Flávio Marques: O Endividamento do SPFC em 2021

Este artigo tem por objetivo resumir para os torcedores do São Paulo Futebol Clube a situação real do endividamento da Instituição. Dentro do possível, procuro relacionar os números frios do Balanço e do Demonstrativo de Resultado do Exercício aos fatos envolvendo o time, os atletas, e outros interessados.

Os números apresentados referem-se aos saldos das contas do Balanço em 31 de dezembro de 2021, e a base de comparação são os saldos no encerramento do ano de 2020. Para todos os efeitos entendem-se por “Circulante” as obrigações de curto prazo, devidas no período de 12 meses a partir do final do ano 2021, isto é, com vencimentos ao longo do ano 2022. Por “Não Circulante” entendemos as obrigações com vencimento a partir de 1º de janeiro de 2023.

Por “Endividamento Líquido” entendemos o total de Obrigações do Clube (dívidas) menos o total de Direitos (por exemplo dinheiro em caixa e contas a receber) na data do Balanço.

 

 

Endividamento Líquido em 31/12/2021

 

Quando assumiu a presidência do São Paulo em 1º de janeiro de 2021, Julio Casares recebeu de herança uma dívida líquida de R$ 575 milhões, dos quais R$ 339 milhões teriam vencimento em curto prazo. Essa dívida de curto prazo representava 73% do total de receitas projetadas para o Clube no orçamento daquele ano.

 

Abro aqui um parêntese para lembrar que o presidente Casares não pode alegar desconhecimento prévio da situação. Casares fez parte do Conselho de Administração, órgão da administração do Clube, na gestão de seu antecessor, por quase quatro anos, e vem participando das diretorias do SPFC desde os primeiros anos deste século. Fecho parêntese.

 

O gráfico acima mostra uma evolução positiva (redução) do endividamento de curto prazo no primeiro ano de gestão de Casares, porém um preocupante crescimento no endividamento líquido total do SPFC. Enquanto a redução na dívida “Circulante” foi de R$ 64 milhões, por outro lado, houve um acréscimo de R$ 132 milhões nas dívidas de longo prazo. No final de 2021, a dívida líquida do Clube chegou a R$ 642 milhões, um resultado R$ 65 milhões pior do que o deixado por Leco.

 

Vamos analisar os principais componentes da dívida do Tricolor, para entender o que levou a esse resultado.

 

 

Dívida Total Estratificada

 

 

Aqui vemos de forma simples quais são os principais componentes da dívida do São Paulo, e como evoluíram no ano passado. Ao final de 2021, as dívidas com Instituições Financeiras e Terceiros correspondiam a 30% da dívida efetiva total do SPFC (dívida nominal, sem descontar os direitos a receber), com aumento de R$ 31 milhões ao longo do ano. Houve no período um grande aumento das Obrigações Tributárias, de R$ 83 milhões, além de crescimento do valor a pagar em Acordos Trabalhistas e Cíveis e nas Obrigações Trabalhistas e Direitos de Imagem.

 

O ponto positivo, ao menos à primeira vista, é a redução nos débitos com Intermediários e a significativa amortização das dívidas com Entidades Esportivas. Na sequência analisaremos cada uma dessas variações nas diferentes contas.

 

 

 

Instituições Financeiras e Terceiros

 

Para manter o giro de pagamentos e financiar a operação deficitária do SPFC a diretoria lançou mão de empréstimos bancários que somaram praticamente R$ 190 milhões em 2021. Grande parte desses empréstimos foram utilizados para rolar e alongar a dívida, pagando débitos de curto prazo e trocando por financiamentos de mais longo prazo. No gráfico acima o aspecto positivo é o alívio na dívida Circulante, que continua, porém, muito elevada quando comparada com a capacidade de geração de fluxo de caixa livre da Instituição.

 

Os principais credores entre os bancos, na data de publicação do Balanço, eram o Daycoval (R$ 84 milhões), Bradesco (R$ 52 milhões), Tricury (R$ 19 milhões) e Rendimento (R$ 18 milhões), e segundo as notas explicativas, os contratos estão sujeitos a atualização monetária a uma taxa média de 1,20 % a.m., correspondente a uma taxa efetiva anual de 15,4%. Comparada com a SELIC em Dezembro de 2021, a 9,25% a.a., resulta em um spread (taxa de risco) de 6,15% a.a., que não é ruim para quem deve tanto.

 

A preocupação neste caso está mais relacionada à gestão do clube. Enquanto a operação continuar deficitária, e sem gerar caixa – o resultado do Exercício 2021 foi um déficit de R$ 106 milhões – o SPFC continuará dependente de empréstimos bancários para se manter em atividade.

 

Os empréstimos de pessoas físicas estão sujeitos a atualização monetária a uma taxa média de 1,25% a.m., equivalente a uma taxa efetiva anual de 16,1%, spread de 6,83% a.a.

 

O maior credor pessoa física era o empresário André Cury Marduy, que em fevereiro passado acionou o São Paulo Futebol Clube na Justiça para receber a totalidade dos débitos. O empresário cobra do Tricolor o montante de R$ 29 milhões, segundo fontes da imprensa.

 

André Cury Marduy, na sua pessoa física, emprestou ao SPFC a quantia de R$ 13,7 milhões em julho de 2019, para que o Tricolor pagasse ao Cruzeiro à vista pela contratação de Raniel. Raniel, atacante que ficou pouco tempo no São Paulo e foi trocado por Vitor Bueno, era agenciado pela empresa Link Assessoria Esportiva, pessoa jurídica cujo titular é, coincidentemente, André Cury. Além do valor pago ao Cruzeiro, o São Paulo ficou ainda responsável pelo pagamento de R$ 4 milhões a título de intermediação para a empresa de Cury pela transação dos direitos de Raniel.

 

 

Obrigações Tributárias

 

Aqui um exemplo de “bomba relógio” que tem aparecido com frequência nos relatórios financeiros do SPFC, resultantes de administrações anteriores.

 

Em dezembro de 2021, o São Paulo aderiu ao PERSE – Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos. O Clube parcelou R$ 62,3 milhões de débitos não previdenciários e R$ 19,6 milhões de débitos previdenciários nas transações. Esse montante, R$ 81,9 milhões, não aprovisionado, não aparecia entre as “perdas possíveis” discriminadas nos demonstrativos financeiros anteriores. Ressalto aqui que esses valores podem ser surpreendentes para nós torcedores ou associados do clube, mas não para o atual presidente que participou do Conselho de Administração da gestão Leco, e deveria estar a par da situação.

 

 

Intermediação na Venda ou Aquisição de Direitos de Atletas

 

A dívida com Intermediários segue sendo uma das mais importantes no total de endividamento do São Paulo. Em 2021 houve uma pequena redução no valor total, com alongamento significativo no perfil dos vencimentos.

 

O relacionamento com Intermediários é algo que preocupa quem analisa os números do São Paulo. O valor devido a Intermediários em operações de aquisição de direitos e renovação de contratos aumentou em R$ 4 milhões no primeiro ano da gestão Casares. Nessa conta encontramos dívidas de R$ 2,2 milhões com a empresa Imagesport (procuradores de Arboleda) e de R$ 1,9 milhões com a empresa Prattes Planejamento e Gestão (agentes de Orejuela). O SPFC encerrou o ano 2021 devendo R$ 44 milhões a empresários por intermediação em aquisição de direitos ou renovação de contratos, elevação de 10% em relação a 2020.

 

Analisando as comissões devidas pela intermediação na venda de direitos de atletas, observamos uma grande concentração de negócios com a empresa Bertolucci Assessoria Propaganda Esp. Ltda. A empresa de Giuliano Bertolucci tem a receber do Tricolor a soma de R$ 33,8 milhões, o que corresponde a 58% do total de R$ 58,2 milhões a pagar a agentes, registrado nessa conta do balanço. Sem dúvida, uma grande e perigosa concentração de débitos junto a um único credor.

 

Sobre a participação de Bertolucci na venda de Éder Militão, inicialmente ao Futebol Clube do Porto e posteriormente ao Real Madrid, vemos que o valor ainda a receber pelo agente por essas transações é de R$ 21,2 milhões. A Bertolucci Assessoria teve créditos de R$ 8,9 milhões na primeira transferência do atleta, para o Porto em 2018, e mais R$ 4,4 milhões quando Militão foi para o Real Madrid em 2019, a título de intermediação. Os R$ 13,3 milhões de comissão acumulada se tornaram R$ 21,2 milhões devidos em 31/12/2021. Os juros elevam de forma acelerada as dívidas, e o débito fica cada vez maior. O resultado líquido para o São Paulo, somadas as duas transferências, foi de R$ 37,3 milhões. Nessas negociações, a Bertolucci Assessoria ficou com 26% do valor das transferências, enquanto o SPFC ficou com 74%.

 

Já alertado ano passado, continua ocorrendo um fato pouco usual no São Paulo Futebol Clube. Enquanto o Clube devia em 31/12/2021, a soma de R$ 102 milhões a intermediários, por outro lado tinha a receber apenas R$ 91 milhões de outras entidades esportivas, como mostrado na tabela abaixo.

 

O SPFC está perigosamente utilizando os recursos dos empresários para financiar as operações do futebol. Esses recursos são caros, em termos financeiros, e criam potencial conflito de interesses em negociações futuras.

Acordos Trabalhistas e Cíveis

Aqui mais exemplos de como más decisões de administrações anteriores podem impactar as contas do SPFC na atualidade. O aumento de R$ 28 milhões nesta conta é explicado basicamente pelas rescisões contratuais de Daniel Alves (R$ 23 milhões) e Hernanes (R$ 3 milhões), além do acordo Trabalhista com Richarlyson (R$ 10 milhões ainda a pagar). Por outro lado, o Tricolor vem cumprindo os acordos anteriores e amortizou em 2021 aproximadamente R$ 7 milhões em acordos Trabalhistas com Edcarlos, Joilson, Eder Luis, Lenilson, Diego Tardelli, Arouca, Maldonado, Borges, Junior Cesar e Hugo, para citar alguns.

 

Obrigações Trabalhistas e Direitos de Imagem

O valor de Obrigações Trabalhistas e Direitos de Imagem a Pagar continua crescendo. Em 2021 essa dívida cresceu R$ 12 milhões comparada com 2020, e atingiu R$ 99 milhões.

 

O saldo de Obrigações Trabalhistas aumentou em R$ 2 milhões, indicando que o Clube não cumpriu o acordo feito com os atletas em 2020 para pagar as parcelas diferidas (postergadas) referentes aos meses de maio a dezembro daquele ano. Recentemente, no Programa Mesa Redonda, o Diretor de Futebol Carlos Belmonte confirmou essa interpretação, e informou que o empréstimo de R$ 20 milhões aprovado pelo Conselho Deliberativo em abril passado será destinado basicamente para pagamento desses atrasados.

 

O aumento de R$ 10 milhões no saldo de Direitos de Imagem a pagar impacta diretamente os jogadores profissionais. No mesmo programa citado acima, Belmonte confirmou que os atrasos em Direitos de Imagem continuam ocorrendo no Tricolor. Como exigir profissionalismo dos jogadores se o Clube não cumpre com suas obrigações em dia? Por que insistimos em contratar veteranos de altos salários se não temos condições de manter seus salários e direitos de imagem em dia? A diretoria precisa urgentemente rever suas prioridades ou a dívida só aumentará.

 

 

 

Entidades Esportivas

 

No início de 2021 havia grande risco de o São Paulo Futebol Clube receber sanções da FIFA por não cumprir suas obrigações com entidades esportivas no exterior. Empréstimos junto a entidades financeiras, já nos primeiros dias da atual administração, foram tomados com o objetivo emergencial de quitar dívidas com o Dínamo Kiev (R$ 22,5 milhões, por Tchê Tchê), Querétaro (R$ 10,5 milhões, por Volpi) e Tigres (R$ 6,2 milhões, por Cueva).

 

Essa conta poderia apresentar saldo ainda menor, se não fossem os R$ 22,7 milhões devidos ao Elche Club de Fútbol em 31/12/2021, referente à contratação de Emiliano Rigoni, e os R$ 6,9 milhões devidos ao Cruzeiro pela contratação de Orejuela. Rigoni, indicado pelo então técnico Hernán Crespo, começou bem no Tricolor, mas há meses que seu futebol vem desapontando a torcida do São Paulo. Trata-se de mais um caso de contratação aparentemente sem sucesso. Aguardemos e vamos torcer pela recuperação técnica do atleta.

 

Orejuela, que vinha de campanhas medíocres no Cruzeiro e Grêmio, foi pouco aproveitado em 2021, e atualmente está emprestado ao Athlético PR.

 

O caso de Rigoni requer ainda um esclarecimento da diretoria do SPFC. Enquanto o São Paulo declara um valor a pagar ao Elche de R$ 22,7 milhões (EUR 3,6 milhões na cotação de 31/12/2021), o clube espanhol declara em seu demonstrativo financeiro da temporada 2020/21 a venda de Rigoni por EUR 2,9 milhões, valor a ser parcelado em três anos (2022, 23 e 24). O que explicaria essa diferença?

 

 

Conclusão

 

O endividamento sufoca a Instituição. No ano 2021 o São Paulo Futebol Clube arcou com o valor de R$ 60 milhões em despesas financeiras, o equivalente a R$ 1,15 milhões por semana, ou ainda R$ 165 mil por dia, ao longo dos 365 dias do ano.

 

A partir do momento em que sanear as finanças, o SPFC poderá voltar a investir em reforços para o time e voltar à sua posição de protagonista no futebol brasileiro.

 

O Clube de Regatas do Flamengo já mostrou o caminho para a recuperação financeira de um clube de massa como o Tricolor. Sem necessitar de um mecenas, o Flamengo saiu de uma situação de dívida “impagável” em 2012 – dívida líquida de R$ 804 milhões, equivalente a 3,8 vezes a receita anual, e Patrimônio Líquido negativo de R$ 424 milhões – para se tornar um dos clubes em melhor situação financeira em 2021 – dívida líquida de R$ 263 milhões, equivalente a 0,26 vezes a receita anual, e Patrimônio Líquido positivo de R$ 199 milhões. A fórmula é simples: definir e respeitar um teto de gastos compatível com as receitas recorrentes do clube (Direitos de Transmissão, Patrocínios, Bilheteria e Sócio Torcedor), dedicando as receitas excepcionais (vendas de direitos de atletas, premiações em campeonatos, outras receitas eventuais) para a amortização de dívidas. Em 4 a 5 anos de austeridade o SPFC recuperaria seu poder para investir. O Flamengo limitou drasticamente seus gastos entre 2013 e 2017, voltou a investir em 2018, para ganhar tudo em 2019, e aproveitou os bons resultados para reforçar ainda mais suas finanças. Esse é o caminho para o São Paulo.

3 comentários em “Flávio Marques: O Endividamento do SPFC em 2021

  1. Perfeito. Pena que a gestão atual aposta em contratar jogadores sem mercado, pagando altos salários, e intermediações. Além disso, se nega a vender atletas como Sara , agora lesionado, e por consequência sem mercado. A desculpa é apostar em ganhar campeonatos para obter premiados, mas com um time mediano, parece o roteiro de uma a
    missão quase impossível.

  2. Mais uma brilhante contribuição do amigo Flávio Marques. É uma situação complicada, empurrada com a barriga por muitos anos e coisas no mínimo estranhas…

    Temos um time de meio de tabela, uma dívida gigante e dirigentes que não demonstram poder de resolvê-la.

    Some-se a isso o enorme risco que corremos de rebaixamento nos últimos 10 anos, em pelo menos 3 vezes não caímos por força da torcida junto a um técnico ou jogador como Hernanes.

    Um rebaixamento seria uma catástrofe e a tal SAF não é solução na maioria dos casos.

    É preciso um resgate no SPFC que começa por pessoas do bem, que queiram servir o clube e não se servir dele, além claro de conhecimento em administração de crises financeiras.

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