Flávio Marques: Gestão Ineficiente do Futebol do SPFC continuou em 2021

O ano de 2021 foi atípico em vários aspectos em relação ao futebol brasileiro e sul-americano. As paralizações das competições ocorridas em 2020, devido à pandemia da COVID-19, atrasaram o Campeonato Brasileiro daquele ano, assim como a Copa do Brasil, a Copa Sul-americana e a Libertadores da América, fazendo com que 11 rodadas do campeonato nacional, e as finais das Copas, fossem disputadas já em 2021. Foram, portanto, 12 meses ininterruptos de futebol, sem férias, para recuperar o calendário.

 

Há anos venho defendendo em meus artigos que a causa do mau desempenho esportivo do São Paulo Futebol Clube nas competições, que continuou acontecendo em 2021, não é a falta de dinheiro para investimento, mas sim a ineficiência na aplicação desses recursos. Na sequência vamos mostrar que essa ineficiência continuou em 2021. Nossa base de comparação são os demais clubes brasileiros que disputam a série A do Brasileirão.

 

Quando assumiu a presidência do SPFC, em 1º de janeiro de 2021, Julio Casares recebeu como herança um time que liderava o Campeonato Brasileiro, com 56 pontos em 27 jogos, 69% de aproveitamento dos pontos disputados. Fernando Diniz e seus comandados tinham o melhor ataque (47 gos pró), a melhor defesa (21 gols sofridos) e, disparado, o melhor saldo de gols até aquele momento (26 gols). A vantagem para o segundo colocado era de 7 pontos. Dias antes, o São Paulo havia ainda jogado a semifinal da Copa do Brasil, quando foi eliminado pelo Grêmio em dois confrontos muito equilibrados.

 

Em artigos anteriores já mostrei o desastre que foi nosso desempenho na reta final do Campeonato Brasileiro 2020. Em 11 rodadas disputadas entre janeiro e fevereiro de 2021 o time somou apenas 10 pontos, e terminou o campeonato na quarta posição. Foi uma decepção muito grande para a enorme torcida Tricolor, que sonhava com o hepta brasileiro. Nas rodadas que aconteceram pós ano novo, portanto sob nova direção, o São Paulo teve desempenho superior apenas ao do Botafogo, time que foi o lanterna da competição.

 

Já no Campeonato Brasileiro de 2021 o time começou muito mal, só foi conseguir uma vitória na décima rodada (0 x 2 contra o Internacional, no Beira Rio), e lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada. Terminou o campeonato em 13º lugar, com 48 pontos, apenas 11 vitórias e um saldo negativo de 8 gols. Ao longo de todo o torneio a melhor colocação do Tricolor foi um 11º lugar alcançado na 29ª rodada, após nova vitória, desta vez em casa, contra o Internacional (1 x 0 no Morumbi, em 31/10/2021).

Fazemos aqui a primeira comparação, de desempenho esportivo, entre todos os times que disputaram a Série A em 2020 e 2021, e não foram rebaixados nesse último ano. Apenas 13 times se enquadram nesse critério. Todos esses times, no ano 2021, realizaram 49 partidas pelo Nacional, com exceção de Palmeiras e Flamengo, que jogaram 50 vezes pois tinham um jogo atrasado. Esse jogo a mais de Palmeiras e Flamengo não altera as conclusões deste estudo. Aqui segue a tabela de desempenho, considerados todos os jogos que cada equipe realizou pelo Campeonato Brasileiro no ano de 2021.

A tabela acima mostra claramente que o São Paulo Futebol Clube, considerados todos os jogos realizados pelo Campeonato Brasileiro no ano de 2021, foi o de pior desempenho entre as equipes que não foram rebaixadas. O Tricolor teve o menor número de pontos somados, o menor número de vitórias, o pior ataque e a segunda pior defesa, entre os times qualificados para o estudo. Mesmo equipes de menor investimento, como o Atlético-GO, apresentaram números bem melhores.

Vamos então comparar o quanto cada clube gastou com seu de futebol em 2021.

O São Paulo Futebol Clube gastou R$ 412 milhões com seu Futebol Profissional e de Base em 2021. Apenas três clubes gastaram mais do que o SPFC no período, mas foram as equipes que ganharam todas as competições em disputa no ano.

O rubro-negro da Gávea, que gastou quase R$ 700 milhões, atropelou no final e levou para o Rio de Janeiro a taça do Brasileiro 2020 que, na virada do ano, parecia que ficaria no Morumbi, e esteve próxima de ir para o Beira Rio. No seu ano de “fracasso” esportivo, o Flamengo ainda foi o vice-campeão Brasileiro de 2021, e chegou à decisão da Libertadores, sua segunda final em três anos. O título do Carioca vai perdendo a cada ano a relevância, devido à enorme disparidade econômica e técnica do “Urubu” em relação aos seus adversários locais.

 

O Palmeiras, investindo pouco mais de R$ 600 milhões no ano, venceu o Grêmio na final da Copa do Brasil 2020, e ganhou não um, mas dois títulos da Libertadores, o de 2020 e o de 2021, em duas finais domésticas, contra Santos e Flamengo respectivamente. Com o bicampeonato, o alviverde da Pompéia se iguala a São Paulo, Santos e Grêmio, todos com três conquistas do principal torneio da América do Sul.

 

O Clube Atlético Mineiro, gastando R$ 522 milhões, ganhou com muita folga o Campeonato Brasileiro de 2021, somando 84 pontos, 73% de aproveitamento e 33 gols de saldo, terminando o torneio com 13 de pontos de vantagem sobre o vice-campeão. O Galo venceu ainda a Copa do Brasil 2021, batendo na final o Athletico-PR, e foi semifinalista da Libertadores. No estadual, o Atlético cumpriu sua obrigação, vencendo o América-MG na final.

 

A partir daqui falaremos de clubes que gastaram menos do que o São Paulo, mas todos, sem exceção, de maneira mais eficiente que o Tricolor.

 

O Corinthians dispendeu em 2021 a soma de R$ 332 milhões com seu futebol, praticamente 20% a menos que o Tricolor. Com campanha muito fraca no Brasileiro 2020, o alvinegro de Parque São Jorge se recuperou bem e terminou o Brasileirão 2021 na quinta colocação, garantindo uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores. O Corinthians parece ter entendido a lição do Cruzeiro, reduziu seus gastos com futebol em 28% comparado a 2020, reverteu um déficit de R$ 123 milhões em 2020 para alcançar um superávit de R$ 6 milhões em 2021, tendo diminuído sua dívida líquida em R$ 37 milhões no ano. A dívida do Corinthians, sem incluir a questão do estádio, ainda está acima dos R$ 900 milhões, mas o clube deu em 2021 os primeiros passos em direção ao equacionamento do problema, atitude que o SPFC se negou a tomar.

 

Um bloco de 4 equipes de médio investimento vem na sequência. Internacional, Fluminense, Santos e Athletico-PR, com gastos entre R$ 230 e R$ 264 milhões em 2021.

 

O Internacional desperdiçou uma chance única de conquistar o Campeonato Brasileiro 2020, título que não conquista desde 1979, ao empatar em 0 x 0 com o Corinthians, no Beira Rio, na última rodada. Já no Brasileiro 2021 teve campanha medíocre, fazendo a mesma pontuação que o São Paulo. O Colorado gastou 36% a menos que o Tricolor, para conquistar 22% a mais de pontos em jogos de campeonato brasileiro no ano 2021.

 

O Fluminense se mostrou o time mais eficiente entre as equipes de médio investimento. Gastou 42% a menos do que o SPFC, para somar 34% mais pontos em 49 rodadas de Brasileiro. Em média, cada ponto do Tricolor das Laranjeiras custou R$ 3 milhões, 57% abaixo do custo médio dos pontos do São Paulo. O time “pó de arroz” conquistou vaga na Libertadores 2021, direto na fase de grupos, e 2022, na fase preliminar.

 

O Santos, gastando 43% a menos que o São Paulo, obteve 12% mais pontos em jogos de campeonato brasileiro em 2021. O “Peixe” disputou, em 30 de janeiro de 2021, a final da Libertadores 2020 contra o Palmeiras, sendo derrotado nos minutos finais, na única chance criada pelo “Porco” no jogo.

 

O Athletico-PR já há algum tempo vem se dedicando às Copas como objetivo principal, uma vez que não dispõe de recursos para enfrentar os times de massa no longo campeonato brasileiro em pontos corridos. Com investimento de R$ 230 milhões, 43% a menos do que o investido pelo SPFC, o “Furacão” ganhou a Sul-Americana 2021, e disputou a final da Copa do Brasil com o Galo. Nos campeonatos brasileiros teve desempenho modesto, mas passando longe de riscos de rebaixamento. O valor médio dispendido pelo Athletico por cada ponto conquistado em jogos de Campeonato Brasileiro foi de aproximadamente R$ 3,5 milhões, metade do que custaram os pontos do Tricolor.

 

Os últimos 4 times apresentaram gastos inferiores a R$ 200 milhões, menos da metade do valor gasto pelo SPFC, com resultados esportivos melhores.

 

O Red Bull Bragantino, clube empresa, mostra como uma gestão profissional, competente, colabora com a eficiência na aplicação dos recursos. Com gasto total de R$ 162 milhões, ou 60% abaixo do gasto do SPFC, o time de Bragança Paulista conquistou 34% mais pontos em 49 jogos pelo Campeonato Brasileiro no período da análise. O custo médio de um ponto ganho pelo Bragantino foi de pouco mais de R$ 2 milhões, equivalente a 30% do custo dos pontos do São Paulo. O “Massa Bruta” terminou o Brasileirão 2021 na 6ª posição, garantindo uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2022.

 

Antes que os defensores incondicionais da S.A.F. digam que a única saída para o SPFC é a venda para um investidor, eu ressalto que, na minha visão, para um clube de grande torcida, um caminho possível a seguir é o do Flamengo, que saneou suas finanças, sem precisar de ajuda externa, para então voltar a investir mais pesado. Eu defendo que, para o Tricolor, antes de se discutir a criação de uma S.A.F., é necessário colocar as contas em ordem. Uma S.A.F. originada em um clube falido terá valor de mercado muito baixo. Uma S.A.F. criada a partir de um clube equilibrado financeiramente, poderá exigir de investidores um valor muito maior para quem quiser participar do negócio.

 

Uma gestão competente trará bons resultados, independente do clube estar organizado como Associação Desportiva ou Empresa, enquanto maus gestores levarão o clube ao fracasso e à falência, mesmo que a forma de organização seja de uma S.A.F.

 

Os rivais cearenses mostram como o crescimento de um adversário tradicional puxa o outro para melhorar junto. Ceará e Fortaleza, que dividem os aficionados do Estado do CE, tem receitas e despesas parecidas, e eficiência elevada no indicador de custo por ponto conquistado. O Fortaleza – gasto total de R$ 107 milhões, equivalente a um quarto do desembolsado pelo São Paulo – se destacou no Campeonato Brasileiro 2021, alcançando o 4º lugar e garantindo a vaga na Libertadores. O “Leão” ganhou ainda seu Estadual, batendo o rival “Vozão”. O Ceará – gasto total de R$ 122 milhões, 70% abaixo do gasto do SPFC – chegou à final da Copa do Nordeste, esteve sempre longe da zona de rebaixamento no Brasileiro, e conquistou 14% mais pontos do que o Tricolor em jogos de campeonato brasileiro no ano de 2021.

 

O Atlético-GO foi um exemplo de eficiência no período compreendido por este estudo. Gastando R$ 81 milhões, equivalente a 20% do investimento do São Paulo, para conquistar 19% a mais de pontos em jogos de campeonato brasileiro da série A. Cada ponto conquistado pelo “Dragão” custou R$ 1,2 milhões, enquanto o SPFC gastou R$ 7,1 milhões por ponto na série A em 2021, seis vezes mais do que o time de Goiás. No Campeonato Brasileiro de 2021 o Atlético-GO esteve sempre classificado na parte de cima da tabela, e terminou o campeonato na 9ª colocação.

 

O São Paulo seguiu em 2021 a receita do fracasso. Trocas constantes de treinador (foram quatro no ano), contratações equivocadas, desequilíbrio salarial, atrasos nos pagamentos e crise de relacionamento interno. Desperdiçamos um título Brasileiro que estava “ganho”, fomos eliminados nas quartas de final da Copa do Brasil pelo Fortaleza, e na mesma fase da Libertadores pelo Palmeiras, e nos dois casos fomos presas fáceis. Nunca estivemos tão ameaçados de rebaixamento como no Brasileirão 2021.

 

Ganhamos o Campeonato Paulista 2021, rebatizado como o “Campeonato Mundial do Estado de São Paulo”.  Sim, ganhamos. Como torcedor eu comemorei e me emocionei com a conquista, e estava no Morumbi apesar de não poder acompanhar de dentro do estádio. Como gestor, ficava claro que a prioridade dada ao torneio poderia nos criar problemas à frente. Enquanto os rivais aproveitaram o período dos Estaduais para dar folgas a seus principais jogadores, já que não tiveram férias, e realizar atividades de pré-temporada, o São Paulo elegeu o Paulista como a prioridade do ano. Ao bater o Palmeiras no Morumbi, usando um meio campo todo formado em Cotia, o São Paulo quebrou um jejum de 9 anos sem títulos, e 16 sem ganhar o Estadual, mas o retorno em imagem, motivação e mesmo financeiro foi muito baixo. O prêmio pago pela Federação Paulista de Futebol pelo título foi de R$ 3,5 milhões, valor reduzido em função de gastos adicionais decorrentes das exigências sanitárias devido à pandemia. Priorizando o Paulista, o Tricolor chegou a escalar reservas em jogo da Libertadores que poderia definir uma melhor classificação para o time. O Campeonato Brasileiro começou 6 dias após a final do Estadual, e o São Paulo iniciou o longo campeonato com alto desgaste de seus principais jogadores, que não tiveram tempo de descansar e se recuperar. O título do Paulista atendeu principalmente ao ego dos dirigentes que, no evento de apresentação da Taça no clube social, bradavam pela reeleição de um presidente que mal havia iniciado o seu mandato.

 

Por que somos tão ineficientes? Porque administramos com as prioridades erradas.

 

Carlos Belmonte, Diretor Institucional de Futebol, cargo que não existe no Estatuto, foi um bom Diretor Geral do Clube Social, e com isso acumulou um capital político que foi essencial para a eleição de Casares. Por isso foi indicado e, até agora, mantido no cargo. Belmonte é um jornalista respeitado, torcedor apaixonado do Tricolor, mas não tem experiência no Futebol Profissional. Parece comandar o futebol do São Paulo tendo por norte a expectativa do torcedor, e não a visão do administrador de entidades esportivas.

 

A prioridade, porém, tem que ser definida pelo nível mais alto da organização. Um observador externo, que não faz parte da administração, viu em 2021 um presidente do São Paulo Futebol Clube mais preocupado com sua imagem pessoal e em viabilizar a tese da reeleição, e não um gestor que busca o equilíbrio e recuperação financeira da entidade.

 

Enquanto priorizarmos o individualismo e a política, em detrimento da visão de competência administrativa e austeridade, continuaremos a gerar déficit, aumentar o endividamento, e aproximar a Entidade de uma situação de insolvência, caso em que uma S.A.F. poderia ser vendida por preço muito baixo. Os verdadeiros torcedores São Paulinos não querem isso.

6 comentários em “Flávio Marques: Gestão Ineficiente do Futebol do SPFC continuou em 2021

  1. Flavio otimo texto, concordo, e como vc escreveu pouco mudou, como diz aquele ditado chulo, “só mudou a mosca o coco é o mesmo”
    E assim vai o nosso grande Sao Paulo so esperando a proxima bomba, a proxima tragedia, que ja esta anunciada.

    • Obrigado Alex.

      A gestão atual é uma continuidade de JJ, CMA e Leco.

      Casares, e alguns de seus apoiadores muito próximos, fizeram parte da gestão de Csrlos Miguel Aidar em 2014/15. Casares participou do Conselho de Administração da gestão Leco de Abril de 2017 a Dezembro de 2020, e aprovou todos os atos da administração.

  2. JJ,Leco e Aidar quase acabaram com o clube,olha esses números e essa dívida,se aqui fosse um país sério esses canalhas ( com excessão ao Juvenal Juvencio que já faleceu) já estariam atrás das grades.

  3. Acordaram ou estãO acordando so agora !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    O menino veio pro teste ou foi indicado por clube do inerior/passou no teste, calca contarto de 5 anos !!!
    E dai se o cara for ruim. Ai dispensa sem direito a nada !!!(por no contrato1º)
    SE FOR BOM DE BOLA E SE TIVER FUTURO FAZ UMA RENOVAÇÃO AUMENTANDO O SALARIO
    E MULTA DE 30/40 MIL EUROS!!!!!!! SO ASSIM NÃO PERDE JOGADORES DE GARÇA !!!
    Vão denunciar de escarvidão ???O salario padrão do sub 20 é muitgo bom e tem todas as regalias!
    ATÉ QUE ENFIM O MURICI FOI AVISADO !!! SE NÃO É O ROGERIO CENE A MERDA CONTINUARIA A MESMA!
    ATENÇÃO não foi merito do Muricy/FOI DO ROGERIO CENE !!!!!!
    ROGERIO CENE DEVE SER O FUTURO PRESIDCENDE !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Obrigado mais uma vez por ter tido o trabalho de dar toda essa informação ao torcedor, Flávio. Os últimos parágrafos estão perfeitos. Casares, sim, é mais preocupado com reeleição e sua imagem. Sei que você é polido e educado.
    Mas muitos de nós torcedores o achamos um pavão. Uma criança de seis anos que quer aparecer em redes sociais. O episódio do Roberto Carlos “photoshopado” foi de uma vergonha alheia absolutamente gigantesca

    • Olá Carlos,
      Os números não mentem, e contradizem aqueles que insistem em querer convencer a torcida que algo mudou para melhor no SPFC.

      Obrigado pelo comentário!

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