmiro pela segunda vez como técnico. Na única oportunidade em que esteve no estádio, no dia 7 de outubro de 1998, o Patón iniciava a carreira no banco do Rosário Central e disputava com o Peixe o título da extinta Copa Conmebol. Segundo edição da época do jornal A Gazeta Esportiva, os alvinegros enfrentaram um “jogo violento e confuso” que terminou com vitória por 1 a 0 dos brasileiros e cinco jogadores expulsos. Na volta, o Santos chegou a “correr risco de vida” antes de empatar por 0 a 0 e ficar com o troféu continental.

A publicação apresentava o Rosário Central como uma equipe sem grandes atrativos técnicos, mas com a mesma responsabilidade defensiva que Bauza implementou no São Paulo. “Apesar de não contar com nenhum jogador da seleção argentina, o Rosário faz uma marcação bastante forte e sai rapidamente para os contra-ataques”, reportou o jornal. Mas, ao enfrentar o Santos no primeiro jogo da final, o time argentino se mostrou provocativo e violento.

Logo aos nove minutos da etapa inicial, o atacante Scotto agrediu o goleiro santista Zetti. “No tumulto, o argentino e Viola foram expulsos”. Aos 27, Ânderson cobrou escanteio e Claudomiro marcou de cabeça após indefinição do goleiro Buljubasich. O Peixe, no entanto, sofreu com a arbitragem confusa do uruguaio José Luís Rosa. “Quando todos esperavam que o Santos fosse pressionar, o árbitro expulsou o zagueiro Jean, sendo que a falta foi cometida por Narciso”.

(Foto: Arquivo/Gazeta Press)
Cinco jogadores foram expulsos na vitória por 1 a 0 do Santos sobre o Rosário Central, em 1998 (Foto: Arquivo/Gazeta Press)

Jean foi para os vestiários chorando e, no intervalo, dirigentes santistas foram pressionar o juiz. Antes do início do segundo tempo, o treinador alvinegro Emerson Leão se desvencilhou de três policiais e enfiou o dedo indicador no rosto de Rosa. Expulso de campo, o técnico brasileiro viu das tribunas o antijogo que os comandados de Bauza colocaram em prática. “Aos 11 minutos, Carracedo foi expulso por uma entrada violenta em Claudomiro”.

“Aos 27, Cappelletti cometeu pênalti em Athirson e, na cobrança, Narciso bateu rasteiro, direto para a linha de fundo. Depois, Montoya também foi expulso, aos 38 minutos, mas o Peixe não teve mais forças para ampliar”. Terminada a partida, Leão disparou críticas à forma como o Rosário Central se comportou em campo. “É difícil enfrentar os argentinos e um uruguaio na arbitragem. Éramos para ter vencido por 6 a 0, no mínimo. Tudo bem, vamos para lá para ganhar. Não vamos afinar de jeito nenhum, se querem praticar o antijogo, vamos praticar”.

Clima de guerra – As ameaças de Leão inflamaram os torcedores do Rosário Central no jogo de volta. Bauza também mudou a mentalidade do time e adotou táticas semelhantes às que coloca em prática no São Paulo, “marcando a saída de bola santista” e “forçando o jogo pelas pontas”. “Temos de ter a iniciativa do jogo, mas sem dar espaços. O time tem de ter inteligência”, afirmou o Patón, antes da partida realizada no dia 21 de outubro de 1998.

Leão, que havia sido punido com seis jogos de gancho por agredir o juiz na Vila Belmiro, quis proteger os santistas da hostilidade de Rosário e só viajou à cidade na véspera da partida. O treinador ainda cancelou o reconhecimento do estádio Gigante de Arroyito por temer a violência da torcida argentina. Mesmo com as precauções, A Gazeta Esportiva classificou a grande final como uma “verdadeira guerra”. “Posso dizer que pela primeira vez entrei num estádio debaixo de tiros”, disse Zetti.

(Foto: Arquivo/Gazeta Press)

Título deu prejuízo para o Santos

Uma das precursoras da Sul-Americana, a Copa Conmebol era “um torneio sem o mínimo de valor para os brasileiros”, conforme A Gazeta Esportiva relatou. O jornal dizia que o “desinteresse da torcida, mais preocupada com a participação de seus clubes no Brasileirão”, causava prejuízo financeiro às equipes nacionais.

Com o Santos não foi diferente. “O Peixe tem pago para jogar e, se vencer, aumenta o rombo no cofre, pois pagará um prêmio entre U$S 8 mil e U$S 10 mil para cada jogador que participou da campanha”, publicou o jornal, antes de o título ser confirmado pelos alvinegros.

Para os demais times sul-americanos, no entanto, o torneio era sinônimo de “prestígio, satisfação e faturamento”. O jogo contra o Santos contou com 42 mil pessoas nas arquibancadas do Gigante de Arroyito, sendo que o preço dos ingressos variou de cinco a doze dólares.

Bombas caseiras feitas com sabugo de milho foram atiradas contra o ônibus santista. Leão era o alvo dos argentinos, mas quem levou a pior foi o preparador físico Walmir Cruz, “atingido por um porta-guardanapos no ombro esquerdo, que provocou um ferimento de aproximadamente 10 centímetros”, e o roupeiro Jairo, agredido por um torcedor com um pontapé nas costas. A confusão só teve fim quando policiais atiraram para o alto e dispersaram os “canallas”, como eram conhecidos os fanáticos do Rosário Central.

A falta de segurança fez o Santos pedir o adiamento da partida, mas a Conmebol convenceu os dirigentes que a medida acarretaria em um “inevitável tumulto”. O policiamento no estádio foi reforçado e Leão foi autorizado a comandar o Peixe do banco de reservas para não criar confusões nas arquibancadas. “Nossos jogadores não tinham condições de jogar. Corremos sérios riscos de vida”, afirmou o treinador brasileiro.

Com a bola rolando, o Santos se mostrou assustado e só finalizou uma vez, aos 11 minutos do primeiro tempo. O Patón também esbanjava nervosismo no banco do Rosário Central e fumava um cigarro atrás do outro enquanto passava ordens aos argentinos. Daniele, pelo Rosário, e Eduardo Marques, pelo Santos, foram expulsos. O goleiro Zetti – o melhor em campo – praticou três grandes defesas para salvar o Peixe. E com chutões para todos os lados, os alvinegros asseguraram o 0 a 0 que garantiu um troféu internacional após 29 anos de jejum.

 

Fonte: Gazeta Esportiva

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