Após intimações e processo, Fabrício adota fase mais light no São Paulo

O volante Fabrício é um dos poucos no futebol atual que ainda fala o que pensa. Vários vídeos nos quais ele, ainda vestindo a camisa do Cruzeiro, ironiza a possibilidade de o então flamenguista Ronaldinho Gaúcho ser suspenso pelo STJD, fazem sucesso no Youtube, com mais de 200 mil visualizações. Agora no São Paulo, ele admite que às vezes se arrepende de ser tão sincero na carreira e que já sofreu intimidações e até processo por isso, o que fez com que adotasse um estilo mais light.

Fabrício atendeu ao UOL Esporte por 23 minutos na última sexta-feira. “Vamos falar lá fora. Já estou cansado de ficar trancafiado no Reffis”, pediu o jogador, que sofreu uma lesão no ligamento cruzado do joelho esquerdo no dia 17 de junho que o tirou dos gramados até o fim da temporada. “Sabia que ali tinha acabado o ano para mim”, relembrou.

Fabrício foi contratado no início desta temporada pelo São Paulo já lesionado. Seguidos problemas na panturrilha e no tendão, somados à lesão no ligamento cruzado, o permitiram apenas jogar por quatro partidas com a camisa do Tricolor em 2012. No papo com a reportagem, ele fala sobre o ano perdido e o que espera para ao próximo. Confira:

UOL Esporte: Que lições dá para tirar deste ano perdido por lesões?
Fabrício: 
[longa pausa]…Ah, é bem difícil você tirar lições para sua carreira. Na outra lesão em 2004, você tira lições, é menino, não valoriza tanto a profissão, faz muita coisa errada, mas agora que já vinha bem, não tem nem o que aprimorar. Lições é que…que…quem manda é o homem lá de cima, e não adianta você fazer seus planos aqui se ele não quiser. É a lição maior que eu tiro, que a gente não tem o comando da nossa vida.

UOL Esporte: Qual foi o pior momento para você? O da última lesão?
Fabrício: 
Com certeza foi o da lesão. Foi o momento mais chato, porque sabia que ali tinha acabado o ano para mim. Infelizmente, estava com planos de começar naquele jogo, dar uma sequência, atuar até o fim do ano, almejar junto com o grupo pensamento de titulo, Libertadores, enfim. Ali foi um baque muito grande, quando meus planos foram por água abaixo.

UOL Esporte: Chegou a pensar em abandonar o futebol? Ou ficou motivado pelo fato de poder provar para os críticos que o chamaram de bichado que você tem muita lenha para queimar ainda?
Fabrício: 
Me incentiva. Parar de jogar não passou na minha cabeça porque você vê que essas lesões acontecem a todo momento. Não foi só comigo. Este ano muita gente machucou o ligamento cruzado. Edu Dracena machucou no Santos. O Wesley, que o Palmeiras fez uma p… duma campanha pra trazer ele, mobilizou torcida, jogou poucas partidas, machucou o cruzado. Teve gente até pior do que eu. Realmente foi o ano dos cruzados, e eu estava no bolo, fui escolhido. Mas já está bem superado, estou na reta final do tratamento, já pensando em 2013 e nos outros dois anos que eu tenho de contrato aqui.

UOL Esporte: Você acha que o fato de ter jogador no sacrifício no final do ano passado pelo Cruzeiro contribuiu muito para passar o ano com problemas de lesão?
Fabrício: 
Com certeza, pensando no São Paulo sim, me atrapalhou. Cheguei com lesão no tendão, não fiz a pré-temporada. Mas pensando na situação que eu estava vivendo ano passado, foi bom para o clube, a gente conseguiu livrar do rebaixamento, que ia ser ruim para carreira de todo jogador, clube, torcida. A gente tem que estar sempre envolvido nisso. Agora pensando no São Paulo, sim, foi ruim. Mas já tinha ate sido uma coisa superada, o tendão já tinha zerado, a panturrilha, enfim. Todas essas coisas que eu vinha tendo desde o final do ano passado. Aí aconteceu o joelho, que é uma coisa totalmente diferente, e que é uma fatalidade, e tem acontecido muito com os atletas brasileiros.

UOL Esporte: Você se apegou a que para superar os momentos mais difíceis? O que fazia/faz quando não está em tratamento?
Fabrício: 
É muito difícil né? A gente é jogador, gosta de vir aqui treinar, jogar bola, concentrar.  Mas é muito ruim quando a gente tem que vir aqui fazer fisioterapia. Sendo que é uma coisa necessária. A gente tem total confiança no pessoal do São Paulo. Sei que muita gente recuperou aqui e ficou excelente. Não tenho preocupação quanto a isso, mas a rotina realmente é muito dolorida. Acordar cedo, ficar o dia inteiro aqui. São cinco, seis, às vezes tem dia que são até sete horas de tratamento. Então é bem chato. Você aproveita pra fazer as coisas que não está acostumado a fazer. Dia de jogo não tem concentração, minha família tem vivido intensamente comigo. Tenho dois filhos, um tem três anos, outro um. Fico com eles direto, isso me toma muito tempo, porque filho pequeno, dois filhos ainda, é uma correria. É o tempo todo e o fim de semana também. Estou procurando viajar bastante, fazer coisas que eu nunca fiz na minha carreira, que é sair com eles e me desligar um pouco. Sair dessa coisa de assistir jogo. A gente fica chateado. Vê o time jogando, os companheiros lá, queira ou não você não consegue apagar da sua memória que poderia estar ali. Ainda mais que o time está vivendo um momento bom como esse. Você fica pensando: caramba, podia estar lá. Então é melhor não assistir. No começo eu não assistia. Agora estou assistindo. Ainda não vou ao vestiário, mas estou assistindo aos jogos já.

UOL Esporte: Pretende ver jogo até o final do ano?
Fabrício: 
[pausa] Eu pretendo. Vamos ver, acho que agora daqui um tempo, já começo a treinar mais com o grupo, já vou estar liberado pra treinar com a rapaziada, aí você acaba mudando um pouco o foco, volta a ser aquela coisa coletiva. Porque quando a gente machuca, infelizmente fica com o pensamento muito individual. Some o São Paulo da minha cabeça, some tudo, e o jogador quando machuca fica muito no ‘eu’. Eu preciso melhorar, eu quero ficar bom de novo. Você acaba saindo um pouco desse clima coletivo, que é o verdadeiro espírito que o futebol tem que ter. Como a coisa está bem individual ainda, não está nesse clima de vestiário, mas daqui a pouco, a coisa se abre e eu já volto a fazer parte do coletivo do São Paulo.

UOL Esporte: Outros jogadores também ficaram um bom tempo parado neste ano, como Rogério, Cañete, Wellington, Ganso. Qual foi o seu maior companheiro de Reffis?
Fabrício: 
A gente fica lá dentro, não dá tempo de conversar. Se você conversar, perde o almoço, de tanta coisa que você tem fazer. Fico até brincando com os caras. Hoje brinquei e falei: às vezes fico pensando, será que querem me recuperar ou encerrar minha carreira? De tantos exercícios que vocês passam pra mim. Mas eu não vou desistir não (risos). Conversei várias vezes com o Rogério, com o próprio Cañete, que passou lá, o Wellington. Infelizmente o futebol, com esse tanto de jogos, treinamento, sobrecarga, sempre está passando o pessoal lá. Nunca estou sozinho [risos]. Teve um, dois dias que eu fiquei sozinho e falei: pô, me abandonaram. Mas depois sempre chega um guerreirinho. Nosso futebol é assim, não tem jeito. Até mesmo pra fazer uma manutenção, tem que estar passando lá.

UOL Esporte: O Ney Franco já confidenciou que enxerga o São Paulo ideal com você de titular. Acha que poderá conquistar este posto já na pré-temporada?
Fabrício: Isso que eu acho legal do Ney, por isso que esse time está nesse perfil que está hoje. Você vê todo mundo se abraçando no gol, todo mundo correndo. Não tem mais aquele São Paulo que corre aqui, e aquela disputa para ver quem corre menos. Está todo mundo correndo, dois, três jogadores em cima da bola. Isso que é o Ney Franco. Ah, Fabrício titular. Isso que ele ganha. Todo jogador para ele é titular, basta provar. Eu vou ter que provar no dia a dia. Não consigo a titularidade assim. Isso que os jogadores do São Paulo tem que ver. O treinador trata todo mundo igual, todo mundo é titular. Quem vai se escalar são os jogadores.

UOL Esporte: Quando você vê que Wellington e Denilson estão entrosados e o time está caminhando, pensa algo do tipo: e agora, como entrar nesse time?
Fabrício: 
É verdade. Fico feliz, cara. Por incrível que pareça, fico muito feliz. É assim que a gente consegue time vencedor. Não adianta ter um jogador bom, dois, e o resto não ter banco. Não tem aquela coisa de o cara sair e o time cair de produção. Então nosso time está superando isso. Nosso time era totalmente dependente do Lucas. Hoje o Lucas sai, vai para a seleção, e o time mantém o nível. Você vê hoje Denílson jogando pra caramba, Wellington jogando pra caramba, e isso é legal. Porque a gente sabe que um vai elevando o nível do outro. Ano que vem, quando eu voltar, vão ter jogadores bons também aí. Rodrigo Caio, menino bom, jogou alguns jogos. O menino que tá na seleção, que é o João Felipe, é bom jogador. O próprio Casemiro, que viveu uma excelente fase aqui, daqui a pouco ela começa de novo, e é bom para o clube, bom para o São Paulo. O ano é assim, vive de lesão, cartão, mudança de tática. Importante é todo mundo estar bem preparado para quando tiver oportunidade você agarrá-la, saber que se merecer, vai ficar no time.

UOL Esporte: Os dirigentes do São Paulo celebraram a sua chegada pois achavam que você daria um jeito no elenco, que na época não tinha garra e faltava transpiração. Você acha que pode também colaborar neste aspecto?
Fabrício: 
Acho que sim, acho que por mais que os jogadores sejam às vezes parecidos, cada um tem uma característica muito própria. A minha característica acho que ainda é valida. Todos os clubes ainda precisam de jogadores assim, com raça, determinação, aquela coisa do máximo, acho que sempre vem a acrescentar. Essas qualidades sempre são bem vindas em qualquer lugar. Acho que por mais que esteja bom, não precisa mexer, sempre dá para agregar algo mais.

UOL Esporte: Você é um dos poucos no futebol que ainda fala o que pensa, sem se policiar tanto. Um vídeo da declaração que você deu em coletiva no Cruzeiro sobre Ronaldinho Gaúcho ainda faz sucesso até hoje no Youtube. Você se arrepende de algo do que disse ou já sofreu algum tipo de represália por isso?
Fabrício: 
Lógico, a gente sofre às vezes ate punição. Perigoso, você ficar fora de alguns jogos. Já recebi algumas intimações. Punições. Recentemente, fui processado por um árbitro de futebol também, então é ruim. Infelizmente a liberdade de expressão no nosso país está cada vez mais escassa, não como dizem que melhorou muito de alguns anos pra cá da ditadura. Lógico que melhorou. Eu posso falar um monte de coisa. Mas com certeza depois eu vou ser punido. E principalmente no futebol. É ruim, acaba que você tem que ficar na mesmice igual todo mundo, aquela coisa do vai, num vai, em cima do muro. É muito ruim. Porque a gente quando é sincero, mas omite alguma coisa, leva aquilo pra casa e fica remoendo. Mas infelizmente a gente é muito pequeno. Às vezes a gente tem que engolir sapo. Isso foi uma das coisas que eu aprendi também. Engolir sapinho é bom pra não ser prejudicado, e prejudicar minha família.

UOL Esporte: Ainda em cima disso, concorda que o futebol brasileiro está muito chato e politicamente correto? O que fazer para mudar isso?
Fabrício: 
Acho que sim. Sempre assim né, cara. Não só futebol. Toda coisa tem aquela coisa certinha e tal. Às vezes você veste uma roupa e é discriminado. Infelizmente a sociedade, a cultura nossa é isso aí né. É um padrão que você pegou e tem que andar na linha. Se você não andar na linha, você acaba sendo descriminalizado. O futebol principalmente. Tem que ser essa do time está unido, time tal, não sei o que, vai assim, porque senão você sofre punição e acaba sendo discriminado.

UOL Esporte: Como tem sido o contato com os fãs nas ruas? Qual a mensagem que você gostaria de dar ao torcedor do São Paulo? Quando que você terá condições de voltar a jogar?
Fabrício: Muito legal meu contato com o torcedor na rua. Recebo apoio, incentivo. O pessoal quer me ver jogar no São Paulo ainda, diz que com certeza o preço que eu estou pagando é porque algo de muito valioso esta por vir. Fico feliz, agradeço o incentivo deles. A mensagem que eu deixo é que a dedicação minha está sendo intensa, cada vez mais estou gostando desse clube e não vejo a hora de poder retribuir esse carinho dentro de campo. Acho que em mais um mês aí devo estar treinando normal.

 

Fonte: Uol

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