Zetti comemora 20 anos do título da Libertadores no gol onde fez história

Uma defesa que mudou a história de um clube. No dia 17 de junho de 1992, a grande área do lado do portão principal do Morumbi foi palco do lance que iniciou a transformação do São Paulo em soberano. O zagueiro argentino Gamboa, do Newell’s Old Boys, bateu o pênalti à meia altura, no canto esquerdo de Zetti, que voou para espalmar e iniciar o capítulo mais glorioso da história do Tricolor.

Neste domingo, o primeiro título da Libertadores completa 20 anos. Conquista que não só elevou a equipe a um patamar internacional, mas também mudou a forma como a competição passou a ser encarada no futebol brasileiro. O próprio São Paulo, naquele ano, iniciou o torneio com time reserva para priorizar o Campeonato Brasileiro. A Libertadores levava pouco público ao Morumbi. Terminou com 105 mil pessoas eufóricas no estádio.

Para falar dos 20 anos da conquista histórica, o GLOBOESPORTE.COM levou Zetti de volta ao gol em que marcou época. E o reencontro do jogador com seu território fez sua memória reviver. Ele revelou detalhes e histórias saborosas da campanha tricolor e assegurou que sua defesa no pênalti de Gamboa é a mais importante da história do São Paulo.

– Não tem jeito, foi o primeiro título da Libertadores e levou a todas essas estrelas que temos hoje. Não é a mais difícil, fazemos várias defesas difíceis, mas, de importância, é a maior da minha carreira e da história do clube.

Uma defesa tão importante que Zetti considera ter sido feita a seis mãos. Na semifinal, o Newell’s havia eliminado o America de Cáli (COL) também nos pênaltis, em incríveis 11 a 10. Todos os jogadores cobraram. Bom para o preparador de goleiros do São Paulo, Valdir Joaquim de Moraes, que viajara a pedido do técnico Telê Santana para acompanhar o duelo que decidiria o rival do São Paulo.

Ele voltou com anotações valiosas. Depois de perder por 1 a 0 em Rosário, cidade do Newell’s, os brasileiros se prepararam para decidir o título nos pênaltis. Os cantos escolhidos pelos rivais foram indicados por Valdir de Moraes num pedaço de papel, que ficou nas mãos do goleiro reserva Alexandre, falecido num acidente de carro um mês após a final. No tempo normal, Raí, também de pênalti, fez o gol da vitória e igualou o resultado.

Na hora das cobranças, enquanto todo o time ficou perfilado, Alexandre se isolou dos demais no meio de campo para que Zetti pudesse enxergá-lo. Era ele quem orientava para que canto o titular deveria pular.

– No primeiro eu me desconcentrei. Sempre ficava parado no gol e esperava a iniciativa do batedor, mas saí antes. O Valdir estava atrás do gol e me deu uma dura. Depois passei a confiar no que estava no papel, fiz o que era determinado pelo Alexandre, com gestos. Não errei mais nenhum canto. Um foi para fora, outro na trave e o do Gamboa eu peguei.

Zetti não teve nem cinco segundos para comemorar sozinho. O primeiro a pular em seus ombros foi o atacante Muller, que havia sido substituído por Macedo no segundo tempo e viu a disputa de trás do gol. Depois, a multidão que ocupava o anel inferior do Morumbi. Cerca de 20 mil pessoas invadiram o gramado, e Zetti passou a ser passageiro da emoção da torcida.

– Alguém me colocou nos ombros e eu não ia mais para onde queria. Não tinha ação. Perdi camisa, meia, chuteira… Fiquei só de sunga. Só fui pegar a medalha no vestiário, não vi a comemoração no campo. São imagens marcantes de uma história que eu nem imaginava contar 20 anos depois – relembrou o antigo camisa 1.

Ônibus atrasado e cavalo de pau no avião

A defesa no chute de Gamboa é a consagração de uma trajetória marcada por desconfiança e histórias bem curiosas. Em 1992, o Campeonato Brasileiro foi disputado no primeiro semestre e o São Paulo começou a Libertadores com seu time reserva derrotado por 3 a 0 pelo Criciúma, que havia vencido a Copa do Brasil em 91. Naquela época, o torneio sul-americano tinha times dos mesmos países agrupados na primeira fase. Os brasileiros dividiam o Grupo 2 com os bolivianos San Jose (de Oruro, 3.700 metros de altitide) e Bolívar (da capital La Paz, 3.650m).

Jogar na altitude representava um temor acentuado. Assim que os adversários foram definidos, o preparador físico Moraci Sant’Anna e o fisiologista Turíbio Leite de Barros iniciaram um trabalho com os atletas. Eles corriam na esteira com máscara de oxigênio, e menos ar entrando no organismo. Concluiu-se que o melhor seria chegar ao local 21 dias antes ou então o mais perto possível da partida. Com o calendário apertado, o São Paulo foi para o estádio em cima da hora.

Para desembarcar em Oruro, a delegação ficou em Santa Cruz de la Sierra, que fica a 400 metros acima nível do mar, de onde fretou um avião do exército boliviano, já que grandes aeronaves não faziam o trajeto.

– Era um avião velho, turbo hélice. A cadeira presa por um parafuso, não era muito seguro (risos). Teve gente que passou mal. Quando começamos a avistar a cidade, a montanha estava muito perto e o avião pousou num terreno de cascalho. Quando a rodinha tocou o chão, não se enxergava mais nada, subiu uma nuvem de poeira. Ele ficou meio de lado, deu quase um cavalo de pau. Isso tudo uma hora antes do jogo. Foi uma aventura – contou Zetti.

Na chegada ao vestiário havia 11 balões de oxigênio à espera dos jogadores. Mesmo assim, Macedo passou mal e quase desmaiou quando entrou em campo. Palhinha superou a falta de ar, fez três gols e garantiu a vitória por 3 a 0.

Em La Paz, o trânsito foi o maior inimigo. Quando faltavam dez minutos para começar o jogo, os jogadores estavam parados numa avenida próxima ao estádio e, sem celular na época, não tinham como avisar a Conmebol.

– O Moraci e o Jairo, roupeiro, desceram no meio do trânsito para pegar os calções, chuteiras, meiões… E nos trocamos dentro do ônibus. Descemos prontos, atrasados, tomamos água, não deu tempo nem de fazer oração.

O Bolívar abriu o placar, mas Raí empatou de falta no fim do jogo. Uma das partidas mais difíceis da campanha junto com a derrota por 2 a 0 para o Barcelona (EQU) na semifinal. O Tricolor havia vencido por 3 a 0 no Morumbi e avançou. Para Zetti, esse duelo fez os jogadores acenderem de vez para a chance de conquistar o continente.

– A Libertadores, para mim, vem logo depois da Copa do Mundo. É muito difícil, não tem favorito, é preciso ter raça e vontade antes de tudo. Acho que nasci na hora certa e cheguei ao São Paulo na hora certa. Nosso grupo era fantástico.

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