
Figuras centrais nos três inquéritos policiais que apuram escândalos no São Paulo, os ex-dirigentes Julio Casares (presidência), Mara Casares (diretoria feminina) e Antonio Donizete Gonçalves (diretoria social) retiraram do clube, a título de cortesia, 4.743 ingressos para shows no Morumbi entre 2023 e 2025.
Adotando como base os preços dos ingressos em cada evento, a carga total concedida aos ex-dirigentes tem um valor estimado de pelo menos R$ 3,4 milhões. O levantamento detalhado foi fornecido pelo próprio São Paulo à força tarefa que conduz os inquéritos, formada por Ministério Público e Polícia Civil, e é parte das informações que foram solicitadas pelos investigadores junto ao clube e enviadas nas últimas semanas.
Antonio Donizete, conhecido como Dedé, recebeu no período 3.030 ingressos; Mara Casares, 931; da cota de Julio Casares foram retirados 782 ingressos, todos destinados aos seus filhos Julinho Casares e Deborah Casares.
O período abrange shows de 13 artistas, com grandes nomes como Coldplay, Bruno Mars, Oasis e Dua Lipa – alguns fizeram mais de uma apresentação – o que resulta em aproximadamente 365 ingressos destinados às cotas dos três dirigentes para cada artista que se apresentou no estádio do São Paulo.
Os ingressos incluem cadeiras, camarotes particulares, pista premium e pista normal.
Procurado pela coluna, o São Paulo apontou que não existe regra que limite o número de ingressos cortesia destinados a dirigentes, mas ressaltou que a comercialização deles é proibida.
“Não é permitida, em nenhuma hipótese, a comercialização de ingressos de cortesia. Tal proibição encontra-se devidamente registrada em cada ingresso, com a indicação expressa de que sua venda é proibida”.
Os ex-dirigentes confirmam o recebimento dos ingressos, afirmam que é prática é normal para os cargos que ocupam e dizem que nunca realizaram vendas. Os posicionamentos completos estão incluídos no final do texto.
“Por show realizado no estádio do clube, eram disponibilizados aproximadamente 1.500 (mil e quinhentos) ingressos cortesia, sendo que Julio Casares, então presidente, recebia uma porcentagem deste montante, até menor que a de outros diretores”, diz a defesa do ex-presidente. “A defesa de Julio Casares nega veementemente ter vendido qualquer ingresso cortesia que disponibilizou a terceiros e, inclusive, repudia essa prática”.
Antonio Donizete, conhecido como Dedé, também disse que jamais vendeu os ingressos, e que mantinha um controle sobre para quem os destinava.
“Durante toda a minha atuação como diretor, sempre conduzi essa questão com absoluto rigor, transparência e responsabilidade. Todas as cortesias sob minha gestão jamais foram comercializadas. Elas eram destinadas exclusivamente aos associados do clube, dentro de um processo organizado e controlado”, afirmou.
A coluna não teve resposta da defesa de Mara Casares até a publicação da matéria, mas será atualizada caso isso aconteça.
Gestão Massis prepara política restringindo cortesias, que viraram moeda política
Dentro do levantamento geral, há números que chamam a atenção – a diretoria social de Antonio Donizete solicitou, em um só protocolo, 486 ingressos para as apresentações de Bruno Mars em outubro de 2024. Julinho Casares, filho de Julio Casares, recebeu 174 ingressos para os shows da banda Coldplay, em março de 2023.
O contrato do São Paulo com a Live Nation prevê a entrega de 1.100 ingressos gratuitos por show a título de cortesia. A polícia apura nas investigações se houve ou não venda.
Para além da investigação, ingressos para shows se tornaram, há anos, uma valiosa moeda de construção de apoios políticos entre sócios e conselheiros do São Paulo. São cerca de 255 conselheiros, e um número de sócios votantes que oscila entre 1 mil e 3 mil em assembleias gerais.
Com as cotas destinadas apenas aos três dirigentes, seria possível contemplar todo o colégio eleitoral com cortesias, múltiplas vezes.
Pessoas ligadas à gestão do presidente Harry Massis Jr. no São Paulo afirmam que um dos objetivos até o final do ano é elaborar uma política formal de distribuição de cortesias que terá restrições.
Posicionamento completo de Julio Casares
A defesa de Julio Casares, representada pelos advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, esclarece que, antes mesmo de assumir a presidência do SPFC, já era de praxe todos os diretores, conselheiros, coordenadores de grupos políticos, atletas e familiares possuírem quota determinada de ingressos cortesia para os shows que são sediados no Estádio do São Paulo Futebol Clube.
Ademais, registra que, por show realizado no Estádio do clube, eram disponibilizados aproximadamente 1500 (mil e quinhentos) ingressos cortesia, sendo que Julio Casares, então Presidente, recebia uma porcentagem deste montante, até menor que a de outros diretores.
Justamente por esse motivo que Julio Casares disponibilizou os ingressos cortesia que eram parte de sua quota, não só aos seus filhos, como também para fins de relacionamento institucional e comercial, o que é permitido de acordo com a política do clube. Não houve, portanto, prejuízo financeiro ao São Paulo.
Por fim, a defesa de Julio Casares nega veementemente ter vendido qualquer ingresso cortesia que disponibilizou a terceiros e, inclusive, repudia essa prática.
Posicionamento completo de Antonio Donizete Gonçalves, o Dedé
No que diz respeito às cortesias mencionadas, é importante destacar que, durante toda a minha atuação como Diretor Geral do Clube Social do São Paulo
Futebol Clube, sempre conduzi essa questão com absoluto rigor, transparência e responsabilidade.
Todas as cortesias sob minha gestão jamais foram comercializadas. Elas eram destinadas exclusivamente aos associados do clube, dentro de um processo organizado e controlado.
Adotamos um protocolo formal de distribuição, com registro, numeração e identificação dos destinatários, justamente para garantir rastreabilidade e permitir eventual verificação futura em caso de qualquer questionamento.
Esse procedimento foi implementado como medida de controle e proteção institucional, evitando qualquer tipo de desvio ou uso indevido.
Reforço que minha trajetória no clube sempre foi pautada pela seriedade, zelo pelo patrimônio do São Paulo FC e respeito absoluto às normas e à ética.
Permaneço à disposição para quaisquer outros esclarecimentos.
Fonte: Uol
O mais assustador é que “o São Paulo apontou que não existe regra que limite o número de ingressos cortesia destinados a dirigentes”.
Isso é apenas a ponta do iceberg. Considerando as cortesias para todos os dirigentes, os valores totais devem chegar a dezenas de milhões por ano.