Flávio Marques: Adiós 2020 / Bienvenido Hernán Crespo

Nesta coluna mensal aqui no Tricolornaweb, sempre na primeira terça-feira de cada mês, o objetivo é destacar fatos relevantes do mês anterior, e aprofundar a discussão com dados e informações, e um pouco de opinião. Neste mês de fevereiro de 2021 tivemos o encerramento da temporada 2020, estendida devido à pandemia, e a apresentação do novo treinador do São Paulo, o Argentino Hernán Crespo.

Adios 2020

No dia 25/02/2021 tivemos a última rodada do Campeonato Brasileiro 2020. O Tricolor, jogando no Cícero Pompeu de Toledo, apresentou um futebol de muita disciplina tática e garra, marcou forte e venceu o Flamengo, campeão Brasileiro, por 2 x 1, garantindo o quarto lugar no campeonato e a vaga direta para a fase de grupos da Libertadores 2021. O quarto lugar foi a melhor classificação do SPFC no campeonato Brasileiro desde 2014.  Um bom resultado para ser comemorado? Definitivamente não!

A administração Leco, por muitos classificado como o pior presidente da história do São Paulo, entregou o time líder do campeonato com 56 pontos em 27 rodadas, 69% de aproveitamento, sete pontos à frente do segundo colocado, com o melhor ataque e a melhor defesa da competição.

Em 11 rodadas sob nova direção, equivalentes a 29% do total de partidas do campeonato, o São Paulo acumulou 10 pontos, aproveitamento de 30%, tendo desempenho superior apenas ao do Botafogo no período. Sofremos 20 gols, a segunda pior defesa, média de 1,8 gols sofridos por jogo. Não é possível isentar  a gestão Julio Casares de pelo menos boa parcela desse fracasso, seja por ação equivocada ou por omissão.

Ao postergar a demissão de Diniz, optar por terminar a temporada com treinador interino, e não fazer nenhum esforço para manter Brenner – artilheiro do Tricolor na temporada – nas rodadas finais, os dirigentes deram a impressão de que o Campeonato Brasileiro já não era tratado como prioridade no clube.

 

Confrontado com os dados da tabela acima, e as circunstâncias da troca de comando no Tricolor, um experiente dirigente de futebol comentou:

 

“O estado de espírito do ambiente do futebol é  fundamental para a performance do grupo. A eleição e divulgação prévia de mudança  dos atores gerou grande insegurança em todos e isso influiu no estado de espírito do grupo. O ambiente se torna mais pesado e um desconfia do outro. Como um castelo de cartas, ao remover uma carta da base (Raí), as outras  desmoronam. Não  deve ser só  isso, mas esse conjunto tem muito peso. Foi como um elefante entrando em loja de cristais…”

 

O vitorioso dirigente ainda arrematou:

 

“- … brinquei que não  deveriam tirar nem o pó  das mesas até o final do campeonato (risos!). A ansiedade  do protagonismo foi superior ao bom senso”.

Não tenho nada a acrescentar.

  • Bienvenido Hernán Crespo

Em fevereiro foi apresentado e estreou pelo Tricolor o nosso novo técnico, Hernán Crespo.

Gostei do processo seletivo, replicando o procedimento utilizado nas grandes empresas, profissional, modo como o São Paulo Futebol Clube precisa ser administrado. A partir de um perfil definido pela direção, foram selecionados candidatos para várias rodadas de entrevistas e avaliações até que fossem definidos os finalistas e uma oferta feita ao escolhido. Não gostei, porém, das premissas e do resultado a que elas nos levaram.

Ao perceber que os técnicos Europeus contatados, os portugueses Pedro Martins (Olympiacos), Marco Silva (ex-Sporting), Bruno Lage (ex-Benfica) e Vitor Pereira (ex-Porto) entre outros, estavam acima das possibilidades financeiras do SPFC, nossos gestores voltaram o foco para profissionais com histórico recente de sucesso em equipes de segunda ou terceira linha do futebol Sul Americano. Na reta final o preferido era Miguel Ángel Ramírez, ex Independiente del Valle do Equador, mas que já tinha acordo com o Internacional para assumir a equipe após o Brasileiro. Chegou-se então ao nome de Hernán Crespo, que recentemente foi campeão da Copa Sul Americana dirigindo o Defensa Y Justicia da Argentina.

 

Voltando um pouco na história do São Paulo Futebol Clube, vemos que os treinadores que marcaram época no Tricolor tem uma coisa em comum: carreira profissional consolidada antes de chegar ao SPFC. Rubens Minelli chegou ao São Paulo como bicampeão Brasileiro, e ganhou nosso primeiro título nacional em 1977 comandando um time de operários. Telê Santana chegou ao Morumbi após ter dirigido a seleção Brasileira em duas Copas do Mundo, e levou o Tricolor ao nível mais alto do futebol mundial. Muricy Ramalho, cria da casa, saiu do São Paulo para ganhar experiência em times de menor expressão. Retornou em 2006, após ter conquistado 5 campeonatos estaduais consecutivos em cinco anos entre 2001 e 2005, para comandar a histórica campanha do tri/hexa.

Hernán Crespo foi um ótimo atacante da seleção Argentina, disputou três Copas do Mundo (1998, 2002 e 2006), e como jogador defendeu equipes de expressão como River Plate, Internazionale, Milan e Chelsea ao longo de quase 20 anos de carreira. Como treinador, porém, seu currículo é bem menos impressionante.

 

O início da carreira como treinador de um time profissional foi no modesto Modena, equipe da terceira divisão do futebol Italiano, em 2015. Após essa primeira experiência, de apenas 35 jogos com 36% de aproveitamento, Crespo fez uma pausa na carreira de técnico e assumiu uma função de dirigente no Parma. Retomou a carreira de treinador em 2019 no Banfield, tradicional coadjuvante no campeonato Argentino. Foi dispensado após sete meses à frente do time do “El Taladro”, período em que comandou a equipe em 18 jogos com 33% de aproveitamento dos pontos disputados. Contratado pelo Defensa Y Justicia para a temporada 2020, dirigiu o time em 32 partidas, tendo conquistado o primeiro título internacional do clube fundado em 1935.

Resumo da carreira como treinador antes do SPFC: 85 jogos, com 28 vitórias e 36 derrotas, 41% de aproveitamento global dos pontos disputados, comandando times de pouca expressão na Itália e Argentina. Em minha opinião, ao contratar um treinador de pouca experiência profissional, sem resultados de destaque e sem vivência no futebol Brasileiro, o São Paulo Futebol Clube está assumindo um risco excessivo de fracasso num momento em que a paciência da torcida está esgotada.

Em sua entrevista para o Bola da Vez na ESPN, Carlos Belmonte, Diretor de Futebol do São Paulo, reconheceu:

“Nós contratamos o Crespo sabendo que ele ainda é um técnico que está em formação, mas nós vimos nas conversas que tivemos com ele, e com alguns outros técnicos no processo que fizemos, que ele tinha tudo o que nós precisávamos para este momento. Então nós fomos atrás do Crespo.”

Por que não buscamos profissionais mais experientes para assumir o Tricolor neste momento tão crítico? Teríamos menor risco trazendo treinadores com mais vivência e histórico vencedor. Infelizmente vejo como grande a probabilidade de Crespo ter uma passagem relativamente curta pelo São Paulo. Mais uma vez.

A estreia de Crespo no Paulista, empate contra o Botafogo de Ribeirão Preto, não serve como parâmetro, pois não se pode avaliar um técnico com poucos dias no comando da equipe. Precisamos dar tempo para que ele desenvolva seus conceitos. Será que a grande torcida está disposta a esperar?

Ao que tudo indica Muricy Ramalho será o ponto chave para que essa estrutura de comando técnico funcione bem. Voltaremos ao tema nos próximos meses, com uma melhor visão do trabalho desenvolvido.

2 comentários em “Flávio Marques: Adiós 2020 / Bienvenido Hernán Crespo

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