As finanças do São Paulo em 2021: endividada, gastadora e ineficiente, nova administração mantém o clube na rota da irresponsabilidade

Julio Casares assumiu a presidência do São Paulo em 1º de janeiro de 2021 com discurso de reconstrução. Não era para menos. A herança deixada por Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, era terrível. Despesas haviam saído do controle, o endividamento tinha chegado ao maior valor da história, sem falar na contestável performance esportiva.

Hoje, após um ano e meio de administração do novo presidente, aparecem os primeiros resultados. O número que costuma chamar a atenção da opinião pública, o resultado contábil, foi péssimo. O São Paulo teve R$ 106 milhões em deficit. Pela primeira vez na história tricolor, houve três prejuízos consecutivos acima dos R$ 100 milhões.

Em entrevista concedida ao ge em março, Casares apresentou duas justificativas para esse número. A primeira, que o deficit havia sido menor do que no ano anterior. A segunda, que o prejuízo ocorreu por causa da decisão da diretoria de não vender direitos de alguns atletas.

– Se nós tivéssemos vendido dois jogadores em dezembro, estaríamos aqui dizendo que teríamos um superavit um pouquinho maior. Mas nós resolvemos assumir um deficit maior neste balanço para que o São Paulo, em 2022, possa caminhar para um resultado final muito melhor.

Para compreender corretamente a situação financeira de um clube de futebol, assim como os impactos das decisões de seus dirigentes, a análise precisa considerar outros indicadores. Prejuízos contam apenas parte da história. Neste texto, o ge visita as demonstrações contábeis mais recentes, referentes a 2021, para preencher essas lacunas.

As finanças do São Paulo — Foto: Infoesporte

Panorama
A visão geral das finanças tricolores mostra um clube em crise. Se Leco já tinha conseguido levar o endividamento tricolor ao patamar mais alto de sua história em 2020, Casares bateu recorde mais uma vez em 2021. O São Paulo se aproximou dos R$ 700 milhões em dívidas.

O faturamento também aumentou, porém a interpretação precisa levar em conta uma particularidade da contabilidade. Valores foram adiados de um balanço para o outro, por causa da pandemia. Algo a ser esclarecido nos próximos parágrafos, bem como a natureza dessa receita.

A relação entre receitas e dívidas do São Paulo

Em R$ milhões Orçado Realizado Diferença
Direitos de transmissão 213 243 30
Marketing e comercial 30 56 27
Bilheterias e estádio 11 13 2
Sócio-torcedor e sociais 29 35 6
Outros 0 8 8
Transferências de jogadores 176 110 -66
Total 459 465 6
Folha salarial do futebol -179 -272 -92
Resultado financeiro -33 -56 -22
Resultado líquido 13 -106 -119

Fonte: Balanços financeiros
Receitas

Nos custos, o ge pinça a folha salarial do futebol, por ser o indicador econômico de maior correlação com a performance esportiva. Um elenco mais qualificado costuma cobrar salários mais altos. Neste item, estão considerados salários, encargos trabalhistas, direitos de imagem, direitos de arena, bonificações e tributos de natureza trabalhista.

A diferença entre projetado e realizado ficou acima dos R$ 90 milhões. A nova diretoria gastou muito mais com essa finalidade do que a administração anterior havia considerado no orçamento.

No resultado financeiro, aparecem itens não esportivos, principalmente juros sobre dívidas e variações cambiais. Não é possível dar mais detalhes, no caso do São Paulo, porque as documentações publicadas não contêm nenhuma explicação sobre a natureza desse registro.

O resultado líquido apresenta o deficit (prejuízo) no exercício – muito pior do que constava no orçamento, que aguardava um superavit (lucro). Esse número não deve ser interpretado sozinho, para concluir se o ano foi positivo ou negativo nas finanças. É a combinação de vários indicadores que deve levar o torcedor e o mercado a uma noção mais precisa.

Dívidas
Mais um sinal de que as contas do São Paulo não fecham aparece no endividamento. Em 2021, o clube viu mais uma vez as suas obrigações baterem recorde – próximas dos R$ 700 milhões.

O detalhamento de acordo com o prazo de vencimento mostra um alívio, pelo menos. Dívidas de curto prazo (que precisam ser pagas em período inferior a um ano) baixaram no último exercício. A entidade entrou em 2022 com R$ 305 milhões a pagar no decorrer do ano.

O valor ainda é mais alto do que deveria, pois se trata de um clube que arrecada na casa dos R$ 400 milhões e opera no vermelho, com custos igualmente altos. Não deixa de ser positivo que as urgências estejam menores, em relação ao que a diretoria passada deixou.

O alongamento das dívidas pode ser percebido em dois itens. Em primeiro lugar, estão os empréstimos com instituições financeiras. O São Paulo é um clube que se apoia fortemente em linhas de financiamento para cobrir os buracos no caixa e fazer seus investimentos.

Somente em 2021, foram obtidos R$ 172 milhões em novos empréstimos, enquanto R$ 123 milhões foram usados para quitar créditos anteriores. Como a diferença entre um e outro é “negativa”, significa que o endividamento da entidade aumentou nesse tipo específico.

Ao negociar esses créditos, a diretoria de Casares conseguiu prazos distantes. O Banco Daycoval topou colocar a data final em março de 2025, enquanto o Bradesco esticou até agosto de 2026.

Uma vez que a maior parte de ambos os empréstimos foi contabilizada no longo prazo, o clube alivia a pressão sobre o caixa de imediato e ganha um respiro durante 2022 e 2023. O problema fica para o sucessor na presidência, que terá de lidar com as obrigações bancárias.

Em segundo lugar, o São Paulo conseguiu em dezembro de 2021 a adesão ao Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), criado pelo governo para socorrer empresas em meio à pandemia. Foram registrados nele R$ 82 milhões em novas dívidas fiscais.

Esses parcelamentos também estão esticados no longo prazo. O clube começou o ano com 59 parcelas a pagar entre obrigações previdenciárias e 144 parcelas nas demais. Além disso, ainda há o pagamento do Profut, outro refinanciamento do governo, no quesito “fiscal”.

Na área trabalhista, o São Paulo está com dificuldades. As linhas “obrigações trabalhistas” (com valores correntes, ou seja, referentes à própria temporada) e “direitos de imagem” estão subindo sem parar há três anos. Isso apesar dos muitos acordos trabalhistas e cíveis feitos nesse mesmo período. O descontrole dos custos aparece nesta área.

Por fim, no gráfico abaixo, estão classificados em “outros” os compromissos com fornecedores, outros clubes e agentes. Em 2021, a direção tricolor conseguiu reduzir um pouco o valor a pagar.

Futuro
Nos últimos anos, o São Paulo criou um padrão em termos financeiros e de administração. O clube já não tem mais o maior faturamento do país, como tinha em meados dos anos 2000, mas continua a gastar como se tivesse. Contas estão no vermelho. Dívidas vão sendo acumuladas.

Alívios que puderam ser notados não são propriamente no ajuste da operação, e sim no adiamento dos problemas. Urgências são resolvidas por meio da tomada de novos créditos, principalmente bancários. Por mais que os prazos sejam alongados, uma hora a conta chega.

A pior parte, para o torcedor e para os dirigentes tricolores, é que esses gastos elevados não foram convertidos em performance esportiva condizente. Não foram com Leco, ainda não são com Julio Casares.

O São Paulo teve em 2021 a quarta maior folha salarial do futebol brasileiro, digna do topo da tabela. Em vez disso, o clube ficou no 13º lugar do Campeonato Brasileiro e não conseguiu sequer a classificação para a Libertadores. Frustrações esportivas e financeiras, pois faltam as premiações em dólares que a Conmebol paga. Também vale para a eliminação precoce na Copa do Brasil, frente às expectativas.

Então, combina-se o que há de pior em cada hipótese. Nem o clube está executando uma gestão austera de seus recursos, para baixar o endividamento e se tornar competitivo no longo prazo, nem consegue os resultados esportivos imediatos, que ajudariam em seu sustento.

O mandato de Casares tem três anos. Ele tomará as decisões até 2023. Na área comercial e de marketing, da qual é oriundo, a rentabilidade do departamento melhorou. O dirigente também está intensamente envolvido na fundação da liga de clubes, que pode destravar receitas e trazer algum dinheiro novo para o caixa são-paulino.

A questão é que o restante do mercado também está agindo. Adversários foram buscar capital no bolso de novos proprietários, porta que a política tricolor não parece querer abrir. A liga beneficiará o país inteiro. E os bons resultados comerciais só são melhores do que o próprio retrospecto; o clube ainda está atrás de seus rivais endinheirados.

Com a quantidade de dinheiro que tem à disposição todo ano, pouco menos de meio bilhão de reais, o São Paulo tem condições de encaixar peças em campo. Talvez até ser campeão, se Rogério Ceni tiver sucesso.

Porém, se quiser de fato reconstruir o clube – destruído pelo antecessor –, Casares precisará romper com os vícios que comprometem um futuro sustentável e vencedor. Gastar menos, pagar dívidas, buscar soluções para o longo prazo. Após seu primeiro ano de gestão, ainda não há sinais de que o novo presidente seja diferente dos que vieram antes dele.

Fonte: Globo Esporte

Nota do PP: essa análise feita pelo Globo Esporte vocês já sabiam. O Flávio Marques fez diversas publicações no Tricolornaweb analisando esses pontos.

Se quiserem checar, basta clicar nos links abaixo:

Flávio Marques: O Endividamento do SPFC em 2021

Flávio Marques: O Resultado Financeiro do SPFC em

2021

Flávio Marques: Gestão Ineficiente do Futebol do SPFC

continuou em 2021

Flávio Marques: Receitas do São Paulo em 2021 –

Estudo Comparativo

4 comentários em “As finanças do São Paulo em 2021: endividada, gastadora e ineficiente, nova administração mantém o clube na rota da irresponsabilidade

  1. É assustador que um clube tenha uma dívida que é o dobro do que consegue faturar. Já virou uma bola de neve impossível de ser administrada. Só um fator externo novo – virar SA, um mecenas, vários mecenas, a venda do Morumbi – pode reverter esse cenário. A gestão Casares, mais da mesma pequenez humana que é esse clube, já provou que não é capaz de virar o jogo. Nem falo da politicagem rasteira e da presença de gente suspeita na direção. Mesmo o que parece acerto, como a gestão austera da folha de pagamentos, demonstra ser pouco para melhorar o cenário. Economizou-se na folha? Ótimo. Mas a forma de pagar a dívida foi pegar dívida nova e maior, o que zera todo o esforço de redução da folha. Na melhor das hipóteses, enxugamos gelo.

  2. Novidade nenhuma nisso tudo e por isso que o São Paulo não ganha nada grande a muitos anos, e TB como confiar em uma gestão que fez a caga…de contratar Daniel Alves para puro marketing pq futebol mesmo nada acrescentou, e ainda ele sai do clube com um salário milionário não precisa nem jogar, é muita incompetência, agora vai vender o Rigoni por valor menor que pagou sem ganhar nada, por tudo isso deveria acontecer impeachment já deveria acontecer a muito tempo.

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