Criador de Juvenal, Aidar vira criatura e propõe reforma no São Paulo

Carlos Miguel Aidar é sócio de um dos escritórios de advocacia que mais cresceram nos últimos anos em São Paulo. Tem visão privilegiada da Avenida Paulista no 15°andar de um dos novos edifícios da região. Também integra o Comitê Paralímpico Internacional e a Comissão de Estudos Jurídicos Desportivos do Ministério do Esporte. E, em meio à atribulada agenda, surgiu mais um compromisso: é o candidato apoiado por Juvenal Juvêncio na eleição à presidência do São Paulo, em abril do ano que vem.

A indicação causou mal estar em boa parte do clube, sobretudo no vice Carlos Augusto de Barros e Silva, que manifestou seu descontentamento ao GLOBOESPORTE.COM. São muitas as possíveis razões da escolha. Juvenal tem fascínio pelo poder, algo que está ligado a Aidar. Também há retribuição, já que foi Carlos Miguel quem o lançou à política tricolor em 1984, quando foi eleito o presidente mais jovem da história do clube, aos 37 anos, e o nomeou diretor de futebol.

Por fim, o advogado sustenta na Justiça até hoje o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio, obtido por meio de reforma estatutária. O escolhido recebeu a reportagem em sua sala e se disse fã de Juvenal, a quem considera “sedutor”. Mas ele, Aidar, também é. Bom papo, sorriso fácil, mostrou a foto da família na tela do computador e brincou com as inúmeras mensagens recebidas no celular durante a entrevista.

– Acham que só porque sou candidato consigo ingresso do Bon Jovi pra todo mundo!

Aos 67 anos, Carlos Miguel Aidar vai enfrentar Leco e Kalil Rocha Abdalla, e jura que a indicação de Juvenal foi um susto, ao contrário dos que pensam que seu nome já estava definido. Por isso, as ideias ainda são prematuras, “respostas a lápis”, como bem definiu. Mas são ousadas.

O centro de formação de atletas de Cotia, xodó de Juvenal, se transformaria numa unidade de negócios. Ele também quer criar a Liga Nacional dos clubes brasileiros, independentemente do apoio da CBF. E promete reforma administrativa no São Paulo. Só não vai mexer no técnico.

– Sou amigo, fã e viúva do Muricy.

Miguel Aidar candidato presidente sp (Foto: Sergio Gandolphi)Carlos Miguel Aidar, candidato à presidência do São Paulo (Foto: Sergio Gandolphi)

Seu nome causou surpresa por não ter feito parte dessa diretoria atual. Como se deu a indicação do Juvenal?
Foi muito curioso. Eu não era, não estava e não pensava em ser candidato. Não tinha me preparado e dizia que meu candidato seria quem o Juvenal indicasse, até se fosse um poste. Sou fã do Juvenal, diga-se de passagem. Havia três nomes, os vices de marketing, administrativo (na verdade, Roberto Natel é vice social) e geral. Um belo dia, o Juvenal me liga. Sou consultor dele, sustento o terceiro mandato até agora na Justiça. E ele me diz que faria uma reunião de diretoria bem grande, e seria bom que eu fosse.

Foi nessa reunião que ele anunciou os quatro pré-candidatos?
Havia umas 38 pessoas, o Juvenal discursou e disse que havia quatro pré-candidatos (Aidar, Leco, Júlio Casares e Roberto Natel). Citou os três e disse que meu nome havia surgido mais recentemente, e pediu que todos trabalhassem e apoiassem o escolhido. Eu pedi a palavra, disse que não era candidato e estava sendo surpreendido pelo presidente. Mas, se viesse a ser o escolhido, não iria amarrado com nenhum acordo. Queria ir solto, livre, do jeito que fui há 29 anos atrás. Não movi uma palha.

E por que o Juvenal o escolheu?
Três dias depois, o Juvenal me ligou e pediu para eu passar na casa dele. E disse: “Carlos Miguel, tem de ser você. Os três são muito bons, mas tem de ser você”. E me deu uma série de razões muito íntimas, que, peço desculpas, mas não vou revelar.  O Júlio foi até lá, e disse que estava fechado comigo. No dia seguinte, o Roberto ficou chateado, frustrado, mas disse que tudo bem. E quem resistiu um pouco mais foi o Leco. Não falei com ele, não vou me desgastar em negociar politicamente com ele. Se ele quiser me apoiar, será muito bem vindo.

Caso o Leco mantenha a candidatura, isso pode prejudicá-lo?
Acho que sim. É difícil fazer uma avaliação, mas prejudica mais a mim do que ao Kalil. Algumas pessoas mais chegadas gostariam de ver o Leco lá. Ele não ganha nem de mim nem do Kalil, mas tira mais votos meus. É uma análise superficial, eu não havia parado para pensar nisso.

O futebol e o São Paulo mudaram muito desde que o senhor deixou a presidência, em 1988.
Tudo mudou. A imprensa, as pessoas… Eu falava com seis veículos, hoje tem site, blog. Você cospe aqui, e em dez minutos todo mundo sabe. Nem eu estou acostumado. Eu nunca me afastei do São Paulo, dos momentos políticos mais importantes, as reuniões mais polêmicas do Conselho, embora não frequente a parte social há algum tempo. Agora, da gestão eu sabia apenas por ler na mídia, até porque o Juvenal não dá satisfação a ninguém.

Muricy Ramalho apresentação São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)Aidar (com Casares ao fundo) cumprimenta Muricy, no CT (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

Você disse que ligou para o Muricy enquanto o Autuori ainda era o técnico do São Paulo?
Olha que coisa curiosa. Viajei para o Rio e fui para o jogo no ônibus, ao lado do Autuori. Isso causou ciúme em algumas pessoas. Voltei e pensei: “Meu Deus, ele não vai tirar o São Paulo disso. Ele é muito professoral, e precisamos de um tratamento de choque”. Quando definiu minha candidatura, liguei para o Muricy, e perguntei se ele poderia esperar até abril. Ele é muito meu amigo. Fiz da minha cabeça, e não era para ninguém saber.

O senhor não pediu a contratação dele ao Juvenal?
No dia seguinte, o Juvenal me chamou no Morumbi, e quando cheguei havia estourado a bomba da contratação do Muricy. Fiquei numa alegria! Fui à apresentação para dar um abraço nele. E disseram que fui para aparecer. Época de eleição, falam o que querem. Estou feliz por estar candidato e, de novo, poder executar ou delegar meus planos. O São Paulo tem potencial, estrutura e terá duas concorrências muito fortes que não teve no passado: o Corinthians, com seu estádio da Copa, e o Palmeiras, com um estádio central, agradável, aconchegante. Antes o São Paulo deitava e rolava sozinho, agora isso te obriga a fazer alguma coisa diferente.

O senhor falou em delegar planos. O Juvenal não delegou, teve um estilo centralizador de administrar o São Paulo.
Sou absolutamente diferente do Juvenal.

Mas disse que é fã dele.
Sou, porque ele é um cara sedutor com quem consegue se aproximar dele. Aquele jeito caipira, meio sofisticado, um animal político. Em 1984 fiquei um mês tentando convencê-lo a ser diretor de futebol. Eu o conhecia do governo do estado, e via suas análises políticas. Quando assumi, tinha uma folha inflacionada e jogadores acomodados. Fiz uma revolução, mas porque ele segurava o futebol no dia-a-dia. Só que agora, cuidando da política, estádio, social e futebol, ficou difícil. Ele é centralizador, mas não é ditador.

Se for eleito, terá um homem forte novamente cuidando do futebol?
Um diretor, que acompanha, vai para treino. Aquele negócio de ficar um bando de conselheiros no vestiário e no CT, não comporta no profissionalismo de hoje. Outra coisa, descobri que no São Paulo o familiar não pode visitar o jogador na concentração. A esposa não pode ir dar um beijo, o filho não pode passar a mão no rosto do pai. Escuta, estamos quase em 2014, não existe mais isso.

CARLOS MIGUEL AIDAR candidato presidência São Paulo (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)Aidar já tem frequentado o CT como candidato
(Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)

Não acha que a administração precisa ser profissionalizada, com cargos remunerados?
Há 30 anos eu criei, embaixo de cada diretor, uma secretaria executiva com gente remunerada. Hoje, não tenho a menor dúvida de que é preciso profissionais em todas as áreas. Não quero diretor ou presidente que sejam remunerados, a não ser na liga dos clubes que pretendo criar. Se um dia o futebol ficar realmente profissional, é algo a se pensar. Assim como quero fazer algo profissional em Cotia, que tenha vida autônoma, inclusive financeira. A gestão é muito grande, como vamos cuidar só com amadores? Antes de aceitar ser candidato, reuni meus sócios e disse que precisava manter minha retirada mensal. Se eles achassem que isso prejudicaria o escritório, não aceitaria. Eles falaram: “Vai firme, estamos com você”.

Tem algum nome para assumir o departamento de futebol? Seria um ex-jogador?
Não tenho ideia neste momento. Não quero um boleiro para gerir. Acho que precisa ter experiência e formação de gestor. O boleiro pode dar consultoria, palpitar, falar quem é bom e quem não serve.

O senhor citou “algo profissional em Cotia”, com vida autônoma. O que seria exatamente isso?
O objetivo é formar jogadores com autonomia administrativa e financeira. Ter uma unidade de negócios, um ponto de geração de atletas e recursos. Vai consumir dinheiro, formar jogador, que será profissionalizado no São Paulo ou posto à disposição de outros clubes. Quero transformar o que hoje é amador. Aquilo é lindo, maravilhoso, tem de gerar receita para o São Paulo. Tem de ter vida independente do resultado do futebol. A ideia é essa, mas ainda está meio nebulosa, até para mim.

Também falou em liga dos clubes. Como pretende criá-la?
É uma liga nacional, tem de ser criada com ou sem vontade da CBF. E aí, sim, com presidente, vice, áreas técnicas, de finanças, todos remunerados porque seria uma empresa. Quero fazer esse movimento.

Que melhorias o senhor vê necessárias no São Paulo?
Pretendo chamar um braço da Fundação Getúlio Vargas, com quem tive experiência excelente quando fui presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), e pedir uma análise para executar uma reforma administrativa. Vamos ver quanto vão cobrar, mas quero implementar um sistema de gestão do dia-a-dia, de informatização, com tecnologia absolutamente integrada. O São Paulo é muito burocrático, as coisas ainda são no papel, com carimbo. Trabalho aqui com 25 mil clientes e um faturamento de R$ 3 milhões por mês, e quase não tenho papel sobre a mesa. Por que não há um programa de avaliação de desempenho no São Paulo? O cara vai saber que está sendo avaliado, e se não servir, será trocado. Não importa se é peixinho de alguém.

E seus planos para o Morumbi?
Eu gostaria de rebaixar o campo e fazer um nível de arquibancada mais próximo. Estou muito mais preocupado com isso do que em cobrir o estádio. Pode ser que os engenheiros e técnicos me digam que cobrir é mais importante. Basta me convencerem, não sou teimoso.

E o atual projeto de cobertura, que envolve uma nova arena?
Custa R$ 360 milhões! Se uma empresa topar pagar em troca dos naming rights, vou ao Conselho e peço para aprovarem. E o estádio vai deixar de se chamar Cícero Pompeu de Toledo? Sabe o que isso representa para a história do São Paulo?

De quantos mandatos o senhor precisa para fazer tudo isso?
Um só. Agora são três anos. Já fiz em dois. O que a gente precisa é colocar o São Paulo de novo no comando do futebol brasileiro, como estrutura profissional. Quero uma gestão com plano de metas. Isso não se faz da noite para o dia, preciso de cabeças arejadas, gente mais nova.

O São Paulo hoje é um clube isolado politicamente?
O Juvenal brigou com a CBF, a FPF, o Clube dos 13, o Corinthians. O longo exercício do poder desgasta, isso é da vida. Não dá para ser por muitos anos a mesma coisa, no mesmo lugar. É uma loucura, você não se empenha mais, se acha dono da verdade, não dá ouvido a quem está do seu lado, não presta atenção nos detalhes.

Então o terceiro mandato foi um erro?
Talvez tenha sido um erro, mas foi necessário porque naquele momento o Juvenal estava numa empreitada que ainda passava pela tentativa de levar o Morumbi à Copa do Mundo. E fazia a reformulação do estádio, que só ele conhecia. Além do mais, ele não preparou ninguém, e ninguém se apresentava em condições.

Nos últimos cinco anos, o São Paulo contratou oito técnicos e 60 jogadores. O que acha desse número?
É muito. Dei um abraço no Muricy após a reestreia dele, e perguntei: “Ainda dá?”. Ele disse: “Não, mas o senhor vai ser campeão no ano que vem”. Ele é a cara do São Paulo, assim como o Rogério.

Rogério, que, provavelmente, não estará no São Paulo no ano que vem.
Ele pode estar em outro lugar. Por que não no Conselho, ou como assessor da presidência? Não sei o que ele e o São Paulo vão fazer em janeiro, e não é problema meu (risos).

O senhor vai precisar mexer no time de futebol?
Precisa reforçar a equipe e a direção do futebol. Precisa dar um choque de gestão. O Adalberto (Baptista, ex-diretor de futebol) tinha esse perfil, mas é o cidadão mandão, empresário milionário, bem sucedido, e tratava aquilo como se fosse a empresa dele. Não dá para tratar gente como se fosse coisa. Gente tem sentimento.

Então ele não teria lugar em sua diretoria?
Talvez não no futebol. Quem sabe em algum outro lugar. Ainda estou me organizando, buscando apoio de conselheiros.

O senhor acha que vai vencer?
Eu não entraria para perder. Se tivesse dúvida, falaria para o Juvenal pegar outro para Cristo.

O Kalil diz ter certeza de que vai ganhar.
Só há um jeito de perder eleição na vida: achar que já perdeu. Tem de falar que vai vencer, mesmo. O Kalil é meu amigo, maduro, bom administrador. E com ele a campanha pegou um bom nível. O Marco Aurélio (Cunha, que pertence à chapa de Kalil) estava meio incendiário.

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