Flávio Marques: Receitas do São Paulo em 2021 – Estudo Comparativo

Com a divulgação oficial do balanço financeiro do São Paulo Futebol Clube, e de todos os demais clubes brasileiros em 2021, é possível comparar as receitas de diferentes fontes para cada time. Aqui, ao contrário dos estudos que são publicados pela grande imprensa, destaco exclusivamente as receitas diretamente ligadas à atividade de futebol profissional e de base, para todos os clubes analisados. O Red Bull Bragantino não foi incluído na análise pois os demonstrativos financeiros apresentados ao público são incompletos e não permitem a comparação da receita por diferentes fontes (direitos de TV, patrocínios, etc.).

 

Evolução histórica das 10 maiores receitas do Futebol Brasileiro em 2021

 

A nossa base de comparação é o ano de 2012, quando conquistamos nosso último título internacional. Esse ano marca também o início da virada administrativa do Clube de Regatas do Flamengo, então considerado o maior devedor do país, e o segundo rebaixamento do Palmeiras. O período de 2012 a 2021 cobre o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio, a abreviada gestão de Carlos Miguel Aidar, a extensa administração de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, e o primeiro ano da presidência de Julio Casares. Lembremos aqui que Julio Casares foi diretor de Juvenal, vice-presidente de Aidar e membro do Conselho de Administração na gestão Leco.

 

Vejamos o quadro em 2012 e como cada clube evoluiu em receitas no período considerado.

Vemos que em 2012 o SPFC estava tecnicamente empatado com o Internacional de Porto Alegre em segundo lugar entre as maiores receitas de futebol do país. Ambos ficavam abaixo apenas do Corinthians, em um ano que o time de Parque São Jorge venceu a Libertadores e o Mundial. Flamengo, Grêmio e Santos vinham logo atrás, e um pouco mais abaixo Palmeiras, Atlético-MG e Fluminense. O Athlético-PR, na época, tinha receitas muitos inferiores às dos paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos.

 

No gráfico de 2021 esse panorama se modificou radicalmente. Flamengo e Palmeiras se distanciaram muito dos demais competidores, Atlético-MG e Grêmio também ultrapassaram Corinthians e São Paulo, que por sua vez abriram vantagem para Internacional, Santos e Fluminense. O Athlético-PR vem se consolidando pelo terceiro ano consecutivo entre as dez maiores arrecadações do futebol brasileiro.

 

Para efeito de comparação, a inflação medida pelo IPCA, entre dezembro de 2012 a dezembro de 2021 foi de 71,2% no período. Nesse mesmo intervalo, a receita total do São Paulo Futebol Clube cresceu 96%, pouco mais do que a inflação, enquanto o Flamengo multiplicou sua renda por 5,67 vezes (467% de crescimento) e o Palmeiras por 5,76 vezes (476% de crescimento). O Galo, Campeão Brasileiro e da Copa do Brasil em 2021, viu suas receitas crescerem 234% em 2021 na comparação com 2012, enquanto o Athlético-PR ampliou em 4,46 vezes seus rendimentos (346% de aumento de receitas).

 

Entre os clubes considerados neste comparativo, apenas o Internacional (72,6% de crescimento) e o Corinthians (44%) tiveram evolução das receitas inferior ao do Tricolor. Todos os demais cresceram em ritmo mais forte no período considerado.

 

 

Receitas Recorrentes

 

Os grandes clubes brasileiros têm como parte importante de suas receitas a negociação de atestado liberatório de atletas. Essa fonte de recursos, porém, depende basicamente de fatores externos ao Clube. Uma maneira mais coerente de se comparar o trabalho dos gestores dos diferentes clubes é avaliar sob o ponto de vista das receitas recorrentes, aquelas regulares, como contratos de transmissão, patrocínios, bilheteria e sócio torcedor.  Vejamos aqui a comparação excluindo as receitas de negociação de direitos de atletas.

Quando excluímos a receita de negociação de direitos de atletas, vemos um empate técnico entre Flamengo e Palmeiras na liderança do ranking, um segundo escalão com Corinthians e Atlético-MG, o São Paulo posicionado em uma terceira prateleira, junto com Grêmio e Internacional. Santos, Athlético-PR e Fluminense fecham a lista.

 

As receitas recorrentes, como chamamos, são valores que, direta ou indiretamente, são geradas pela massa de torcedores de cada equipe. Bilheteria e programas de Sócio Torcedor são exemplos de receitas geradas diretamente pelos torcedores. Direitos de transmissão, patrocínios e licenciamentos podem ser enquadradas em receitas geradas indiretamente pela torcida. O quadro abaixo compara o total de receitas recorrentes, o número de torcedores de cada time (segundo pesquisa Pluri Consultoria de 2022, publicada em seu website), e mostra a eficácia de cada clube em converter a paixão de seus torcedores em recursos para o time de futebol.

 

A tabela acima mostra que o São Paulo Futebol Clube arrecada apenas R$ 18 por ano com cada torcedor. É uma média parecida com a do Flamengo, e é melhor que a do Corinthians, mas muito inferior aos demais clubes entre os 10 de maior receita no futebol brasileiro.

 

Desconsiderando Palmeiras e Atlético-MG, que foram muito vencedores em 2021 e com isso tendem a distorcer qualquer comparação, não se justifica que clubes como a dupla GreNal gerem, em média por torcedor, receitas de 2,5 a 3 vezes o que o SPFC tem arrecadado.

 

Se os administradores do São Paulo alcançassem a mesma eficácia que os do Santos FC, na conversão de paixão em recursos, o Tricolor do Morumbi teria receita recorrente anual na casa de R$ 650 milhões, mais do que o dobro do que arrecadamos em 2021.

 

 

Direitos de Transmissão

 

 

Para a maioria dos clubes, a receita proveniente de direitos de transmissão, em várias plataformas – TV Aberta, a cabo, PPV, serviços de streaming – corresponde à maior parte do valor arrecadado anualmente. Esse mercado tem mudado fortemente na última década, e hoje as receitas provenientes de mídia digital já se aproximam, ou podem até superar, as receitas fixas de mídia convencional, como é o caso do Flamengo.

 

Em 2021 todos os clubes tiveram as receitas de transmissão “turbinadas” pelo efeito do atraso de 11 rodadas do Campeonato Brasileiro e da final da Copa do Brasil. Portanto, a única comparação que cabe é dentro do próprio ano. No gráfico acima vemos que a receita de direitos de transmissão do SPFC foi equivalente ao valor recebido pelo Grêmio, e apenas um pouco maior do que o recebido pelo Fluminense. Pesa bastante aqui a exposição em TV aberta, para o Campeonato Brasileiro, e a permanência na competição, caso das Copas.

 

O São Paulo ficou escondido no PPV (pay-per-view), e teve desempenho modesto nas Copas. No Campeonato Brasileiro 2021 o SPFC teve apenas 10 jogos transmitidos em TV aberta, enquanto o Corinthians teve 15, o Atlético-MG apareceu em 14 datas, o Fluminense em 13, Palmeiras e Flamengo tiveram 12 transmissões cada um na plataforma.

 

 

Patrocínio e Publicidade

 

A área de Marketing é essencial para o sucesso de qualquer empreendimento hoje em dia. Isso vale também para os times de futebol. Por muitos anos, porém, o Marketing do SPFC foi deixado em segundo plano, servindo apenas para acomodar aliados políticos do presidente.

 

Em agosto passado Julio Casares veio anunciar, através de vídeo em redes sociais, o fechamento do “maior patrocínio da história do SPFC”, pelo menos em suas palavras. Posteriormente veio a público o valor desse contrato: R$ 24 milhões por ano, de 2022 a 2024, mais bônus por conquistas. Em 2021 o SPFC recebeu R$ 15 milhões, segundo os portais Globo e UOL. O patrocínio máster vale, portanto, R$ 87 milhões, mas distribuídos em 3 anos e meio de vigência. É fato que Eduardo Toni, diretor executivo de marketing contratado por Casares, conseguiu elevar o valor das “propriedades” do Tricolor dos R$ 16 milhões por ano em 2020, para um potencial de R$ 64 milhões em 2022, segundo declaração do próprio presidente do São Paulo em entrevista ao programa Grande Círculo, do Sportv. Em 2021, período de transição, o SPFC apresentou receitas de patrocínio e publicidade de R$ 33 milhões. Vejamos a comparação com os adversários.

 

A diferença do São Paulo para seus adversários diretos, aqueles que lutam pelos títulos no futebol brasileiro, é muito grande no tocante às receitas de patrocínio e publicidade. Mesmo os R$ 64 milhões que a diretoria conta para 2022, em contratos vigentes, ainda representam praticamente metade do valor obtido pelo Corinthians, e apenas 40% da receita de marketing do Flamengo com seu time de futebol. O clube da Gávea ainda arrecadou R$ 21 milhões em patrocínios para seu clube social e esportes olímpicos, que foram excluídos desta comparação.

 

 

Programa Sócio Torcedor

 

 

O São Paulo Futebol Clube foi o primeiro a criar um programa de Sócio Torcedor (ST), lançado em Janeiro de 1999 em projeto idealizado por Edson Lapolla, e por isso é o detentor do domínio “sociotorcedor.com.br” e proprietário da marca “Sócio Torcedor” no Brasil. Em março de 2021 foi lançado o novo programa, utilizando plataforma desenvolvida pela empresa FENG, que prometia ser uma revolução no já desgastado ST do Tricolor. Houve uma evolução em comparação ao resultado do Sócio Torcedor do SPFC em 2020 – crescimento de 32% no faturamento e aumento de 27 mil para 41 mil sócios ativos, mas ainda pouco para o potencial de 17 milhões de torcedores. Vejamos os números de cada clube em 2021.

 

O Corinthians e Santos não divulgam os números de faturamento relativos a seus programas, Fiel Torcedor e Sócio Rei, respectivamente. Entre os que estão representados no gráfico acima, vemos que a receita do São Paulo com seu Sócio Torcedor, R$ 10 milhões, é muito próxima do que fatura o Fluminense com seu “Sócio do Futebol”, mesmo que o Tricolor das Laranjeiras tenha apenas 20% do número de torcedores do São Paulo.

 

Bahia e Athlético-PR faturam o dobro com seus programas “Sócio Esquadrão” e “Sócio Furacão”, enquanto os gaúchos Internacional e Grêmio geram com seus programas praticamente seis vezes mais receitas do que o arrecadado pelo Sócio Torcedor do SPFC.

 

Um ponto essencial dos programas de Internacional, Grêmio, Athlético-PR, Bahia e Fluminense é o direito de voto para presidente, garantido para aqueles sócios torcedores que cumpram com tempo mínimo de associação ininterrupta nos planos que incluam esse benefício. Dessa forma, aumenta-se muito a fidelidade dos clientes, mesmo em épocas de baixa técnica dos times ou em casos excepcionais como a pandemia da COVID-19.

 

 

Premiações em campeonatos

 

 

Esta linha é um pouco prejudicada por diferenças na forma de contabilizar certas receitas. Alguns clubes como o Corinthians, e mesmo o Atlético-MG, contabilizam os bônus recebidos da TV em função da passagem de fase em Copas, ou pela melhor colocação no Brasileiro, como receitas de transmissão, e não como “Premiação”. A falta de um critério unificado prejudica a comparação, mas o que se observa já há algum tempo é que o desempenho em campo cada vez mais representa aumentos significativos na receita total dos clubes.

 

O gráfico abaixo mostra os valores informados pelos clubes em seus demonstrativos financeiros:

 

O São Paulo não especifica o que compõe o valor de R$ 48 milhões registrados como Premiação no ano passado. É sabido que o título do Campeonato Paulista rendeu apenas R$ 3,5 milhões aos cofres do Tricolor. Líder nesse quesito, também impactado pelo atraso na temporada 2020, o Palmeiras, com os dois títulos de Libertadores, levantou um valor de R$ 258 milhões.

 

Conclusão

 

O São Paulo Futebol Clube esteve entre os líderes do ranking das maiores receitas do futebol brasileiro nos primeiros anos do Século XXI, e até 2013 apresentava consistentes superávits anuais, sendo administrado de forma a não gastar mais do que se podia arrecadar. A partir de 2014, porém, essa orientação deixou de ser aplicada.

 

O crescimento das receitas, moderado, mal cobrindo a inflação do período, ficou muito atrás do crescimento dos custos, e os prejuízos tornaram-se frequentes entre 2014 e 2021. Desde o ano 2019, os prejuízos acumulados excederam o patrimônio social, e o Clube passou a apresentar Patrimônio Líquido Negativo, também conhecido como Passivo a Descoberto, o que na prática representa uma situação de insolvência da Entidade, por não ter recursos para pagar o que deve.

 

De 2012 para cá, o São Paulo ficou muito para trás de seus adversários diretos, em todas as fontes de receita, exceto na venda de direitos de atletas. Esse foi o preço pago por más gestões em diretorias chave como a de futebol e de marketing, ao longo do período.

 

Para recuperar sua posição de liderança, o SPFC precisará antes sanear suas finanças, para então voltar a investir, mas de forma profissional, com gestão responsável.

4 comentários em “Flávio Marques: Receitas do São Paulo em 2021 – Estudo Comparativo

  1. Juvenal tem sua parcela de culpa sim,mas depois dele vieram gestores piores como podemos ver acima principalmente esse tal de Leco que o próprio JJ afirmava não ter competência nem pra ser síndico de condomínio,isso sem falar que na época do Juvenal Juvencio o São Paulo era campeão,o JUJU foi uma espécie de Paulo Maluf do Morumbi, roubou mas fez.

  2. Para esfregar na cara dos criticos do senhor Juvenal. Desde a sua saída, a mentalidade do clube se apequenou. Até o senhor Marco Aurélio, que adora ir na imprensa falar mal do SP, não se propõe a brigar pela presidência e fazer as tantas mudanças que ele aponta no programas esportivos. Critico de sófá é mole, quero ver ir pegar o bicho na toca!

  3. Parabéns Flávio pela abrangência e concisão da sua análise. 2014 foi o ano em que Carlos Miguel Aidar assumiu a Presidência do Clube. Como comprovado pela sua análise, essa gestão se tornou o marco de início da nossa derrocada. Na análise não foi considerado o crescimento patrimonial da Instituição verificado nas gestões anteriores, quando foi agregado o CT de Cotia, além de várias melhorias no parque social e também no CT da Barra Funda. Tudo isso sem contar os títulos obtidos no futebol.

    • Obrigado Waldir!

      Sim, o SPFC tem perdido relevância no futebol brasileiro, fruto de seguidas más administrações, que tem gerado déficits frequentes e aumentado nossas dívidas. Sem recursos para investir vamos deixando nossa estrutura ficar defasada.

      É o círculo vicioso, espiral decrescente, da qual o São Paulo só sairá quando sanear as finanças.

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