Flávio Marques: O Resultado Financeiro do SPFC em 2021

Quando foi eleito presidente do São Paulo Futebol Clube, em dezembro de 2020, Julio Casares já sabia que teria um grande desafio para equilibrar as finanças do Clube. Casares havia participado do Conselho de Administração do SPFC durante o mandato de seu antecessor, Carlos Augusto de Barros e Silva (Leco), e tinha conhecimento profundo da situação financeira que herdaria.

O bom relacionamento, o fato de Casares e Leco pertencerem ao mesmo grupo político, e a continuidade de parte da equipe de administração financeira, fizeram com que o período de transição fosse de plena cooperação. O discurso do novo presidente era de austeridade, e o orçamento (previsão de receitas e despesas) para 2021 foi feito de forma conjunta pelas equipes – a que estava saindo e a que estava chegando. Não cabe, portanto, qualquer reclamação dos atuais gestores sobre as metas orçamentárias que receberam para 2021.

Nas próximas páginas vamos analisar o resultado do exercício 2021 do São Paulo Futebol Clube.

 

Demonstração do Resultado do Exercício. Visão geral

 

A administração Casares assumiu em 1º de janeiro de 2021, com o objetivo de aumentar as receitas do clube em 29% sobre o ano anterior, reduzir as despesas em 8% em comparação a 2020, e gerar um superávit no ano de R$ 13 milhões.

Passados 12 meses, a equipe de Julio Casares conseguiu cumprir a meta de receita do orçamento, mas teve mau desempenho na administração das despesas do SPFC, acumulando gastos que excederam em R$ 124 milhões o valor previsto. O valor gasto pelos gestores do São Paulo foi 28% superior ao aprovado pelo Conselho Deliberativo do Clube.

 

Vamos entender como isso aconteceu.

Comparativo de Receitas x Ano Anterior e Valor Orçado

A principal informação da tabela acima é o valor superestimado no orçamento para negociação de atestado liberatório de atletas. O valor previsto de R$ 176 milhões, seria próximo ao arrecadado nas negociações de atletas em 2017, o melhor ano nesse sentido para o São Paulo. Naquele ano, porém, negociamos David Neres, Luiz Araújo, Thiago Mendes e Maicon Roque, todos atletas que saíram do SPFC bem valorizados, entre outros nomes. Não é necessário ser um grande expert no futebol para saber que a nossa atual “safra” de talentos não permite sonhar com vendas tão altas. Ficou a impressão de que esse valor, objetivo de vendas, foi calculado para que o orçamento apresentasse um superávit, e não uma estimativa real do valor de mercado dos atletas que pretendíamos negociar.

Em um próximo texto nesta série vou analisar detalhadamente as receitas do futebol do São Paulo, comparativamente a outros clubes do futebol brasileiro. Deixo aqui apenas um “spoiler” de publicações futuras. Casares se dedicou pessoalmente a acelerar a assinatura de contrato com a empresa FENG, ainda no mês de março de 2021. A FENG prometia revolucionar o programa de Sócio Torcedor, aumentando a receita do Tricolor Paulista. Em 2021 o SPFC arrecadou R$ 9,5 milhões com seu programa, um incremento de 32% quando comparado com a receita do ano 2020 (R$ 7,2 milhões). Pode parecer um bom resultado, mas não é. O Fluminense Football Club, cuja torcida não chega a 20% da massa de torcedores do São Paulo, arrecadou com seu “Sócio do Futebol” o valor de R$ 8,8 milhões, ou o equivalente a 92% do obtido pelo SPFC.

Na sequência vamos focar nas despesas, que geraram o elevado déficit de R$ 106 milhões em 2021.

Comparativo de Despesas x Ano Anterior e Valor Orçado

 

Organizando os dados em uma tabela, fica claro que o prejuízo de R$ 106 milhões apurado em 2021 é causado principalmente pelo descontrole nos gastos com folha salarial e direitos de imagem do departamento de futebol profissional e de base. Outros efeitos significativos se encontram na despesa financeira e na linha de “Não Operacionais”. Vejamos cada um.

 

Folha Salarial e Direitos de Imagem do Futebol

 

Carlos Belmonte, Diretor Institucional de Futebol, e sua equipe de Diretores Adjuntos, além dos gestores profissionais Rui Costa e Marcos Biasotto, tinham por objetivo uma redução de 16% na folha de salários e direitos de imagem do Tricolor. A meta era reduzir a despesa em R$ 29 milhões. Ao final do ano, entretanto, houve um aumento na despesa de R$ 61 milhões em comparação a 2020, incremento de 33% na base de comparação com o ano anterior. Os R$ 246 milhões gastos em folha salarial e direitos de imagem do SPFC correspondem a um estouro de R$ 90 milhões na verba prevista em orçamento. Essa despesa excedeu em 57% o valor aprovado pelo Conselho Deliberativo para o ano 2021.

Sabendo que o Clube está em situação financeira bastante complicada, os comandantes do nosso futebol deveriam ter sido mais criteriosos nas contratações.

Dos nove atletas contratados para o time principal do São Paulo em 2021, apenas dois podem ser considerados hoje como titulares de Rogério Ceni, Calleri e Éder, e ainda assim o “italiano” Éder é muito contestado pela torcida. Miranda, Rigoni e Gabriel Neves tem tido poucas oportunidades de jogar, enquanto quatro atletas já não fazem parte do elenco São-paulino este ano. Bruno Rodrigues, atacante que veio da Ponte Preta, já havia saído no primeiro semestre do ano passado, Orejuela, lateral que tinha em seu histórico passagens medíocres por Cruzeiro e Grêmio, hoje está emprestado ao Athlético-PR, William, médio volante, nunca justificou sua contratação, e Martin Benitez tem eternos problemas físicos que limitam sua capacidade de jogar no ultracompetitivo Campeonato Brasileiro. Uma taxa de sucesso de 2 jogadores em 9 contratações (22% de acerto), é muito baixa. Onde estão nossos especialistas em análise de desempenho e análise de mercado? Estamos contratando no escuro?

Outras atitudes como a inexplicável renovação de contrato de João Rojas, que teria seu vínculo encerrado em maio de 2021, mas foi prorrogado para dezembro do ano passado, sem justificativa técnica, colaboraram para tornar ainda maior o déficit são-paulino.

Para efeito de comparação, considerando o Futebol Profissional e de Base, o São Paulo Futebol Clube teve gastos de folha salarial e direitos de imagem em 2021 de R$ 246 milhões, enquanto o Clube Atlético Mineiro, semifinalista da Libertadores, campeão Brasileiro e da Copa do Brasil ano passado, apresenta em seu demonstrativo um custo total de R$ 271 milhões. Portanto, em 2021, o “Galo”, equipe que ganhou os principais títulos nacionais da temporada, gastou apenas 10% a mais do que o investido pelo SPFC, time que lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada do Brasileiro.

 

Despesa Financeira Líquida

O endividamento do Clube tem como efeito direto o alto custo financeiro para garantir o giro e a continuidade das operações. Vejamos como ficaram essas despesas em 2021.

Observando pelo lado das despesas financeiras, a estimativa de R$ 35 milhões de custo que constava no orçamento era demasiadamente otimista. O valor real chegou a R$ 60 milhões, ou 73% acima do planejado.

Despesas financeiras de R$ 60 milhões por ano representam 24% do que foi investido em folha salarial e imagem do futebol Tricolor em 2021. O São Paulo precisa reduzir seu endividamento, e consequentemente o custo financeiro, para poder aumentar seus investimentos no time de futebol.

R$ 60 milhões por ano são equivalentes a R$ 1,15 milhões por semana, ou R$ 164 mil por dia, todos os dias do ano.

Para reduzir sua dívida, o Clube precisa gerar superávit nas operações.

Traduzindo: enquanto o SPFC continuar gastando mais do que arrecada, nunca sairá desse “buraco” da “dívida impagável”. A austeridade nos gastos é o único caminho para o São Paulo Futebol Clube recuperar, a médio prazo, sua condição de protagonista do futebol brasileiro.

 

Despesas Não Operacionais

 

O Demonstrativo de Resultado do Exercício (DRE) 2021 mostra uma despesa Não Operacional de R$ 11,8 milhões, descritos como “Encargos e Honorários Parcelamento de Tributos (nota 13)”.

Na Nota Explicativa 13, está descrita a adesão ao PERSE – “Em dezembro de 2021, o Clube aderiu ao PERSE – Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos… O Clube parcelou R$ 62,3 milhões de débitos não previdenciários e R$ 19,6 milhões de débitos previdenciários nas transações”. A soma dessas parcelas resulta em praticamente R$ 82 milhões em acréscimo na conta de Obrigações Tributárias Parceladas no Passivo, apenas devido a essa adesão.

Os valores dos parcelamentos consolidados, na data do balanço, estão assim demonstrados:

 

As notas explicativas, porém, não discriminam quais os Honorários e quais os Encargos (juros, multas e atualizações do principal) que compõem os R$ 11, 756 milhões lançados na DRE como “Resultado Não Operacional”.

Um Clube que tem por discurso a transparência na gestão deveria ser um mais preciso na descrição de um valor tão relevante para o resultado geral da Entidade.

Ainda com relação aos R$ 82 milhões relativos à adesão ao PERSE, as notas explicativas não são claras quanto à contrapartida do lançamento de acréscimo em Obrigações Tributárias Parceladas, conta do Passivo (Obrigações a Pagar do SPFC). No relatório da Diretoria Financeira consta que o Resultado foi impactado pelo registro da multa, juros, correção e honorários pelo parcelamento de Tributos na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, porém, as notas explicativas não explicam qual o tratamento do valor principal dessa dívida Tributária. O espaço está aberto para esclarecimentos da Diretoria.

 

Conclusão

 

Apesar da situação financeira crítica do São Paulo Futebol Clube, a Diretoria Eleita, em conjunto com a Diretoria Executiva, excedeu em 28% o valor previsto em orçamento para ser gasto no ano de 2021, sem que houvesse qualquer ação por parte do Conselho de Administração ou do Conselho Deliberativo. Essa situação fere o artigo 137 de nosso Estatuto Social que estabelece que, em caso de excesso de mais de 5% no orçamento, seja instaurado um procedimento para apuração de responsabilidade.

8 comentários em “Flávio Marques: O Resultado Financeiro do SPFC em 2021

      • Flávio, eu escrevia em outro blog bem conhecido, sobre o SP. Muitos dos textos eram críticos ao Leco, Raí e pássaro.
        Assim que a nova gestão entrou, esperei um tempo pra ver o que rolava
        Esperei e escrevi deprê de um ano mais ou menos.
        No texto citava o absurdo sobre um homem que assumia o futebol do clube mais vitorioso internacionalmente no Brasil, sendo confesso não entendedor de futebol
        Falei sobre como casares e Belmonte pareciam crianças fazendo castelos de areia, extremamente frágeis perante outros clubes
        O texto foi pro ar…em menos de uma hora foi retirado
        Me preocupa a relação dessa diretoria com a imprensa. MUITO

        • Independente de qualquer julgamento de valor do conteúdo, o fato é que Casares é um bom comunicador, e tem o poder de persuadir a audiência a acreditar que faz uma boa gestão.

          Com números mostramos que essa imagem de “bom gestor” não se confirmou no que toca a seu trabalho no SPFC.

          Sobre relações perigosas com a imprensa, não posso comentar, pois não estou dentro dos órgãos de comunicação, mas é fato que existem blogs que criticavam Leco e passaram a apoiar incondicionalmente a atual administração, uma continuidade da anterior.

  1. Parabéns Flávio. Sua análise nos remete a conclusão de que a atual gestão é um continuismo das anteriores. As promessas levadas a efeito por JC em sua campanha política não se confirmaram. A performance dessa gestão pode ser definida como “temerária”, posto que a dívida continua crescendo. Recentes episódios administrativos, como foi a saída do Marquinhos, sinalizam que muita coisa tem que ser mudada, especialmente no que se refere à gestão de contratos dos atletas. Cotia, nossa incubadora de craques, merece contar uma administração mais profissional. Temos que cobrar resultados mais eficientes. Enfim, o atual cenário favorece aqueles que alardeiam a necessidade de ser criada uma SAF, tese essa que eu não apoio. Só nos resta continua torcendo por bons resultados esportivos, de forma a proporcionar a viabilidade de entrada de recursos financeiros pontuais. Abraços e reitero os meus parabéns pela sua análise.

    • Obrigado Waldir,

      Sobre a SAF, eu penso que, enquanto não sanearmos financeiramente o Clube esse debate fica sem sentido.

      Uma SAF constituída a partir de um clube “falido” terá um valor de mercado muito baixo.

      Se o SPFC recuperar seu equilíbrio financeiro, um investidor precisará pagar muito mais para adquirir parte na sociedade.

      É o que eu penso.

      Um abraço!

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