Zico: “A decisão está sendo puramente política”

O noticiário esportivo brasileiro foi tomado, nos últimos dias, pela cobertura política. Copa União, campeão brasileiro de 1987, Taça das Bolinhas, Confederação Brasileira de Futebol, São Paulo, Flamengo, Clube dos 13, direitos de televisão… tudo, menos bola rolando, tem ganho destaque.

Nesse contexto, uma voz merece ser ouvida. Afinal, há 24 anos, Zico era o maior destaque do Flamengo campeão nacional, e passadas mais de duas décadas do início de uma das novelas mais chatas da história do futebol brasileiro, os últimos capítulos estão sendo escritos. Com um desfecho imprevisível.

Zico é bem claro: “Não me sinto mais campeão por uma canetada”. Também não poupa a presidente rubro-negra Patrícia Amorim, nova aliada de Ricardo Teixeira: “Não aprovo isso”. E sabe muito bem que toda história envolvendo o título do Flamengo voltou à tona por pura politicagem.

Mas a entrevista não se preocupa apenas em mexer com a podridão do nosso futebol. Zico relembra também seu período no futebol europeu, como jogador e treinador. Até porque, voltou a comentar futebol na televisão, agora pelo Esporte Interativo, e estreou justamente na Liga dos Campeões desta semana. Confira abaixo.

Não acha que Flamengo e São Paulo estão fazendo o papel desejado pela CBF em toda essa história da disputa da taça de Bolinhas? Ou seja, criando uma confusão política com o Clube dos 13?
O Flamengo não porque está reivindicando uma coisa que que ganhou em campo. Foi acordado pelos clubes a disputa naquele formato. O Sport entrou de penetra nessa história, e deveria reconhecer que os adversários que ele enfrentou não foram de primeira divisão. Até porque todo mundo ia querer ir para a final por esse caminho então, contra adversários mais fracos. Só que a decisão agora está sendo puramente política. Eu sempre me senti campeão brasileiro, não me sinto mais agora por causa de uma canetada. Pra mim não muda nada. O problema é que os clubes, também, puxam sempre para o seu lado, não se preocupam com o futebol brasileiro.

A presidente Patrícia Amorim, agora, está ao lado da CBF na batalha pelo troféu. Não acha conveniente demais se aliar ao poder agora, sendo que antes sempre foi extremamente crítica ao presidente Ricardo Teixeira? De repente ficou amiguinha do dirigente.
Lógico. Também não concordo com isso. Antes votou contra e agora está a favor.

E sobre essa ideia de alguns clubes em buscar as negociações dos direitos de TV de forma individual? Como você vê isso? Não seria melhor eles se unirem?
Não veria nada demais. Acho que não se pode igualar coisas desiguais. Não dá para dar a mesma coisa a um time que aparece dez vezes na televisão e outro que não aparece. O Flamengo sempre esteve presente na união dos clubes, mas cansou de ser o trem pagador. Acho que é justo isso, tem que pleitear, assim como o Corinthians. É preciso discutir.

Mudando de assunto e indo para o futebol europeu. Você começou a comentar a Liga dos Campeões agora e tem um bom histórico como treinador na competição, tendo levado o Fenerbahçe às quartas de final e o Olympiacos às oitavas. Quais são os favoritos para você nesta temporada?
Os mesmos de sempre, os clubes ingleses e espanhóis. Acho que os ingleses conseguirão fazer frente aos espanhóis, só que não posso descartar os italianos, Internazionale e Milan, também. Mas eu aposto no Chelsea. O Carlo Ancelotti na Champions é muito bom.

E o Real Madrid de José Mourinho, o que você achou do empate com o Lyon?
Foi um primeiro tempo muito fraco. Na Liga dos Campeões o time da casa sempre se impõe mais, mas o Lyon respeitou demais o Real, que ficou na dele, esperando. Quando viu que o adversário não era tão bravo, foi para cima e fez 1 a 0. Cedeu o empate no final, é verdade, mas saiu em vantagem. Até porque pelo menos marcaram um gol na França, algo que ainda não tinham conseguido. Não vou dizer que vai levar a vaga, porque no futebol não dá para afirmar isso, mas tem mais chances.

Sobre sua carreira como treinador na Europa: espera voltar ainda a comandar algum clube por lá ou visa mais um cargo administrativo?
Administrativo não, só no campo mesmo. Tive alguns convites, mas nenhum que me seduziu. Até porque não pretendo ir para um lugar onde não haja condições de investimentos.

Pode revelar esses convites?
Não, prefiro não dizer.

Por que você acha que não conseguiu permanecer por mais tempo no CSKA Moscou?
Certos donos, por vaidade, fazem do time de futebol seu brinquedinho. Porque pagam, fazem o que querem. No CSKA fiquei por três meses e conquistei dois títulos, a Copa da Rússia e a Supercopa. Estávamos em segundo, mas acho que coloquei alguns jogadores que o presidente [Evgeni Giner] não queria, não sei. Ele então vendeu meus dois principais jogadores, o Vagner Love e o Yuri Zhirkov. Daí fiquei sem ataque. Ainda tentei dar algumas chances a outro brasileiro do elenco, o Ricardo Jesus, mas ele se desentendeu com o presidente também e saiu.

E o que aconteceu no Olympiacos?
Já no Olympiacos não deu para entender nada. Coseguimos a classificação na Champions, o que não é muito comum no clube, e também ganhamos do Panathinaikos. Mas aí então perdemos dois jogos seguidos, com duas falhas clamorosas do goleiro [Antonios Nikopolidis]. Eu não tinha tantos problemas com o presidente [Sokratis Kokkalis ], até porque ele falava italiano. O problema mesmo foi com os jogadores gregos, eles não queriam trabalhar. Bati de frente com o goleiro. Ele trabalhava as fofocas com o preparados de goleiros e os dois levavam para o presidente. Não saí por causa de um péssimo campeonato. Coloquei alguns jovens para jogar, contribuí com algumas coisas, mas você sempre é um estrangeiro… De qualquer modo, por resultados, não decepcionei.

Já o período no Fenerbahçe foi muito bom. Por que não quis continuar no clube?
Queriam mandar minha comissão técnica embora, interferir na minha forma de trabalho. Como não podiam me mandar emboram fizeram isso, atingiram as pessoas que trabalhavam comigo. Uma coisa é ser técnico e outra é ser manager. Não me preocupo com as contratações que o clube faz, trabalho com o que colocarem à minha disposição. Não quero ficar sabendo de transferências. Lá queriam que eu fizesse as duas coisas, e isso não é comigo. Que me passagem em dobro então (risos)!

Sobre sua carreira como jogador na Europa. Acha que poderia ter ficado mais tempo no continente? Ou mesmo tentado uma transferência para um clube maior do que a Udinese?
Com a realidade que temos hoje, é muito fácil falar isso. Naquela época havia o passe, e o clube era seu dono. Hoje em dia, com o que acontece, seria muito fácil, mas antes era muito diferente. No final do meu primeiro ano Roma, Inter e Napoli queriam me levar, mas o presidente da Udinese falou que não ia vender. Ele me disse ainda que ia reforçar o time, só que aí o diretor de futebol foi embora e o time enfraqueceu muito. Eu não ia brigar com ninguém para sair, me pagavam em dia, eram corretos. Tinha que lutar em campo para melhorar a situação. No primeiro ano nosso time era muito bom, jovem, depois saiu todo mundo. Quando nosso diretor saiu, estávamos em terceiro, mas aí o bicho pegou. O cara que chegou não entendia porra nenhuma de futebol.

E sobre o seu “duelo” com o Michel Platini pela artilharia – na temporada 1983/84, foi vice-artilheiro da Serie A com 19 gols, um a menos que o meia francês, da Juventus?
Não foi um duelo, isso foi coisa da imprensa. Ele levou vantagem porque disputou mais jogos e atuava no time campeão. Mas era um grande jogador.

Mudando para a Seleção Brasileira, como você avalia o trabalho do técnico Mano Menezes até agora? Teme que as derrotas para Argentina e França coloquem pressão sobre o treinador, principalmente pensando na Copa América?
Espero que essas derrotas não atrapalhem, até porque foram resultados normais. Agora é um período de observação, e o Mano já sabe os jogadores com quem pode contar. Acho que até 2012 ele precisa ter o time definido já, mesmo porque não vai participar das eliminatórias. E testar um jogador não é só colocar ele para jogar. Precisa ver como ele se sente no ambiente da Seleção.

Antes de 2012, porém, há a Copa América. Será que uma eventual derrota para a Argentina, por exemplo, que jogará em casa, não vai aumentar demais a pressão sobre o treinador?
Depende de como a derrota acontecer. Não é questão de perder. A Seleção ganhou tudo que disputou e não fez nada na Copa de 2010. É melhor perder as competições anteriores e ganhar a Copa. O trabalho todo tem que, obviamente, focar 2014.

Que análise você faz do Ronaldinho Gaúcho no Flamengo até agora?
Espero que ele possa retribuir todo esforço que foi feito para trazer ele, a recepção da torcida. Ele teve uma melhora já, e não dá para esperar o Ronaldinho de cinco anos atrás. Ele vai ter um grau de dificuldade maior, todos vão marcá-lo. Ele não pode se enervar e terá que jogar de outra forma.

Ele tem condições de ser o principal jogador do futebol brasileiro?
Tem condições, ele é jovem. Na idade dele eu estava sendo artilheiro na Itália. A atividade dele primeira tem que ser o futebol, nos treinos ele tem que puxar a fila. Claro que ele não está impedido de fazer nada também, até porque ninguém é de ferro. Mas a atividade dele tem que ser o futebol.

Após sua passagem pelo Flamengo, espera voltar ainda ao clube? Ou para isso seria preciso trocar a direção?
Não, não. Não pretendo voltar.

Do Uol

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