Kalil promete São Paulo aberto e dispara contra Juvenal: ‘Rei do mundo’

O São Paulo é um reinado ao qual apenas o rei Juvenal Juvêncio e poucos asseclas têm acesso. Essa é a visão de Kalil Rocha Abdalla, candidato da oposição à presidência do clube. Diretor jurídico tanto em grande parte da gestão de Juvenal como também na de Carlos Miguel Aidar, presidente nos anos 80 e seu adversário na eleição de abril, Kalil não se conforma com a forma como o Tricolor é administrado.

Ele lidera um grupo formado, em sua maioria, por dissidentes da situação. O mais famoso deles é Marco Aurélio Cunha, que deverá liderar o futebol caso a oposição seja conduzida ao poder. Kalil já entregou o cargo a ele em lançamento da campanha, no ano passado. Na entrevista ao GloboEsporte.com, porém, não confirmou. Disse que é uma tendência.

Kalil Rocha Abdalla candidato da oposição à presidência do São Paulo (Foto: Alexandre Lozetti)Kalil Rocha Abdalla, candidato da oposição à presidência do São Paulo (Foto: Alexandre Lozetti)

 

“Seriedade, transparência e descentralização” são as palavras escolhidas pelo candidato para definir sua possível gestão. Transparência é o que ele mais cobra no assunto que, atualmente, causa maior polêmica no São Paulo: a reforma do Morumbi.

Após não ter obtido quórum de 75% dos conselheiros em reunião no mês passado, a diretoria colocou o contrato à disposição para que uma comissão da oposição analise. O documento ficará por duas semanas, até o dia 30 de janeiro, à espera de consultas num escritório de advocacia. Uma das regras é que ele não pode ser retirado e levado para casa. Kalil não gostou.

E gosta menos ainda da possibilidade de mudança do estatuto, que deverá ser tentada caso não haja quórum novamente, para reduzir o número mínimo de conselheiros necessários à votação para 50%.

– É vergonhoso, mais um casuísmo do seu Juvenal. Ele faz o que quer, é o rei absoluto do mundo?

Nessa entrevista, Kalil revela que não pretende nem opinar nas decisões do departamento de futebol, quer um técnico consagrado em Cotia para aumentar o número de jogadores revelados e diz que precisa saber qual a situação financeira do clube antes de falar em contratar reforços. Além de fazer surpreendentes elogios ao Morumbi, até porque sua chapa já apresentou uma plataforma com diversas sugestões de modernização do estádio.

– Para mim, só precisa da cobertura e da arena. O restante está muito bom.

Como analisa a movimentação do futebol do São Paulo do ano passado para este, com apenas dois reforços depois de uma temporada muito ruim?
Não conheço a situação financeira do clube, não sei se há condições de fazer aquisições. Não sei o que aconteceu com o Lúcio, com aqueles sete dispensados (após a Libertadores do ano passado, o São Paulo anunciou o afastamento de Cortez, Fabrício, Wallyson, Cañete, João Filipe, Luiz Eduardo e Henrique Miranda). Ninguém sabe o que se passa dentro do São Paulo, não temos acesso a nada. Na minha gestão será aberto, haverá comunicação de tudo que se passa. Os responsáveis por seus setores vão prestar contas ao associado e à imprensa.

 

propostas Kalil Rocha Abdalla candidato da oposição à presidência do São Paulo (Foto: Reprodução)Propostas de Kalil Rocha Abdalla para o estádio do Morumbi (Foto: Reprodução)

O São Paulo contratou mal nos últimos anos, não acha?
Vejo uma indefinição se o Cortez volta ou não. O Cañete foi para a Portuguesa com o São Paulo sustentando metade de seu salário. Outro dia li que foi o melhor da equipe reserva. Então por que foi embora? Não prestava e agora se destaca? O que aconteceu com o Osvaldo? Não dá para entender o que aconteceu com o Luis Fabiano, ele não corria mais. Não sei se brigou com o técnico, com outros jogadores. Não sei o que se passa, cabe a quem está lá explicar.

Quando muitos jogadores pioram seus rendimentos ao mesmo tempo, também é possível detectar um problema de gestão?
Pode ser. Não convivo lá, mas alguma coisa está acontecendo. Estou fora do São Paulo desde o dia em que o Juvenal me destratou no vestiário. Desde então só assisto aos jogos na tribuna dos conselheiros.

De que forma o senhor espera que o futebol seja gerido em sua gestão?
Quem vai coordenar será o vice e o diretor de futebol. Você precisa entender que a administração do clube não será feita pelo presidente, e sim por cada diretor.

 

propostas Kalil Rocha Abdalla candidato da oposição à presidência do São Paulo (Foto: Reprodução)Propostas de Kalil Rocha Abdalla para a área social do São Paulo (Foto: Reprodução)

Mas não pretende opinar, não dará a palavra final? A descentralização chegará a esse ponto?
Não pretendo ter ingerência no futebol. Não vou opinar. Quero saber, mas quem decidirá tudo será a comissão técnica, o diretor, a equipe que compõe o departamento de futebol. Eles vão se reportar a mim, mas vão resolver o problema.

Na última entrevista que fizemos, o senhor disse que tinha um nome que causaria frisson para ser seu supervisor remunerado do futebol. A ideia está mantida?
Está mantida, mas ele vai trabalhar num departamento com diretor, vice-presidente e toda uma comissão técnica. Todos têm de estar juntos.

 

Kalil e Marco Aurélio Cunha vão se unir contra Juvenal Juvêncio na eleição (Foto: Site Oficial/saopaulofc.net)Kalil e Marco Aurélio Cunha são da
mesma chapa (Foto: Site Oficial/saopaulofc.net)

E esse vice-presidente será o Marco Aurélio Cunha, como o senhor disse no lançamento da campanha?
Eu não disse. O Marco tem grande chance, me ajuda, trabalhamos juntos, gosto muito dele. Mas não tenho cargo prometido a ninguém. Não vendo cargo para receber apoio, e a cada dia vem gente do outro lado para o nosso. Ninguém está sendo comprado, vêm porque acreditam.

Quem migra chega à oposição com que discurso?
De que estão cansados do Juvenal. Estão vendo as coisas. Nesse dia da reunião ele não conseguiu reunir 170 conselheiros, agora quer baixar o quórum? Ele faz o que quiser, é o senhor absoluto do mundo?

Essa mudança de lado lhe deixa mais confiante na vitória?
Tenho certeza absoluta da eleição. Dos 155 vitalícios, já que cinco morreram, aponto 80 nomes que me apoiam. Cerca de cinquenta são dele e o restante são os paraquedistas que ficam no ar para cair do lado que está ganhando. A outra parte do Conselho é formada por 80 que serão eleitos. Hoje o Juvenal tem maioria esmagadora, mas vamos trocar isso na eleição na primeira quinzena de abril. A maioria será nossa. O descontentamento no clube é muito grande.

 

Kalil Rocha Abdalla candidato da oposição à presidência do São Paulo (Foto: Alexandre Lozetti)Kalil Rocha Abdalla fala sobre propostas
para o São Paulo (Foto: Alexandre Lozetti)

Então o sucesso de sua administração vai passar muito por escolhas certas para suas diretorias? Haverá pessoas remuneradas?
Exatamente. Há uma série de diretorias, a financeira e a jurídica são muito importantes. Não vou contratar advogados de fora. Nem todos serão remunerados, mas no futebol acho importante haver alguém de fora.

Pretende criar alguma nova diretoria?
Não. Talvez, faça alguma adaptação, subdividir alguma, mas, em geral, tenho impressão que não. Só não vou pegar gente da situação. Serão pessoas que estão trabalhando comigo.

O Aidar diz que adotará uma postura ousada no mercado de jogadores. Como pretende agir?
Só poderei contratar se tiver dinheiro. Consta que há um passivo no banco em torno de R$ 70 milhões. Isso mesmo com o dinheiro da venda do Lucas. Se for isso, a dívida do São Paulo seria trágica.

O senhor parece preparado para assumir um São Paulo numa condição bem ruim.
Acho que sim. Já peguei a Santa Casa, onde sou provedor, em situação pior e consegui melhorar bastante. Aparentemente, a situação do São Paulo não é boa. Mas não vivo o dia a dia.

O que pensa de Cotia?
Uma maravilha, um espetáculo, mas mal administrado. Não sai nada de lá, não vejo aproveitamento. Hoje há dois garotos que estão bem, mas daqui a alguns anos podem não estar jogando nada. Isso tem sido constante. Precisa ser dirigido por um diretor que faça funcionar e é essencial ter um técnico de renome. Vou observar algum nome de peso na praça que esteja disponível a partir de abril.

Quer técnicos consagrados na base, então?
Acho importantíssimo, desde que tenha um casamento com o Muricy. Isso se o Muricy continuar como técnico porque futebol é questão de vitórias. Se ele apanhar de janeiro a maio, é capaz de não estar mais lá. Gosto muito dele, acho um técnico de primeira. Quero um casamento entre ele, o técnico da base, um supervisor profissional… Vamos formar um departamento de futebol com vice-presidente e diretor. Será uma família que vai funcionar.

O Hélio Rubens, técnico de basquete, disse que o senhor o convidou para assumir um cargo em sua diretoria. Que cargo seria esse?
Conversei com o Hélio porque minha família é de Franca (cidade do interior de São Paulo). Nós nos encontramos e conversamos, mas não posso contratá-lo, nem sei se vou ganhar a eleição.

Mas gostaria de tê-lo no clube? Em que função?
É um nome razoável, de respeito. Vou verificar.

Isso faz parte de seu plano de turbinar os esportes olímpicos no São Paulo?
Eu gostaria se fosse possível, mas não sei o custo. Se não for muito caro, voltarei com todos os esportes olímpicos.

A oposição conseguiu impedir a votação da aprovação do contrato de reforma do Morumbi. Isso fortaleceu a chapa?
Aquilo ficou muito pesado pro Juvenal. Ele disse que havia 130 pessoas dele dentro da sala, mas pelo menos dez eram nossos. Houve gente que entrou para criar alguma dificuldade. Ele não atingiu o quórum que precisava e, agora, vergonhosamente, sentindo que não vai conseguir, quer mudar o estatuto mais uma vez. É uma coisa vergonhosa, não tem cabimento. Para garantir a reforma precisa de 177 assinaturas, mas para modificar o estatuto só de 120. Isso é um casuísmo próprio do seu Juvenal.

Se o São Paulo partir para a mudança do estatuto, qual será sua posição?
Contrária, não aceito em hipótese alguma. É outro casuísmo, outra vergonha. O São Paulo está desmoralizado por causa da reforma que proporcionou o terceiro mandato. Espero que os que foram contra, como o Leco (vice-presidente do São Paulo), que foi preterido na eleição pelo Juvenal, venham para o nosso lado.

Mas agora o contrato está à disposição da oposição, certo?
Para mim isso tudo é uma pantomima. Eu tenho direito de examinar o contrato. Eles querem que eu seja avalista de uma nota promissória. Assino que devo cinquenta mil, mas não sei se vou dever cinquenta, cem ou mil. Eles dizem que estão à disposição para esclarecerem dúvidas. Como vou ter dúvidas se não tenho o contrato na mão?

São Paulo x Corinthians Morumbi (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)Reforma do Morumbi é tema de discussão entre oposição e situação (Foto: Marcos Ribolli / Globoesporte.com)

 

A maior reclamação da oposição é a falta de transparência ao fazer o contrato?
Esse contrato foi feito durante dois anos e meio, e jamais passou na minha mão ou na do departamento jurídico. Isso foi coisa do Juvenal com o assessor que ele arrumou para cuidar disso. Pago a que custo, eu não sei. O jurídico tinha plenas condições de analisar isso sem custo algum para o São Paulo. Em 12 anos, nunca recebi nada. Tínhamos um departamento com quatro ou cinco advogados remunerados com uma quantia normal, e não recebendo 200 ou 300 mil. Essa fatura dos assessores contratados não passou por nós, sempre foi coisa do Juvenal.

O senhor era contra o serviço de advogados terceirizados quando ocupava o cargo de diretor jurídico do clube?
O Carlos Miguel (Aidar, candidato da situação), por exemplo, virou advogado do São Paulo para propor a ação do terceiro mandato do Juvenal. Ele foi regiamente remunerado, o escritório dele estava recebendo. Não sei a que custo, mas se o Juvenal queria o terceiro mandato, deveria ter pagado do bolso dele. Essas coisas é que foram importunando.

Mas, voltando a falar do estádio…
Ninguém da oposição é contra o estádio. Isso precisa ficar bem claro. Só queremos saber como e o quê está sendo feito. Tenho exemplo do Palmeiras. Se quiserem, ponho um monte de gente do Palmeiras para contar o que está acontecendo lá. Eles tiveram problemas por um contrato que prevê exploração por muitos anos. E o Engenhão? Quanto tempo vai ficar fechado por uma obra malfeita?

Essa medida de colocar o contrato à disposição, então, não é suficiente?
São mil e não sei quantas cláusulas. Tenho de verificar tudo isso em meia hora? Você teria condições de verificar mil e tantas cláusulas? Tenho de levar para casa, estudar, verificar… Não dá para ler correndo.

Mas o que tanto assusta no contrato?
Não sei o que tem lá dentro, o que estão fazendo. No estádio do Palmeiras foram feitas loucuras, o Morumbi pode estar indo pelo mesmo caminho. Aquela garagem que está no projeto não existe. Não tem planta, nada. Falam em acabar com as quadras de tênis, de areia, a portaria. Não concordo com isso em hipótese alguma. Vão destruir grande parte daquela coisa.

E o que faria para corrigir a deficiência de estacionamento?
Já dei uma sugestão: fazer uma garagem subterrânea embaixo do campo de futebol social. Dá para fazer dois campos em cima. Aquela garagem eu não aceito em hipótese alguma. Não tem planta, aprovação, pedido de alvará. Vão dar entrada na prefeitura só no prazo para captação de recursos? O clube tem uma parte tombada, talvez isso nem seja permitido, não passe pelos órgãos de patrimônio.

Kalil Rocha Abdalla Candidato presidente sao paulo (Foto: Alexandre Lozetti)Kalil Rocha Abdalla posa ao lado de faixas de
campeão do Tricolor (Foto: Alexandre Lozetti)

O Aidar diz que se essa reforma não for aprovada, o Morumbi corre o risco de virar o Canindé…
Problema dele, não meu. Eu não aceito, não concordo. O estádio está bonito, só falta a cobertura. Para que, então, esse trabalho todo desenvolvido lá? Desde a época do Fernando Casal de Rey, quando foram feitos pilares de sustentação porque o estádio tremia. O Juvenal acabou de trocar as cadeiras, o piso do térreo está muito bom, cheio de lojas, tudo em ordem. Só precisa da cobertura. O estádio perdeu a Copa porque o seu Juvenal Juvêncio achou que era amigo do Lula, mas o Lula era mais amigo do Andrés (Sanchez, ex-presidente do Corinthians) e resolveu ajudar e fazer o estádio do Corinthians.

O senhor diz que o estádio só precisa da cobertura, mas sua plataforma sugere uma série de melhorias em áreas como camarotes, bilheterias…
Não, na minha plataforma eu não falo em bilheteria. Estamos aproveitando as obras programadas, como a cobertura e a arena. Com isso eu concordo. Eu sou contra, por exemplo, a ideia de dar 5% dos ingressos ao time adversário. Acho que o estádio deve ser dividido, desde que seja recíproco. Já sugeri que o time vencedor fique com 60% da renda e o perdedor com 40%. Reclamei numa reunião de diretoria que os banheiros estavam uma pocilga, uma vergonha. Aí o seu Juvenal reformou. Estão bons agora. Querem mexer mais em quê? Há todas aquelas lojas embaixo… Não falta nada, não há problema algum.

Sua chapa também apresentou planos para a área social.
A área social está muito boa. Falta a garagem, que idealizei em outro lugar. Dizem que os sócios achariam ruim ter o campo interditado por algum período, mas eu os levaria para jogar em Cotia, o que não é permitido hoje. Ou melhor, é permitido a algumas panelas.

Então, transformaria Cotia numa extensão da área social?
Não uma extensão, a finalidade é formar atletas. Mas, temporariamente, destinaria um ou dois campos para aquele pessoal que joga futebol no clube. Farei uma concorrência para a obra da garagem, mas já conversei com algumas construtoras e dizem que em seis meses devolveriam a área para ser utilizada.

Se o senhor aponta qualidades no estádio e na área social, o descontentamento se restringe ao futebol?
O descontentamento é geral porque aquilo se esgotou. Tem de haver rotatividade e o Juvenal virou dono do clube. Até o Carlos Miguel está procurando se esquivar da situação porque o Juvenal, hoje, não é bem quisto no clube. Há muita gente que tem um medo danado dele e vai pular fora do barco quando sentir que o negócio está virado.

O Bom Senso é algo que lhe interessa? Pretende atuar em conjunto?
Não tenho nada com isso, eles que decidam o que quiserem. Cada setor faz sua reivindicação. Só se eu fizer um movimento de clubes. Aliás, o São Paulo peca há anos por não ter bom diálogo com os presidentes dos clubes. Não sou inimigo de ninguém, temos de engrandecer o futebol que é a alma viva do clube. O Marco Polo (Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol e vice da CBF) era advogado do Palmeiras quando eu era juiz do TJD (Tribunal de Justiça Desportiva). O José Maria Marin (presidente da CBF) se tornou meu amigo quando viajou conosco para vendermos o Careca para a Itália.

Que palavras definiriam sua gestão no São Paulo?
Seriedade, transparência e descentralização.

E que nota daria para a gestão do Juvenal?
Não tem. Fiz parte da diretoria dele, ficaria muito mal eu dar nota. Sou contra o centralismo. Ele não tem diálogo, é o rei, ele que manda.

Fonte: Globo Esporte

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