O Conselho Deliberativo do São Paulo reprovou, duas vezes, o balanço financeiro do exercício do ano de 2025. As implicações, entretanto, não são claras do ponto de vista estatutário e pouco tangíveis quando se olha em um cenário mais amplo.
A maior consequência deve ser para o ex-presidente Julio Casares. Entre os conselheiros, há uma forte possibilidade de que seja feito um pedido de expulsão do antigo presidente do quadro associativo. Como Casares renunciou antes do impeachment, ele não perdeu seus poderes políticos.
O relatório da auditoria sobre o balanço apontou R$ 7 milhões sacados pelo cartola a título de “despesas promocionais do presidente” e sem mais justificativas. O ex-presidente se defendeu, em nota, dizendo que o valor “não foi solicitado, não foi destinado e, por óbvio, não foi utilizado por Julio Casares”.
O caso pode ser tratado de forma interna, administrativamente, ou pode ser judicializado, pleiteando que o ex-presidente comprove os gastos sob pena de precisar ressarcir o São Paulo de tais valores. O diretor financeiro Sérgio Pimenta foi bastante questionado internamente sobre os valores e sua destinação.
A principal preocupação do presidente Harry Massis era que a reprovação fechasse linhas de crédito. O ge ouviu especialistas sobre o tema.
– Quando as contas não são aprovadas, quer dizer que os conselheiros verificaram que o orçado e o gasto não correspondem ou há alguma irregularidade. Isso passa a sensação de que o clube não tem uma boa administração, que o clube não é bem gerido. Pode gerar uma série de impactos. Não vou fazer negócio com um clube que não usa seu dinheiro de forma adequada. De forma indireta, pode trazer impactos – disse João Henrique Chiminazzo, advogado desportivo que esteve à frente do antigo Bom Senso FC.
– A reprovação do balanço é muito ruim considerando que é uma associação. Joga contra qualquer processo de ganho de credibilidade que o clube busca. Por exemplo, quem financia o clube terá mais restrições a operar, e isto traz um risco de aumento de custos, por exemplo. Claro que estamos falando de uma visão ampla. Podemos também pensar no copo meio cheio: ao reprovar um balanço que tem ressalvas da auditoria, o Conselho Deliberativo age de forma correta, o que indica preocupação com a lisura das informações – opina César Grafietti, diretor da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), da CBF.
Um dos temores da atual gestão era a exclusão do Profut, programa criado em 2015 para com objetivo de melhorar a gestão financeira dos clubes. Um balanço reprovado apenas, porém, não vem sendo suficiente para configurar gestão temerária. Segundo Grafietti, há o risco, mas hoje já existem programas melhores.
– Tem risco. Mas é até positivo, porque há outras formas de parcelamento mais interessantes. Precisamos lembrar que a reprovação por vezes é um ato político, mais que um questionamento sobre os números em si. Não me parece o caso do SPFC, porque houve questionamentos sobre eventuais recursos não contabilizados, ou sem registro, fato levantado pela auditoria. Acaba se tornando um documento pouco confiável. O SPFC já está manchado, as contas apenas refletem o que todos sabem.
Internamente, algumas alas do clube não acreditam que a reprovação possa piorar a situação do São Paulo com o mercado financeiro por dois motivos: o primeiro é que o clube já vinha enfrentando altas taxas de juros devido aos escândalos recentes e o segundo é o fato da diretoria responsável pelas contas do ano anterior já não estar mais no poder.
Receitas superaram previsão
Apesar da reprovação, que foi baseada nos valores retirados por Casares, os demais valores apresentados no balanço foram positivos. Não somente o superávit de R$ 56 milhões, mas receitas que ultrapassaram a previsão orçamentária para a temporada.
O clube previa arrecadar R$ 858 milhões, mas chegou a R$ 1,085 bilhão. A maior variação foi no futebol profissional, que gerou R$ 835 milhões contra R$ 694 milhões previstos. O clube social teve receita de R$ 74 milhões contra os R$ 71,9 milhões previstos, enquanto o Morumbi faturou R$ 118,9 milhões diante de uma previsão de R$ 92,6 milhões.
As despesas também superaram a previsão: de R$ 729 milhões para R$ 902 milhões. O balanço ainda aponta gastos de R$ 125 milhões com “resultado financeiro tradicional mais custo do FIDIC”, deixando o superávit em R$ 56 milhões. Em relação à dívida do clube, o relatório aponta R$ 110 milhões de redução.
Dentro do futebol profissional, as receitas se dividem da seguinte maneira:
Negociações de atletas
Previsto: R$ 154,8 milhões
Realizado: R$ 283,7 milhões
Variação: + R$ 128,9 milhões
Direitos de Transmissão e Premiações
Previsto: R$ 279,4 milhões
Realizado: R$ 245 milhões
Variação: – R$ 34,3 milhões
Publicidade e Patrocínio
Previsto: R$ 97,5 milhões
Realizado: R$ 121,3 milhões
Variação: + R$ 23,8 milhões
Sócio Torcedor
Previsto: R$ 43 milhões
Realizado: R$ 56,2 milhões
Variação: + R$ 13,2 milhões
Arrecadação de jogos
Previsto: R$ 96,1 milhões
Realizado: R$ 64,1 milhões
Variação: – R$ 31,9 milhões
Licenciamento de marca/outros
Previsto: R$ 23,3 milhões
Realizado: R$ 32,7 milhões
Variação: + R$ 9,3 milhões
Fonte: Globo Esporte