Catorze das alterações no estatuto do São Paulo que mais interessavam a Júlio Casares e Olten Ayres de Abreu Júnior, respectivamente presidente da diretoria e presidente do Conselho Deliberativo, foram aprovadas em eleição que contou com votos de 231 dos 254 conselheiros, finalizadas na última sexta-feira. Agora, elas seguirão para ser referendadas por uma assembleia geral de sócios, que deverá acontecer até o fim de janeiro. As dez medidas rejeitadas ficam travadas, ao menos por enquanto.
É curioso notar que os resultados de alguns dos itens sugerem que boa parte dos conselheiros votou pensando em si mesmos e não na casa de que fazem parte. Afinal, a extensão dos próprios mandatos por mais três anos foi aprovada, e a redução no número de cadeiras disponíveis para conselheiros eleitos e vitalícios acabou rejeitada. Ao mesmo tempo, eles aprovaram, pela margem mínima, o aumento do valor mínimo de contratos que precisam ser aprovados pelo órgão, o que na prática diminui seu próprio poder de fiscalização.
Alguns dos itens rejeitados ajudam a manter um mínimo de controle dentro do clube. A reprovação das propostas que previam a necessidade de alinhamento em chapas para cargos que hoje não as requerem ajuda a não diminuir a margem de fiscalização, que chegou a ficar ameaçada com as mudanças propostas para os conselhos Fiscal e de Administração. No caso do primeiro, foi mantido o formato atual, que permite candidatos independentes ? ainda que eles em geral tenham pouca chance de vitória ?, e, no do segundo, a quantidade e a proporção de conselheiros independentes também não foi mexida.
Dois itens rejeitados em particular impediram que Olten ganhasse um grande poder dentro do clube. Um deles era o do Conselho de Administração, de que o presidente do Conselho passaria a fazer parte, medida que poderia interferir com a capacidade de isenção desse órgão. O outro foi a manutenção do cargo de vice-presidente da diretoria nos moldes de hoje. Se a mudança proposta tivesse sido aprovada, abriria a possibilidade de Olten se tornar o presidente da diretoria de maneira definitiva. Ele não saiu de mãos vazias, entretanto. Se tudo ocorrer como planejado, já poderá assumir uma cadeira no Conselho Consultivo e tornar-se sócio benemérito já a partir do mês que vem.
O fato de a votação ter sido iniciada no dia 16 de dezembro traz uma simbologia embutida. Essa data deveria ser um dia de reflexão para qualquer são-paulino, porque marca a sobrevivência do clube, sete meses após o Conselho Deliberativo votar por acabar com ele graças a uma ampla maioria, numa fusão com o Tietê. Tudo isso aconteceu há longínquos 86 anos, em 1935, e nenhum dos envolvidos está vivo para perpetuar a memória. (Por outro lado, a maioria dos que aprovaram o golpe que permitiu a Juvenal Juvêncio obter um terceiro mandato consecutivo, em 2011, estão vivos, e o episódio já parece ter sido esquecido, apenas uma década depois, apesar de suas duras consequências.)
Foi pensando muito nisso que rumei na quinta-feira ao Morumbi, para ser um entre as cinquenta a setenta pessoas que foram ao portão 17 do estádio para protestar contra o golpe cujas medidas têm cada uma beneficiários bem definidos ? nenhum deles a instituição. Eu não esperava trombar com mais do que algumas poucas dezenas de pessoas ali. Ao longo da semana, aliás, deixei isso bem claro, não só em postagens no Twitter, como em conversas com outros torcedores que também estão contra o golpe.
Minha principal intenção nem era tanto protestar. Eu queria apenas estar perto da instituição naquele momento em que seu futuro seria definido por menos de 260 pessoas, boa parte delas votando a favor de itens que as beneficiarão diretamente. Ao contrário de mim, essas pessoas estariam em suas casas. Algumas, forçadas pelo cenário imposto pelo presidente da casa, amedrontado porque a torcida ousou demonstrar resistência ao que pode ser visto como um projeto pessoal de poder, mas outras demonstrando o mesmo medo, que se provou infundado.
Esse presidente ainda debochou do contingente que esteve lá onde ele não teve coragem de reunir seu órgão, usando uma pandemia como pretexto pouco convincente. Mas também ignorando a história. Foram poucas as pessoas que salvaram a existência do São Paulo em 1935: apenas quinze se reuniram no número 9-A da Rua 11 de Agosto, a fim de reparar o dano que o Conselho Deliberativo havia feito meses antes. Essa reunião de poucas pessoas terminou ao som de uma salva de palmas e gritos de ?viva?, num ambiente descontraído como o presidente atual nunca vai conseguir criar.
Não que qualquer um dos que estavam no portão 17 tenha feito nem 0,1% do que aqueles quinze abnegados (abnegados de verdade!) fizeram exatamente 86 anos antes. É impossível algum torcedor fazer tanto pela instituição quanto eles fizeram. Mas cada uma das cinquenta a setenta pessoas que estavam lá fez o pouco que estava ao seu alcance. Eles mostraram ? nós mostramos! ? que existem e não têm medo do poder do Conselho Deliberativo comandado pelo seu atual presidente. Este, sim, teve medo dessas cinquenta a setenta pessoas.
Aqui fora, nós não temos o apoio da máquina de um clube que tem entre dezesseis milhões e vinte milhões de torcedores, além de um orçamento de nove dígitos. Nós só temos o amor incondicional por uma instituição, independentemente de quem a esteja dirigindo. Nós só queremos o bem dela e tememos quando um grupo chega ao poder com promessas que são esquecidas e acredita merecer elogios pelo simples fato de existir. Elogios têm de ser conquistados.
Como elogiar uma gestão eleita com a bandeira da transparência, que arquiteta um golpe sob confidencialidade e, mesmo depois que essa confidencialidade é removida sob pressão, não faz nenhum debate a respeito? A torcida só pôde debater com a oposição sobre a proposta de de reforma do estatuto. Por um mês, ninguém da situação se dignou a prestar esclarecimentos nem à oposição nem à torcida e nem aos sócios do clube, de quem todos eles são representantes. Trataram o assunto como se fossem a casta superior a que muitos ali creem pertencer, donos de um direito divino herdado por poderem pagar pelo título e pelas mensalidades do clube há um tempo considerável.
Quando finalmente alguém apareceu para defender as propostas, isso foi feito com argumentos que não se sustentam e verdadeiros malabarismos retóricos que acabam sendo a única maneira de se defender o indefensável. Basta ver a quantidade de vezes em que perguntas simples foram respondidas com evasivas ou simplesmente ficaram sem respostas.
As presenças no portão 17 na quinta-feira foram verdadeiras provas de amor incondicional. Os donos do poder debocharam, porque acreditam ter vencido. E, de certa maneira, venceram. Mas o lugar deles na história já está reservado. Eles serão lembrados como golpistas. Nós, como sonhadores. E eu nunca vou ter vergonha de ser um sonhador.
* Alexandre Giesbrecht é historiador, responsável pelo boletim diário “Anotações Tricolores” e pelo perfil no Twitter @jogosspfc…