Cerezo compara Brasil-82 a São Paulo de Telê e exalta clube: ‘Paixão’

Toninho Cerezo ainda chorava a perda da Liga dos Campeões de 1992 para o Barcelona quando tomou uma decisão: largar o Sampdoria e voltar ao futebol brasileiro. Esqueceu a timidez e o orgulho de um atleta renomado para pedir a um antigo mestre que o indicasse a qualquer equipe. Do outro lado da linha, Telê Santana. O pedido de ajuda virou uma ordem. Apresentar-se imediatamente ao São Paulo.

O restante da história são-paulino nenhum esquece. Cerezo virou o comandante de um time que fez mágica com a camisa tricolor, conquistando o bicampeonato mundial de 1992 e 93. Uma equipe tão inesquecível que ele ousa compará-la à lendária seleção brasileira de 1982, derrotada pela Itália na Copa do Mundo da Espanha.

– Jogávamos em função do gol – lembrou.

Nesta entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM, concedida no CT do Kashima Antlers, clube que dirige e rival do São Paulo, nesta quarta-feira, às 7h (horário de Brasília), pela Copa Suruga, com acompanhamento em Tempo Real, Cerezo contou histórias sobre um time dividido entre católicos e evangélicos e riu aos montes ao lembrar quando teve o jantar pago por Telê, uma raridade. Foi a fase mais vitoriosa da carreira. Ganhou um novo amor.

– As competições importantes da minha carreira eu ganhei com o São Paulo. Virou uma paixão – disse.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

GLOBOESPORTE.COM: Como o Kashima chega para a final da Copa Suruga?
Toninho Cerezo: o momento é de dificuldade. O time tem uma faixa de idade alta e estamos procurando renovar. Mas o material humano não é tão fácil porque a maioria dos meninos vai para a faculdade e não tem como treinar. Alguns jogadores de idade mais avançada foram formados aqui e têm amor pelo clube. Esses caras fazem a diferença com os mais novos que estão chegando.

Toninho Cerezo (Foto: Carlos Ferrari)Rival nesta quarta-feira, Toninho Cerezo relembrou tempos do São Paulo de Telê (Foto: Carlos Ferrari)

Como é enfrentar um clube oelo qual você teve tanto sucesso?
É uma alegria poder participar desse torneio contra o Tricolor paulista, amado clube brasileiro (risos). Fico motivado e muito alegre de reencontrar amigos e ser o treinador do Kashima. É um privilégio.

O São Paulo vem passando por um período de crise dentro e fora de campo. Você tem acompanhado?
Tenho, mas você fica sabendo só de 10% do que acontece. O Paulo Autuori está procurando fazer um trabalho novo. A probabilidade de crescer é grande por causa da estrutura. Sem dúvida, vai montar uma equipe competitiva. Politicamente, o São Paulo sempre teve divergências, mas com união. Qualquer equipe pode passar por isso. Corinthians e Atlético-MG, hoje os melhores do país, passaram recentemente.

Antes da vitória sobre o Benfica, o São Paulo ficou 14 partidas sem vencer. Isso não acontecia na sua época…
Tínhamos um grande time. Era um grupo descontraído e participativo. No momento em que entrávamos em campo era para jogar futebol. Os mais jovens tinham essa consciência devido ao comportamento do Telê. Não tinha vaidade.

Não tinha briga?
Olha, eu me dava bem com todo mundo. Ia às festas dos crentes e dos católicos (risos). Palhinha e Muller eram os crentes. Os católicos éramos eu e Raí. Mas o pessoal só queria saber de jogar bola. A dificuldade existe quando o cara não quer jogar. Ele faz todas as outras coisas e esquece do campo.

Como foi sua chegada? Você era um jogador consagrado, de 37 anos, no meio de um grupo promissor.
Eu havia acabado de perder a Liga dos Campeões para o Barcelona (jogava na Sampdoria) e liguei para o Telê porque achava que ainda tinha condições de jogar. Queria que ele me indicasse para algum clube. Ele me disse na hora para ir ao São Paulo. Eu me encaixei muito bem com a minha experiência. Era uma garotada muito boa, de muito bom caráter.

O Telê era linha-dura com você também? Ele chegou a mandar o Macedo cortar o cabelo ou então não jogaria mais.
Aconteceu comigo também. Eu tinha uma moto e, quando ele ficou sabendo, veio falar comigo. Só chegou, falou e acabou. Eu já o conhecia e disse que não tinha problema. Era para o meu bem. Encostei a moto e nunca mais usei (risos).

E pão-duro?
Eu vivi anos e anos com o Telê só dando bom dia e boa tarde. Eu o conhecia desde a base do Atlético-MG. Fui me sentar a uma mesa com ele para conversar quando já estava no São Paulo. E ele pagou a churrascaria. Estávamos em família e acho que ele ficou com vergonha. Nunca vou esquecer disso. Tiramos até foto daquele momento (risos).

Você participou do histórico time da Copa do Mundo de 1982 e daquelas que talvez foram as maiores equipes do São Paulo de todos os tempos. Acha que elas se pareciam?
Sim, jogávamos em função do gol. Eram dois laterais que subiam, um volante que sempre chegava à área, dois meias agressivos, atacantes de velocidade e de área. Era a característica do Telê, sempre valorizando muito a bola. Ele tinha também o dom de escolher “nego” bom. Não é todo mundo que tem isso. Infelizmente, perdemos em 1982, mas todo mundo fala daquela seleção até hoje. No Brasil, não existe perder. Existe só ganhar. Eram dois ótimos times.

Você fez um gol e foi eleito o melhor em campo na final do Mundial de 1993 contra o Milan. O quanto aquela decisão marcou sua carreira?
Foi um gol muito importante. Nós nos preparamos muito para aquele jogo e tínhamos uma equipe fantástica. Fizemos várias vezes aquela jogada do gol, com o cruzamento e eu chegando até a área. As competições importantes da minha carreira eu ganhei com o São Paulo. Virou uma paixão. O carinho que tive lá foi muito grande.

Rogério Ceni está vivendo agora algo que você passou naquele período: encerrar ou não a carreira. O que você poderia dizer a ele?
Ele pode jogar mais ainda. Eu assisti aos últimos jogos, e ele foi um dos melhores da defesa, pegou muito bem, não está fazendo nada de errado aos 40 anos. Ele sabe o que é o melhor. Sou suspeito para falar, gosto muito do Rogério. É um baita profissional e merece nosso respeito.

Sua carreira como técnico está sendo construída mais no exterior do que no Brasil. Não pensa em voltar?
Tive poucas oportunidades no Brasil (passou por Atlético-MG, Guarani, Vitória e Sport). Devido ao meu caráter e a meu modo de pensar, não aceito algumas coisas. No futebol brasileiro, ou você se encaixa na filosofia dos dirigentes ou não vai trabalhar. Enquanto puder, vou ficar ligado ao mundo do futebol. Quando não der mais, vou pescar na bacia amazônica ou no pantanal (risos).

 

Fonte: Globo Esporte

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