Willian supera desconfiança e dificuldades para brilhar no São Paulo

Se todos os 24 mil habitantes de Porto Calvo fossem ao Morumbi, eles não encheriam o estádio. Mas apenas a presença de Willian seria motivo de orgulho para a cidade, localizada a 78 quilômetros da capital alagoana Maceió.

No último sábado, primeira vez em que vestiu a camisa do São Paulo, marcou o quarto gol da goleada sobre o Bragantino. No entanto, muitos duvidavam que o garoto poderia dar certo no mundo do futebol. Até dentro de sua família.

– Quando comecei a jogar peladas, meu pai falava que era para eu estudar porque, com a bola, não tinha futuro. Graças a Deus hoje deu certo. Até depois do jogo, falei para ele: “E você disse que eu não tinha futuro, está vendo?” Ele deu risada – disse Willian, que recebeu a reportagem do LANCENET! no flat onde está morando provisoriamente.

Humilde, José Valdemar da Silva, de 48 anos, trabalhou por 27 anos como vigilante noturno em Porto Calvo. Ao lado da mulher Edileuza Gomes, ele criou Willian e mais quatro irmãos com apenas um salário mínimo. Hoje, sustentado pelo filho do meio, ele não precisa perder as madrugadas com o serviço. O são-paulino, com apenas 19 anos, se tornou o chefe da família.

– Agora ele não trabalha mais, só come e dorme (risos) – brincou o garoto, ao receber um abraço do pai.

Valdemar pedia a Willian que se dedicasse aos estudos, mas o que mais o garoto gostava de fazer na escola era jogar bola. Aos 15 anos, ele decidiu vir para São Paulo e tentar ser um jogador profissional. Fato que fez sua mãe ouvir reclamações até de vizinhos na cidade.

– O pessoal de lá falava que a gente era doido de deixar uma criança daquela ir para uma cidade como São Paulo. Mas eu não podia empatar o sonho dele, porque no futuro ele poderia até se queixar que os pais não deixaram ele ir – explicou Edileuza, com a voz emocionada.

Fã de Ronaldo Fenômeno, ele tem algo em comum com o craque: a de superar desconfianças. Willian já driblou as barreiras da vida, agora tem de passar pelos zagueiros rivais e mostrar seu valor em campo.

Edileuza Gomes, mãe de Willian

Willian ia para o colégio e eu só escutava reclamação. Ele não assistia à aula. Onde estava Willian? Estava na quadra da escola. Chegava em casa de calça rasgada, tênis rasgado, de tanto jogar bola, desde pequeno. Nunca fui bem nos estudos, só jogava bola.
Nós queríamos fazer de tudo para que ele conseguisse realizar os sonhos dele, mas não esperávamos que fosse tanto e tão rápido. Tudo está acontecendo muito de repente. Passamos por sacrifício financeiro, mesmo, porque para o pai criar cinco filhos com um salário mínimo, não é fácil. Eu também lavava roupa. Por várias vezes chegou a faltar coisas em casa, mas minhas irmãs ajudavam.

Confira um Bate-Bola com Willian:

Como era a sua vida em Porto Calvo? O que você fazia?
Eu não fazia nada, só jogava bola, mesmo. Não tinha mais nada para fazer (risos). Jogava em um campo que era metade terra e metade gramado. Tinha uma quadra de salão na rua, também. Onde tinha bola os caras me chamavam para jogar.

E agora é você quem sustenta a família. Como encara isso?
Está sendo muito bom para mim, até porque meus pais já trabalharam muito para dar o sustento para mim e meus irmãos. Agora, que estou podendo ajudá-los, sou eu quem tem de sustentar a família, né? Eles já trabalharam muito, agora chegou a minha vez.

Você disse que era são-paulino. Acompanha os jogos?
Sim, com meus irmãos mais velhos. Só o mais novo que é corintiano. Eu sempre sonhava em jogar bola e jogar no São Paulo, mas não esperava que fosse tão cedo. Estou podendo jogar agora, e é trabalhar para dar alegria. Quando era pequeno, ouvia falar muito do Raí.

Disse que teve propostas de Corinthians, Santos e Palmeiras. Por que escolheu o São Paulo?
Quando meu empresário disse do São Paulo, nem chegamos a conversar muito, eu disse que queria ir. Na Seleção, Lucas e Casemiro falavam que a estrutura era muito boa. Aí, eu queria fechar logo o negócio.

Do Lance

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