Investigada por envolvimento em um esquema de exploração clandestina de camarote do MorumBis, Rita de Cássia Adriana Prado falava muitas vezes em nome de Mara Casares e fechava parcerias e contratos para levar empresas para dentro do estádio e do clube social do São Paulo. A defesa de Adriana nega irregularidades.
Em 2024, Adriana colocou uma hamburgueria na festa junina do São Paulo em junho e julho daquele ano. A reportagem teve acesso ao contrato de prestação de serviços firmado entre a empresa da intermediária, a The Guardians Entretenimento, e a Burguer X Comercio e Bebidas.
No acordo, é definido um pagamento total de R$ 18 mil – R$ 14 mil para Adriana e R$ 4 mil que seriam destinados, segundo o documento, à empresa FGoal, responsável pelo evento.
O contrato foi assinado no dia 26 de junho de 2024 e a festa junina do São Paulo ocorreu em 28, 29 e 30 de junho, e 5, 6 e 7 de julho. No dia 3 de julho, Adriana decidiu devolver os R$ 14 mil a Gabriela Ziegelmann, dona da hamburgueria. O advogado de Adriana enviou à reportagem um comprovante para mostrar que o valor foi devolvido integralmente.
Gabriela contou ao Estadão que Adriana só devolveu o valor porque entrou em contato com a organizadora do evento, que teria informado que encerraria os trabalhos com a intermediária. “Caí numa furada grande com ela, me gerou um estresse e desespero bem grandes. Entendo que ela agiu de má-fé”, afirmou a sócia da hamburgueria.
O advogado de Adriana alegou que o contrato foi desfeito pela The Guardians “por não terem sido aceitas as exigências da parte”. Questionado, não soube explicar quais seriam essas exigências e insinuou que a reportagem teria o “aparente objetivo de intimidar os envolvidos e obter algum tipo de vantagem”.
“A pessoa queria que montassem a estrutura dela sem custo ou algo assim. E condicionou uma restituição caso não vendesse um determinado número de lanches”, especulou a defesa da intermediária.
Em contato com a reportagem, Flávio Franco Duarte, dono da FGoal, empresa que organizou o evento, diz que o contrato foi firmado sem a sua anuência. O empresário disse que os R$ 4 mil, na verdade, eram referentes à estrutura do evento (octanorm, hidráulica, elétrica e cenografia).e foram destinados aos fornecedores.
Segundo Duarte, a sócia da hamburgueria que fechou contrato com Adriana foi enganada porque pagou um valor que não era devido pela intermediação do acordo.
“Quando tomamos conhecimento de que a Adriana havia comercializado o espaço, minha gerente entrou em contato com ela imediatamente e solicitou que fosse realizada a devolução do valor à Gabriela. Ressaltamos que a Fgoal não teve participação nem conhecimento prévio desse contrato”, diz a FGoal.
Parcerias e patrocínios em camarotes
Adriana atuava ao lado de Mara Casares, ex-mulher de Júlio Casares, para conseguir patrocínios e parcerias comerciais com diferentes empresas em camarotes do estádio.
Registros nas redes sociais e relatos de pessoas que conviveram com Adriana indicam que a intermediária fazia parceria com empresas de segmentos diversos para grandes eventos no Morumbi, como as apresentações de Shakira e Bruno Mars.
Adriana e Mara eram muito próximas, e a parceria não se limitava ao camarote 3A, cujos ingressos para show da Shakira foram vendidos de forma ilegal, segundo revelou um áudio publicado pelo ge em dezembro.
A ex-mulher de Júlio Casares era responsável pela diretoria feminina, cultural e de eventos do São Paulo. Os perfis dela e de Adriana são marcados, por exemplo, em uma publicação no Instagram do palestrante Marcello Cotrim, convidado para palestrar no clube, como forma de agradecer o convite.
Adriana não tem cargo no São Paulo nem no Morumbi, mas atua há alguns anos no estádio e captou patrocínios para alguns dos mais importantes shows de artistas internacionais nos últimos anos, incluindo Coldplay, Imagine Dragons, Oasis e Dua Lipa.
Empresas que a intermediária levou para camarotes durante eventos citaram Adriana em publicações nas redes sociais. É o caso, por exemplo, de uma loja de roupa feminina presente no camarote Stadium durante o show da cantora colombiana Shakira.
Uma outra empresa de estética e terapias alternativas também menciona Adriana. A empresa teve um espaço de massagem dentro do camarote Stadium na noite da apresentação de Shakira.
Os responsáveis pelo Stadium disseram que a relação com Adriana sempre foi “pontual e lícita”, “tendo por escopo o agenciamento de marcas, acordos de permuta (troca de serviço pela exposição de marca sem remuneração financeira) e patrocínios em alguns eventos realizados no camarote”.
Também declaram que “nunca houve nenhuma irregularidade ou fato que despertasse suspeita ou dúvidas sobre a sua conduta”.
Em 2024, Adriana patrocinou a caminhada de inverno. Seu nome – Adriana Prado Intermediações Artísticas – foi estampado na camiseta produzida para o evento junto de outros patrocinadores.
Na mira da Polícia
Em dezembro, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) passou a investigar a exploração ilegal de um camarote no MorumBis. O espaço no estádio do São Paulo não era comercializado oficialmente, mas teve o uso cedido a Adriana, que cobrou judicialmente por valores não repassados por terceiros e fez o caso se tornar público.
Um áudio revela Mara Casares e Douglas Schwartzmann, então diretores do São Paulo, pressionando Adriana, que vendia os ingressos do espaço, para que ela encerrasse a cobrança judicial a uma terceira pessoa que também participou do suposto esquema.
O escândalo, somado à outra investigação da Polícia Civil, que apura um suposto esquema de desvio de verba no São Paulo, resultou no afastamento de Casares da presidência após o Conselho Deliberativo aprovar o impeachment do mandatário. Na quarta-feira, ele decidiu renunciar à presidência.
Na última quarta-feira, 21, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Mara, Adriana e também a Douglas Schwartzmann. Ele está fora do País.
Os policiais encontraram na casa de Adriana um caderno com anotações sobre o suposto esquema de exploração ilegal de um camarote do MorumBis consideradas importantes para o desenrolar das investigações.
A defesa de Mara afirma que ela mantém postura irrestrita de colaboração com as autoridades e que a lisura de seus atos será comprovada.
A defesa de Adriana diz que ela “nunca praticou qualquer ato ilícito e que sempre trabalhou pautada na ética, lisura e honestidade, o que será devidamente demonstrado ao final da investigação”.
Fonte: O Estado de São Paul