Conquista da América leva o capitão Raí à idolatria e à fama mundial

Nem todos se lembram, mas Raí começou a Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994 como capitão da Seleção Brasileira e marcou umgol na estreia. O meia nascido em Ribeirão Preto ganhou força para receber a mítica camisa 10 do time canarinho ao comandar o São Paulo na conquista da Copa Libertadores de 1992, há 20 anos.

“Foi o primeiro título do São Paulo e no estádio tinham mais de 120 mil pessoas. Eu lembro que era um frisson inacreditável e quando acabou o jogo, uma boa parte da toricda invadiu o gramado. O Antônio Carlos já estava sem camisa e vários jogadores saíram de cueca do campo. Parecia aquelas imagens da Copa de 1970 e foi um momento que marcou o início de uma carreira internacional do clube”, recordou.

Comandado pelo técnico Telê Santana, ele exerceu o papel de protagonista com maestria em um time com nomes como Zetti, Cafu, Ronaldão e Muller, todos campeões do mundo com a Seleção Brasileira dois anos depois. Se atualmente a Copa Libertadores é a prioridade dos clubes brasileiros, muito deste status é legado da conquista tricolor, liderada pelo talentoso meio-campista.

“Éramos uma família. Tínhamos amizade não só entre os jogadores, mas também com a comissão técnica. Havia um respeito muito grande, sem vaidade. Sabíamos que o Raí era a grande estrela do São Paulo, mas ele não tinha essa vaidade. Sempre foi um cara líder, simples, que ajudava todos. Ele combinava essas funções”, lembra o goleiro Zetti 20 anos depois.

 

Dividindo suas atenções com a disputa do Campeonato Brasileiro, o São Paulo iniciou a campanha com derrota por 3 a 0 diante do Criciúma. O time reagiu ao voltar de uma excursão à Bolívia com uma vitória (3 a 0 sobre o San José) e um empate (1 a 1 contra o Bolíviar). “Vir para a Bolívia fez bem ao São Paulo”, observou Raí em declaração reproduzida pelo jornal A Gazeta Esportiva.

Em seguida, o Tricolor deslanchou e se classificou para a próxima fase na segunda colocação do grupo. Antes do confronto pelas oitavas de final diante do tradicional Nacional-URU, no entanto, o time foi abalado pela dispensa do lateral-esquerdo Nelsinho, afastado pela diretoria sem maiores explicações de forma repentina.

Apesar do clima ruim, o time venceu por 1 a 0 em pleno Centenário com um gol, não comemorado, de Elivélton. Raí, em uma demonstração de liderança, veio a público para apaziguar. “A saída do Nelsinho foi uma decisão da diretoria. Não houve briga entre ele e o Telê. O fato ocorreu na hora errada, e o Nelsinho ficou sem clima para voltar. Vamos tentar conquistar os títulos deste ano e dedicar a ele”. A dedicatória seria esquecida no futuro, até porque Nelsinho escolheu o rival Corinthians para dar sequência à carreira.

Nas quartas de final, o São Paulo travou um confronto acirrado com o Criciúma, a ponto de na segunda partida Raí receber o cartão vermelho do árbitro Márcio Rezende de Freitas após brigar com Jairo Lenzi, principal jogador do time catarinense e com desejos de se transferir para o Tricolor após o torneio continental.

“Entrei na frente do Jairo até para evitar que ele perdesse a cabeça naquele momento. O Márcio de Freitas foi rigoroso demais em me expulsar. Não acho que vou receber uma punição rigorosa porque não agredi ninguém”, afirmou Raí após ver um cartão vermelho diante de si apenas pela segunda vez na carreira até então.

Mesmo suspenso, ele procurou permanecer ao lado do elenco na preparação para o primeiro jogo diante do Barcelona de Guaiaquil, pela semifinal. “Não é porque não vou jogar que vou deixar de apoiar os companheiros. Estamos em um mesmo barco e neste momento todos devem participar da melhor maneira possível. Vim para a concentração e vou junto com eles para o estádio. Vou participar também da preleção e de todos os preparativos antes de o time entrar em campo”, declarou.

Sem Raí, o São Paulo venceu por 3 a 0 no Morumbi, mas perdeu por 2 a 0 no Equador mesmo com o retorno do camisa 10. Diante do placar adverso, Telê Santana apontou que alguns jogadores “cairam bastante de rendimento”, e o meia, em uma série de compromissos pelo São Paulo e pela Seleção Brasileira, aceitou a crítica. “Também acho que estou deixando a desejar. Não venho conseguindo jogar legal, mas e estou procurando melhorar. O que me preocupa é a parte física. O cansaço me pegou”.

 

Nas finais diante dos aguerridos argentinos do Newell’s Old Boys, além de converter o pênalti que garantiu o 1 a 0 necessário para levar a decisão para as penalidades no Morumbi, ele repetiu o tiro livre certeiro nas cobranças derradeiras. Após a festa pelo título inédito, Raí, Ronaldão e Antônio Carlos foram fotografados pelados dentro do vestiário e ameçaram processar dois jornais que publicaram as fotos indiscretas no dia seguinte. “Baixaram o nível. Somos pessoas públicas e procuraremos nossos direitos”, avisou o meia.

A vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona-ESP na final do Mundial Interclubes realizado no Japão, com direito e um golaço de Raí em jogada ensaiada de forma exaustiva, coroou o feito do São Paulo. Após o bicampeonato da Libertadores em 1993, Raí foi negociado com o Paris-Saint Germain, clube perfeito para o meia potencializar seu futebol elegante pelo mundo.

O título conquistado pelo São Paulo em 1992 mudou a história não somente do São Paulo, que hoje usa adjetivos como “soberano” para se auto-definir e ofereceu o slogam 6-3-3 para os fãs tripudiarem sobre os rivais, mas também do futebol brasileiro como um todo na medida em que a Copa Libertadores virou obessão de maneira definitiva. Para ganhar o torneio continental, certamente muitos camisas 10 da atualidade não se importariam com fotos nus nos jornais.

Fonte:  Gazeta Esportiva

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