Disposto a voltar, Marco Aurélio vê São Paulo parado: ‘Hora de mudar’

Eu vou, mas volto’. Marco Aurélio Cunha tem em seu gabinete, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, da qual é vice-presidente, um quadro com uma matéria de janeiro de 2011, quando deixou o São Paulo Futebol Clube com a promessa de retornar. Segundo ele, a reportagem está lá desde então. Uma bandeira de mesa do clube, livros de futebol, fotos de quando foi médico e superintendente do clube. As recordações são muitas, e Marco Aurélio decidiu que é hora de voltar. E como presidente.

Dirigente mais popular do Tricolor nos últimos tempos, o vereador anunciou na última semana que tem intenção de suceder Juvenal Juvêncio em abril de 2014. Para isso, precisa do apoio de 55 dos 160 conselheiros vitalícios. No total, são 240 integrantes no Conselho. Não é tarefa simples, mas Marco Aurélio se diz incomodado com a gestão do futebol do São Paulo. Os maus resultados e o apelo de torcedores o motivaram a lançar sua candidatura.

– Está na hora de rever o São Paulo. A criatividade se esgotou, as ideias se esgotaram, e os outros clubes estão chegando perto. Nosso produto está em esgotamento.

A campanha pela presidência já tem até slogan: “De volta para o futuro”. Inspirado no sucesso do cinema, ele quer voltar ao Morumbi, onde foi superintendente de futebol nas últimas gestões, de Marcelo Portugal Gouvêa e Juvenal Juvêncio, mas saiu no início de 2011. Marco não era favorável ao terceiro mandato do atual presidente, obtido por meio de manobra política na ocasião, e também não se sentia mais ouvido.

Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM (assista no vídeo acima), o possível candidato não citou o nome de Adalberto Baptista, mas deixou clara sua insatisfação com a atuação do diretor de futebol são-paulino. Também fez questão de ressaltar a admiração por Juvenal, mas não o poupou de críticas em relação ao período final de sua gestão, e citou o Corinthians, que adorava provocar, como exemplo.

Entre as propostas para o São Paulo, Marco Aurélio cita um profissional remunerado para cuidar do futebol, defende o direito de voto aos associados do clube – hoje apenas os conselheiros escolhem o presidente, e revela como montaria seu grupo de jogadores.

marco aurelio cunha são paulo (Foto: Marcos Ribolli)Gabinete de Marco Aurélio é recheado de recordações do São Paulo (Foto: Marcos Ribolli)

GLOBOESPORTE.COM: O que o motivou a iniciar essa campanha aberta por mudanças no São Paulo?

Marco Aurélio Cunha: Há muito tempo me sinto incomodado com a falta de conhecimento técnico na gestão do futebol. Dei tempo para ver se o errado era eu. São quase dois anos e meio que saí do São Paulo, e passado esse semestre de grandes contratações e péssimos resultados, entendi que era hora de mudanças. É hora de rever o São Paulo. Não dá para todo ano apresentar uma nova fórmula que é a mesma. A criatividade se esgotou, as ideias se esgotaram, a forma de operar o futebol se estagnou. O São Paulo está patinando e os outros chegando perto. É o risco de não analisar nosso produto, que está em esgotamento. E inúmeras pessoas na rua me pedem para fazer alguma coisa, dar transparência. Esse, sinceramente, foi meu calor. Chegou a hora de o São Paulo ser transparente.

Os outros estão chegando perto ou já deixaram o São Paulo para trás?

Deixar para trás eu diria que não. Ainda temos mais títulos, patrimônio. Mas o Corinthians é a melhor equipe recente do Brasil. Falam do Atlético, mas precisam ganhar. O Corinthians ganhou Mundial, Libertadores e Brasileiro, e conseguiu afastar o que mais o incomodava, a interferência de muita gente das torcidas, que o São Paulo tem a vantagem de não sofrer. A zona de tranquilidade em que nos encontrávamos fez com que o modelo não fosse aperfeiçoado, novas ideias não fossem ouvidas, e a mesmice tomou conta da gestão do futebol. Não falo, por exemplo, do CT de Cotia, que é muito bonito de se mostrar, mas difícil de justificar. O produto final tem sido pífio, é preciso rever conceitos.

O São Paulo contratou jogadores que interessariam a grandes clubes: Luis Fabiano, Jadson, Ganso, Lúcio… O que há de errado que impede o sucesso da equipe?

Eu estava me prometendo fazer propostas e não críticas, mas não posso fugir à sua pergunta. Você pode contratar grandes jogadores, mas eles cabem juntos? No Corinthians ninguém é destaque individual, só o Pato, que foi contratado por uma fortuna, e não se cobra dele a titularidade como se cobra do Ganso. Porque o time compete e tem grandes resultados. O São Paulo compra jogadores sem planejamento de coalisão. A história desse time do Corinthians se parece com o que o São Paulo fazia. Eles nos copiaram com êxito, e nós estamos partindo para o passado: contratar um grande nome para a torcida sossegar.

Não analisam a parte coletiva?

Muita gente criticou Ganso e Jadson contra o Atlético. Mas qual era a defesa? Paulo Miranda, um zagueiro improvisado na lateral e que já foi tirado da concentração (no ano passado ele foi vetado pela diretoria contra a vontade do técnico Emerson Leão). O Toloi é um menino a ser formado, tem erros básicos, vai ser um ótimo zagueiro. O Edson Silva é um bom jogador para compor grupo, e o Carleto passou a ser titular de um reserva que custou sete milhões e foi dispensado. Qualquer um deles se daria bem num clube bom, mas os quatro juntos, não! Uma defesa reserva para enfrentar Tardelli, Bernard, Jô e Ronaldinho. É saber que já perdeu. Vale a pena contratar Ganso e Jadson se você não tem suporte defensivo? Eles não conseguiram receber a bola. Não é culpa deles. A bola não chegou aos dois. Não chegou ao Luis Fabiano. Ele podia fazer mais? Podia, mas a bola não chegou. Um time tem de ser equilibrado, como Corinthians, Atlético, Fluminense.

Você se manifestou pela primeira vez após a lista de dispensas. Isso incomodou?

É o que há de mais arcaico no futebol e contraproducente em qualquer relação negocial. Quando não gosta do jogador, chama o empresário, diz que vai tentar negociar. Mas expor jogadores que nem disputaram a Libertadores não faz sentido técnico. O Wallyson foi contratado com lesão, se recuperou, ficou no banco, e entrou um menino que havia chegado há uma semana do Penapolense para virar um jogo contra o Atlético no Independência. Ele não sabia nem o nome dos companheiros. Quando você pega um curinga no baralho é porque joga mal, tem de usar as cartas da mesa. Você manda o Cortez, que custou sete milhões, para a lista de dispensa, e volta com o Juan, que havia sido posto no purgatório. Qual o critério?

E como você pretende montar sua equipe e minimizar os erros?

Primeiro conhecer o jogador como pessoa, caráter. O Lúcio é bom, tem perfil de liderança, mas é individualista, fechado. Estou contra ele? De jeito nenhum! Vou conviver com ele assim, mas quem combina com um sujeito assim? Como fazer para lideranças não colidirem? Antes de dar treino, é preciso fazer virar um grupo de gente que trabalha junto, o mais difícil é fazer eles se gostarem, entenderem o clube. Propostas individuais liquidam qualquer time. Você pode me perguntar do Rogério Ceni. Ele é uma exceção à parte porque tem a história ao lado dele, quer vencer o tempo todo e ajuda a vencer. Sou testemunha porque estive ao lado dele em mais de 500 jogos. Ele é a individualidade dando exemplo ao coletivo. Organizar uma equipe é organizar cabeças, comportamento. Não quero um grupo de freiras, e nessa análise entram as informações. O sujeito que não tem informação, dança. É ligar para um amigo e perguntar. Mas pessoas confiáveis, não empresários. Estamos contratando por estimativa de repercussão, não por conteúdo de jogo, como fizemos em 2004 e 2005.

Então seu modelo é o próprio São Paulo?

Tenho muita preocupação com isso porque não quero voltar ao passado. O São Paulo não se repete. Claro que um ou outro, como o Rosan (fisioterapeuta demitido em março pelo São Paulo), você pode ter de volta, mas quero criar outros personagens, outras revelações. O Fábio Mahseredjian (preparador físico do Corinthians) fui eu quem trouxe para o futebol, e, como ele, há outros brilhantes profissionais apagados. Mas só nós, que militamos no futebol, temos conhecimento. Quem vem de fora não conhece.

Falta humanidade à gestão de futebol do São Paulo?

Absoluta. O problema do São Paulo é de recursos humanos. Um cidadão como o Rosan chega da seleção brasileira às sete da manhã, na quinta-feira, véspera da Páscoa, e estão no CT o sujeito do RH, o gerente e o diretor de futebol para demiti-lo? Nem vou discutir hierarquia, mas a forma. Um profissional que fez inúmeros favores, muitos jogadores vieram para o São Paulo por conta dele. Ele foi para a Europa a mando do clube para recuperar jogadores e criar proximidade. Por que demitir às sete da manhã, na véspera de feriado, na semana de clássico contra o Corinthians e de jogo decisivo na Bolívia? Demite depois! Espera passar a fase crítica, não cria um caso pior. Todo mundo fica assustado, esse clima não ganha. O problema do São Paulo é felicidade. Às vezes, eu brincava num rachão, e o São Paulo é meio conservador. Onde já se viu jogador empurrar o superintendente? Isso que era vida, resultado, isso traz vitória. Não é indiferença, ar condicionado, distância, contratação e demissão.

Marco Aurélio Cunha são paulo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)Marco Aurélio em entrevista para reportagem do Globoesporte.com (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)

Faz parte de seus planos ter um profissional remunerado para cuidar do futebol?

Absolutamente faz. Alguém com conhecimento técnico. Pode ser um jogador que tenha atuado por outro clube, mas muito melhor se estiver na história do São Paulo. Alguém sério, capaz, líder, competente, não alguém porque jogou bem ou fez gol de título.

Mas tem de ser um ex-jogador?

Acho melhor. O futebol tem de ser devolvido aos ex-jogadores. É um sonho que tenho. Eles têm de melhorar, ter cabeça, juízo, formação profissional pós-carreira. Veja o Breitner, o Beckenbauer, o Platini, agora o Luis Figo.

No Brasil o Edu Gaspar, do Corinthians, é um exemplo?

É. Ele se tratou conosco no Reffis e sempre vi nele um perfil competente, é um exemplo de pessoa. O dirigente só usa o futebol. Eles são pouco sensíveis a entender que só estão ali porque os jogadores existem. Quem manda são os artistas. É preciso profissionalizar e o dirigente, cada vez mais, desaparecer. Eu sou até a antítese do que estou pregando. Sou brincalhão, apareço, mas o dirigente não pode falar que o resultado é dele. Quem fala é o jogador, o técnico, e você só fica por trás sorrindo, vibrando, e pensando nos próximos passos. Se ficar contando vantagem, dá no que deu. Após cada vitória, é preciso pensar em como conseguir a próxima. A festa é de quem joga.

Qual a possibilidade real de você ser candidato, e eleito?

Colocar de maneira clara o processo eleitoral do São Paulo. Estou sendo criticado por querer abrir o São Paulo. Claro que tem de abrir! Que história é essa de meia dúzia se sentarem à mesa e decidirem o futuro de 17 milhões? Vamos deixar para falar sobre isso em fevereiro? Eles fazem política todo dia, ficam conquistando os vitalícios, que são pessoas de mais idade, com história feita em prol do clube, que talvez tenham perdido um pouco da qualidade de vida e têm no São Paulo seu maior gosto. E são agradados com mimos, jantares, viagens. Eles têm um compromisso vital com o São Paulo, o voto é deles. Não preciso ser eu, mas temos de mudar, e ter transparência na eleição: quem votou, por que votou, por que tem medo de votar contra ou a favor, que benefício tem no clube por votar contra ou a favor. É isso que precisamos mostrar. O vitalício está com vergonha de sair na rua. Está sendo gozado, e esse é o caminho se não mudarmos.

Sua relação com o Juvenal era ótima…

O Juvenal foi um dos maiores presidentes da história do São Paulo. Fez uma evolução patrimonial, construiu, foi persistente, brilhante, mas de dois anos pra cá entregou as coisas, centralizou o restante. Ele tem de fazer uma reflexão…

Mas ele diz que não tem culpa de nada.

Culpa é uma palavra pesada, vem de omissão, má fé. Eu não acho que ele tenha culpa, mas tem responsabilidade. Se ele disser que não errou, vou discutir com ele. Ele falou muito “eu” quando deveria falar “nós”. Penso num clube em que a palavra será “nós”. Não vai ser bagunça, com todo mundo dando palpite, mas todos vão ser ouvidos.

Marco Aurélio Cunha são paulo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)Quadro que recorda a promessa de voltar: chegou a
hora? (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)

Você contesta a situação, mas ao mesmo tempo não esteve ao lado de candidatos recentes da oposição, como Aurélio Miguel e Edson Lapolla. Como se apresenta nessa eleição?

Uma alternativa que nunca vai desrespeitar o Juvenal. Temer jamais, mas nunca desrespeitar. Nunca vai negar o que ele fez, mas também não vai se esquecer do presidente Pimenta, bicampeão mundial. Não vai se esquecer dos jogadores que honraram nossa camisa. Tentei organizar um jogo para os 50 anos do Careca, junto aos 50 anos do Morumbi, mas ex-jogador não interessava a eles. Quero homenagear sempre que possível, resgatar memórias, mas com conquistas, e não remeter ao passado. Nunca mais houve a reunião dos ex-atletas que o presidente Marcelo (Portugal Gouvêa, que comandou o clube entre 2002 e 2006 e faleceu em 2008) fazia, e era deslumbrante, era de chorar. Quando o Chicão (jogador campeão brasileiro pelo São Paulo em 1977) morreu, fui o único a ir ao enterro dele. A memória precisa ser lembrada.

Hoje o São Paulo é brigado com FPF, está rompendo com a CBF, não tem prestígio na Conmebol. Faz parte de seus planos tentar reaproximações?

Não há dúvida. Ninguém vive sozinho. Essa gestão do São Paulo tem algo que chamo de desonestidade afetiva. Ou seja, gosto de você enquanto você me interessa. E se amanhã você alçar um voo importante, mesmo que já tenhamos brigado de forma absurda, vou virar seu amigo. Não aceito isso. Não quero brigar com ninguém para não ter a humilhação pessoal de retroceder e dizer que sou amigo do sujeito. Somos todos companheiros numa missão que é melhorar o futebol. Se interessa, saio correndo e bajulo. Depois excluo do meu relacionamento. Fica uma inconstância que ninguém mais acredita. Adoro o presidente Juvenal, mas estou dizendo tudo isso a ele, e disse antes. Somos amigos, se ele quiser, sempre. No dia em que ele estiver em seu momento de solidão, estarei próximo a ele, mas também estarei próximo de todos os grandes são-paulinos.

Você gostaria de mudar o estatuto do São Paulo?

Acho que termos de ser mais abertos. O direito de voto ao associado é uma questão polêmica lá, dizem que há mais sócios que não são são-paulinos. Se isso é um fato, estamos errando muito na forma. Tem de trazer o sentimento de convívio. Não tenho medo disso. Quem pisar na sede social do São Paulo vai gostar tanto que vai querer o melhor para o clube. O sócio tem de ser mais representativo porque a vitaliciedade envelhece o Conselho, faz com que perca a interpretação das novas ideias e seja facilmente manipulado. Abrindo o colégio eleitoral você impede casuísmos, aproveitamentos, e tem pluralidade maior de análise do desempenho.

Sua campanha já tem um lema?

“De volta para o futuro”. É uma excelente temática. Pensei nisso outro dia. Acho um slogan muito legal, e gostaria de utilizar (risos).

Fonte: Globo Esporte

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