Flávio Marques: Sprint final

Nas competições de atletismo, ou ciclismo, de fundo e meio fundo esse termo é utilizado para descrever a arrancada final em busca da vitória, ou para não ser alcançado pelos perseguidores. Em uma competição de pedestrianismo de longa distância, como uma maratona, é importante ter o controle e dosar os esforços para manter um ritmo constante ao longo da prova, e poupar energia para o momento decisivo. Nos metros finais, quando já se pode ver a linha de chegada e a torcida incentiva com mais intensidade, é a hora de dar o máximo, sem freios, em busca da vitória, ou pelo menos de uma boa marca.

 

Estamos chegando no momento do sprint final do Campeonato Brasileiro 2020. Faltando cinco jogos para o final e a sete pontos do líder, Internacional, as chances do São Paulo são apenas matemáticas, mas isso não isenta a equipe de jogar com a alma, para representar bem os 18 milhões de São-paulinos que estão sempre apoiando. Corredores experientes ensinam a não olhar para os lados ou para trás nessa hora, apenas para frente. O foco é no objetivo final e em cada jogo. Temos que buscar as  vitórias que vão assegurar uma vaga direta na Libertadores.

 

Vejamos como foi nossa caminhada no Brasileiro 2020 até aqui.

 

O início: Após ter sido eliminado pelo Mirassol nas quartas de final do campeonato Paulista, o São Paulo estreou no Brasileiro em 13 de agosto de 2020, e o desempenho do time foi muito questionado nas primeiras rodadas. O time vinha se mantendo em posições próximas ao G4, mas a lentidão da equipe e a defesa muito exposta eram motivos de críticas ao trabalho de Diniz. O empate contra o Coritiba, no dia 4 de outubro, nos derrubou para o 7º lugar (12 jogos disputados, com 5V 5E 2D, 56% de aproveitamento) e foi a senha para uma aparente intervenção da diretoria. A partir daí Diniz retomou a zaga titular com Arboleda e Bruno Alves,  Pablo e Tchê Tchê foram para o banco, substituídos por Brenner e Luan.

 

O auge: Com o time mais protegido e a boa fase dos atacantes Luciano e Brenner, o Tricolor iniciou um período de ótimos resultados que durou praticamente três meses. Entre 7 de outubro e 26 de dezembro do ano passado o Tricolor disputou 15 jogos, com 11 vitórias, 3 empates e apenas uma derrota. O São Paulo comemorou o Ano Novo como líder do campeonato, com 56 pontos conquistados em 27 jogos, aproveitamento de 69%, possuindo ainda o melhor ataque (47 gols pró) e a melhor defesa, junto com a do Grêmio (22 gols sofridos). A vantagem do Tricolor era de 7 pontos sobre o Atlético MG e Flamengo, e de 9 pontos sobre o Internacional. Segundo análise do Professor Tristão Garcia, ao final da 27ª rodada a chance do Tricolor ganhar o título era de 76%, seguido por Flamengo (11%), Atlético MG (6%), enquanto o Inter tinha apenas 3% de chance, empatado com o Grêmio.

 

O tombo: Assim como nas corridas de longa distância, os times que disputam o campeonato Brasileiro estão sujeitos a imprevistos e oscilações de desempenho durante a competição. No caso do São Paulo, porém, sofremos um tombo feio, por assim dizer, na curva que antecede a reta final. O SPFC, assim como a maioria dos participantes, disputou 6 jogos no mês de Janeiro de 2021, com um péssimo começo para a nova década.

 

Abaixo a classificação de todos os times considerando apenas os jogos disputados no mês de Janeiro de 2021:

 

O que vemos da tabela acima é que o Tricolor ganhou apenas dois pontos em 18 disputados, dois empates e quatro derrotas, 11% de aproveitamento, superou apenas o Botafogo em pontuação no período, teve a segunda pior defesa (14 gols sofridos, melhor apenas que a do Goiás), e o quinto pior ataque (6 gols, melhor apenas que Bahia, Sport, Fortaleza e Botafogo).

 

Comparado aos seus concorrentes diretos na busca pelo título o São Paulo perdeu 16 pontos em relação ao Internacional, 9 em relação ao Galo e 7 para o Flamengo. Fechamos o mês em quarto lugar no campeonato, com 58 pontos, empatado com o Flamengo (que tem um jogo a menos), dois atrás do Atlético MG e sete atrás do Colorado. Hoje corremos mais risco de sermos alcançados pelo Fluminense, 5 pontos atrás, e perdermos a vaga no G4, do que a nossa possibilidade de chegar ao título. Nossa meta passou a ser uma vaga direta na Libertadores.

 

Nesse período terrível, que talvez tenha sido o pior desempenho em um mês na história do SPFC, alguns problemas foram observados dentro de campo.

 

Ficamos sem Luciano nos três primeiros jogos do ano, contra Bragantino, Santos e Athlético-PR. O importante atacante voltou para marcar o gol Tricolor na derrota para o Internacional no Morumbi, resultado de 5 x 1 que foi a maior goleada sofrida pelo São Paulo na história do Morumbi. Marcou ainda o gol do empate contra o Coritiba. Participou da apatia geral do jogo contra o Atlético-GO, onde criamos poucas oportunidades contra um time que pensava apenas em escapar do rebaixamento.

 

Arboleda foi punido por Diniz com o banco no jogo contra o Bragantino, por ter se reapresentado com atraso após o Ano Novo, e ficou fora do jogo contra o Internacional por suspensão devido a cartões amarelos. Nos jogos sem nosso melhor zagueiro sofremos 9 gols em duas partidas.

 

O jogo com o Bragantino ficou marcado pelas discussões entre Tchê Tchê e Fernando Diniz, fato que teve mais relevância para a imprensa do que as falhas de saída de bola que foram determinantes para o resultado.

 

O que deixa a torcida intrigada, porém, é saber o que aconteceu fora de campo, durante a pausa do Ano Novo, para fazer nosso desempenho cair tanto?

 

O esquema de Diniz é único desde que ele chegou ao Tricolor em 2019. Todos os técnicos adversários conhecem nossas deficiências. Nosso elenco tem limitações, poucas opções de banco, e um astro que tem desempenho muito abaixo do que seu nome faria supor. Nosso técnico adota um esquema suicida e, durante as partidas, faz péssimas e previsíveis substituições. Mas, com todos esses problemas, alcançamos bons resultados nas primeiras 27 rodadas. Os pontos foram conquistados porque os jogadores estavam se doando, dando aquele algo mais que faz a diferença no esporte de alto rendimento.

 

Algo aconteceu no “extra campo” que fez com que os jogadores perdessem essa motivação. Não existem justificativas dentro das quatro linhas que possam explicar tamanha queda de rendimento. O time que na virada do ano era o “virtual campeão Brasileiro”, e apresentava futebol elogiado por toda a imprensa, passou do dia para a noite a ser um dos piores times do campeonato.

 

Hoje a imprensa séria e investigativa tem sido afastada dos clubes por assessores de imprensa cada vez mais seletivos em termos do que pode, ou não pode, chegar ao público. Dificilmente saberemos o que aconteceu, e ainda está acontecendo, no “intramuros” da Barra Funda.

 

Diniz, demitido junto com sua comissão técnica neste primeiro de fevereiro, e Raí, que decidiu se afastar definitivamente, ficaram mais tempo do que deveriam. Na verdade nenhum deles jamais justificou a sua contratação, mas são apenas peças de uma máquina que já não funcionava. Uma máquina que na verdade não funciona como se espera há anos. Com essas duas novas “queimas de arquivo”, continuaremos sem saber o que está acontecendo na Barra Funda e que nos leva a fracassos consecutivos há 12 anos.

 

A reta final: Quando eu planejei este artigo a ideia era de avaliar as chances de cada concorrente nas cinco últimas rodadas. Com a derrota do São Paulo para o Atlético-GO, e consequente sepultamento de nossas chances de título, mudei meu foco.

 

No fechamento do mês de Janeiro de 2021 a projeção do Professor Tristão Garcia para as chances de título Brasileiro mostram o Internacional com 82%, Flamengo e Atlético-MG empatados com 8% de chances e o São Paulo com 2% de probabilidade.

 

O São Paulo, agora com Vizolli como treinador interino, precisa ganhar 11 pontos dos 15 que ainda disputará para garantir a vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2021, sem depender de ninguém mais. Essa é a nossa meta realista. Vamos São Paulo!

14 comentários em “Flávio Marques: Sprint final

  1. Prezado Flávio , parabéns pela análise apresentada , especialmente , pelo quadro no qual você mostra os desempenhos de todos as 20 equipes a partir de 1 de janeiro de 2021 . O que pode explicar que uma equipe em 27 jogos conquista 56 pontos e nos 6 seguintes , conquiste apenas 2 pontos .?

    • Bom dia João Farah,

      Esse é o ponto. Em minha visão não se explica apenas por problemas ou deficiências dentro das quatro linhas.

      Passo uma pergunta a você, grande conhecedor de nossa história: já tivemos alguma fase de resultados tão ruins como esses de Janeiro?

      Obrigado e um abraço!

  2. Caro Flávio, tentei postar um vídeo que ilustra perfeitamente a atuação do Tricolor no campeonato, mas infelizmente o site não permite. O vídeo em questão, que conta com a participação do são paulino Ari Toledo, é o antológico comercial da revendedora Vimave. Aquele do “pois é”. É o próprio São Paulo. Ultrapassou todo mundo, chegou à liderança, pifou e foi obrigado a fugir da torcida.

    Diniz foi muito teimoso. Incapaz de autocrítica. Tivesse feito os ajustes que todo mundo pedia, ainda estaríamos na briga. O futuro não é nada auspicioso. A conta de 2020 chegará em breve. Não temos elenco e tampouco dinheiro para contratar. Pensava que Rui Costa tinha algum conhecimento prático de futebol, mas vem mais para auxiliar Belmonte no aspecto financeiro das contratações. Tenho muito receio em relação aos jogadores que Muricy venha indicar. Afinal, não há mais margem para erro quanto à vinda de novos jogadores.

  3. Primeiro e para descontrair vou emitir as guias de imposto pelas críticas ao ex diretor e técnico…

    Agora além do problema que está em estágio crônico, falo da direção do clube, temos desde o Aguirre jogadores dando as cartas dentro do clube, perceberam um vácuo de comando e até técnico exigiram… O que fizeram com o Mancini foi algo que não se faz com nenhum profissional, não importando a função dele.

    O sinal que vai mostrar se essa diretoria está retomando as rédeas é a saída forçada por alguns atletas como o Daniel Alves, Pablo, Volpi e Reinaldo, eles que tomaram conta da Barra Funda.

    E vamos saber sim o que aconteceu, desde a época do Aguirre até agora, pode apostar que o ex diretor vai abrir a boca. Ele vai querer tirar o dele da reta de alguma forma, querer manter certa imagem ilibada que tinha antes perante a maior parte da torcida.

    Em tempo, boa coluna como sempre.

    • Obrigado Danilo!

      O corporativismo no futebol é muito forte, e as opções de mercado poucas. O mais provável é que ninguém abra a boca sobre o que aconteceu.

      Vamos aguardar.

  4. Flávio Marques,
    Parabéns por toda analogia! Confiaram demais na diferença de 07 pontos pq contaram também com a derrota dos adversários! A demissão do técnico e do Raí deveria ser feita mesmo naquele
    jogo contra o Bragantino ! Era notório q algo estava acontecendo ! Perdemos
    o campeonato mais uma vez pela arrogância e prepotência ! Quem não tem comprometimento tem q cair fora ! Impressionante a apatia de muitos
    e principalmente do atual presidente ! Fomos prejudicados pela vaidade e pelo ego ! Perdemos a rédea e faltou pulso dos atuais gestores! Uma
    pena ! Lamentável!!

  5. A saída do Diniz deveria ter acontecido depois daquela fatídica derrota por goleada contra o Bragantino no início do mês de janeiro.
    Existia até ‘timing’ pra isso, que foi o desvio de conduta do técnico naquele bate-boca vergonhoso dele com o Tchê Tchê em campo ainda no primeiro tempo diante das câmeras e microfones.
    Aquilo não era o comportamento que qualquer clube sério espera de seu técnico (ainda mais para um profissional formado em ‘psicologia’).
    Sem contar que na parte técnica já vinha demonstrando desgaste, tendo em vista que o clube vinha de mais uma eliminação, das tantas em 2020.
    Agora, na iminência de perderem a vaga na etapa de grupos da Libertadores, essa gestão resolve fazer algo. Infelizmente, só agora depois de seguidos fracassos que resultaram na perda de mais um título.
    Triste, só comprovam, pra mim, que eles são mais do mesmo (confesso que não esperava mesmo nada mais do que isso).
    Muita gente costuma dizer que “o futebol brasileiro não é lugar de gente séria”. No São Paulo me parece que eles levam essa premissa muito a ‘sério’.

    • Obrigado Adelino.
      Muitas coisas estão erradas ainda na Barra Funda e no SPFC em geral. Os fracassos repetidos não são coincidência.

  6. Como você diz: “Uma máquina que na verdade não funciona como se espera há anos”. Para mim fica muito claro que não adianta ficar trocando de técnico, sem um trabalho profundo para se detectar as causas deste não funcionamento e fazer um planejamento para a resolução das dificuldades para voltarmos a ser um time multi campeão.

    • Olá Décio,

      Extamente esta é a questão. Estamos fracassando há 12 anos. A culpa por tantas derrotas não é de cada treinador, ou cada diretor de futebol que passou pelo Morumbi nesse perpiodo.

      Nesses 12 anos escolhemos mal os diretores de futebol, os treinadores e os jogadores que foram contratados. Nossa “máquina de conquistar títulos” deixou de funcionar há muito tempo.

  7. A nova gestão já começou mal. Demorou demais para tomar uma decisão que já se afigurava como absolutamente necessária. Deu no que deu. Ainda teve tempo de sobra para analisar um substituto para o nosso treinador monotático. Também alardeou que promoveria uma verdadeira assepsia no CT da Barra Funda, mas enviesou o seu foco, direcionando-o à Cotia, que vinha apresentando bons resultados,como comprova o recente título da Copa do Brasil Sub17. Decisões como essa, dotado de um viés político revanchista, é nefasta para a Instituição. Os números acima comentados por si só já expressam a falta de atuação mais incisiva e proativa de Casares e sua anturrage. Sei que o futebol é dinâmico, mas já se passaram 32 dias da nova gestão e aquela energia sinalizada na campanha ainda está tendente a zero…

    • Olá Waldir,

      Em minha opinião, a nova diretoria do SPFC teria duas possíveis formas de agir com relação ao futebol:

      a primeira seria “ficar quieto”, não mudar NADA e ficar em silêncio até o final do Brasileiro, pois “em time que está ganhando não se mexe”.
      assumir totalmente as rédeas já em 01/01/2021 e executar todas as mudanças prometidas no processo eleitoral imediatamente.

      Casares ficou no meio do caminho. Não adotou nem uma nem outras das opções.

      Anunciou interventores técnico (Muricy) e administrativo (Belmonte), mas mantendo os atuais ocupantes em seus cargos.

      Aparentemente essa intervenção não foi bem recebida pelo grupo de atletas. Só o futuro dirá.

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