O que é FIDC? São Paulo explica como pretende captar R$ 37 milhões

Autorizado por seu Conselho Deliberativo em reunião recente, o São Paulo colocará no mercado financeiro um novo produto, um FIDC. A diretoria tricolor espera pegar R$ 37 milhões emprestados para organizar seu fluxo de caixa, prejudicado neste primeiro semestre por compras de jogadores e pelo novo modelo de distribuição de receitas da televisão que passou a vigorar em 2019.

Elias Barquete Albarello, diretor financeiro são-paulino, recebeu o Globo Esporte em sua sala no Morumbi para explicar como funciona esta modalidade de crédito. Exceto o FIDC montado pelo Palmeiras para intermediar a injeção de dinheiro de seu então presidente Paulo Nobre, esta é a primeira vez que um clube brasileiro parte para esse tipo de mecanismo na tentativa de financiar o futebol.

O que é um FIDC?
Fundo de Investimento em Direitos Creditórios. O clube de futebol pega dinheiro emprestado com investidores, que por sua vez precisarão receber esse dinheiro de volta depois de determinado período com determinada taxa de juros. Como qualquer investimento em renda fixa.

A diferença é que o FIDC tem como garantia futuras receitas do clube. Podem ser diversas. No caso do São Paulo, foi dado como garantia o contrato de pay-per-view com a TV Globo, sendo que o valor captado representa 50% do que a diretoria espera receber com o acordo.

Quanto o São Paulo espera captar?
R$ 37 milhões. Pode ser que o clube consiga um valor inferior a esse, caso o mercado financeiro não receba bem o novo produto. Não é necessário chegar a R$ 37 milhões para que o clube comece a receber o dinheiro. Todo centavo investido vai para o caixa são-paulino.

Como o dinheiro será usado?
O São Paulo fez contratações no início desta temporada, como as de Alexandre Pato e Tchê Tchê, e precisa de caixa para pagar as primeiras parcelas relacionadas a elas. Além disso, está tentando organizar seu fluxo financeiro frente à nova distribuição do dinheiro da televisão.

Por que o FIDC do São Paulo é confiável?
A fim de dar credibilidade ao fundo, a diretoria são-paulina pediu a avaliação da Standard & Poor’s, uma das maiores agências de classificação de risco de crédito do mundo. A S&P atribuiu a nota BrA- ao fundo são-paulino. Para que se tenha referência, a avaliação é superior à atribuída pela agência à companhia aérea Gol e ao Banco Mercantil.

A escala de rating da Standard & Poor’s

Escala Rating atribuído
brAAA
brAA+
brAA, brAA-
brA+, brA, brA- São Paulo FC, Tecnisa, Oi, Banco Original, Cemig, Usiminas
brBBB+, brBBB, brBBB- Gol Linhas Aéreas, Banco Mercantil, Banco Fator, Banco Fibra
brBB+, brBB, brBB-
brB+, brB, brB-
brCCC+, brCCC, brCCC-
brCC
brC
R
SD
D

Qual o custo do crédito por meio do FIDC?
Uma vantagem é o custo inferior ao praticado por instituições financeiras tradicionais. Hoje, se o São Paulo tomasse crédito com bancos, como é praxe no futebol, pagaria cerca de 1,1% ao mês em juros. O FIDC possui um custo de 0,85% ao mês. Ambos os números são da própria diretoria tricolor. É fundamental que um clube gaste a menor quantia possível com juros, para que sobre mais dinheiro para investir em futebol.

Qualquer investidor pode emprestar dinheiro ao São Paulo?
Não existe nenhum tipo de restrição a torcedores. Corintianos, palmeirenses e santistas podem investir no FIDC são-paulino se acreditarem que o retorno oferecido por ele é superior a outras modalidades de investimento. Haverá algum impacto emocional de torcedores do próprio clube e de rivais, claro, ainda a ser medido.

Há restrições de natureza financeira. Só podem investir no FIDC são-paulino pessoas que tiverem pelo menos R$ 10 milhões aplicados em investimentos financeiros, número que reduz consideravelmente o público em potencial. A aplicação mínima é de R$ 200 mil.

Qual é o retorno oferecido pelo FIDC ao investidor?
160% do CDI, taxa de referência utilizada por bancos para empréstimos entre eles, próxima de 1% ao mês, de acordo com o diretor são-paulino. Elias afirma que investimentos de renda fixa tradicionais costumam pagar 140% do CDI, menos do que o FIDC formulado pelo clube.

Quais os prazos de captação e pagamento?
O São Paulo terá seis meses para captar os R$ 37 milhões no mercado financeiro, a começar em maio, período no qual receberá o crédito em seu caixa conforme investidores fizerem as suas aplicações. O clube depende do sucesso do produto para receber e poder usar o dinheiro.

Uma vez concluída a captação, o clube terá um prazo de carência até que comece a devolver o dinheiro aos investidores. O pagamento começará em janeiro de 2020, sendo que a partir desta data terá quatro anos para a conclusão, a terminar em março de 2023. As parcelas vão consumir parcialmente as receitas do São Paulo com pay-per-view.

O São Paulo está antecipando o pay-per-view?
O FIDC tem mecânica muito parecida com a da antecipação de receitas, na qual o clube de futebol empresta dinheiro com um banco e entrega o contrato de transmissão como garantia. Na prática, o dirigente está recebendo antecipadamente um dinheiro que só poderia receber da emissora ou de um patrocinador em uma data futura.

Fonte: Globo Esporte

5 comentários em “O que é FIDC? São Paulo explica como pretende captar R$ 37 milhões

  1. Parabéns aos dois colegas pelas oportunas observações.
    E tem alguns incautos que acham que demonstrar a incompetência amadorística dos dirigentes estagiários do São Paulo em erros de planejamento, contratações erradas e duvidosas (pra nós, pois para alguns é certeza de comissões) é torcer ‘contra’ o clube.
    Muitos estão inebriados pela possibilidade da conquista do Paulista e acham que isso será um grande feito de Leco & Cia.
    Não vou torcer contra, mas caso o São Paulo venha a ser campeão, isso vai mascarar uma das piores gestões de futebol da história do São Paulo, e ainda permitir a possibilidade de que eles continuem perpetuando na direção do clube.
    Não esqueçam os fracassos. Eles precisam ser cobrados.
    A incompetência dessa gente está endividando o já muito endividado clube e comprometendo as próximas gestões e até o futuro da instituição.
    Lembrem-se que na crise, como sempre, a solução será vender de baciada promessas da base a preço de banana, que depois de um ou dois anos podem valer mais de 50 milhões de Euros.
    Quem está ganhando com essa situação?

    • Nossa diretoria busca fazer caixa vendendo os artistas e não o espetáculo. Mentalidade retrógrada dos dirigentes dos maiores clubes do Brasil está empobrecendo o futebol brasileiro.
      Enquanto por aqui se negociam individualmente os contratos de TV – e cada um quer o melhor contrato – as ligas de maior sucesso no mundo – Premier League do futebol Inglês, NFL e NBA nos EUA – impõem seus termos coletivos às emissoras de TV e priorizam o equilíbrio para valorizar o espetáculo e motivar as torcidas.
      Estamos décadas atrás dos mercados mais evoluídos e caminhando em direção ao modelo espanhol de concentração de renda.

  2. Gente, isso é contrair dívida novamente. O São Paulo não pode seguir a lógica de se endividar para investir e ter um retorno superior ao crédito no futuro. A única expansão possível no “mercado futebol” é de torcida. Uma torcida muito maior muda a divisão da renda de TV, o poder de barganha junto a patrocinadores etc. Mas você não compra torcida. Logo essa lógica de mercado financeiro não se aplica a um clube. Não existe ganho exponencial.
    Fora que, mais que clara e obviamente, ninguém no São Paulo tem a mínima competência para operar produto financeiro. Vide casos clássicos como Sadia, Net e outras que resolveram brincar de banco e quebraram. É isso que acontece com amadores.
    Finalmente, vale destacar que um garoto de Cotia vale mais que 37 milhões de reais. Ou: o São Paulo vendeu o Pratto por 32 milhões. Para que todo esse esforço e risco para movimentar – não lucrar – menos que uma revelação da base?
    Não há dúvida que essa diretoria é incompetente nas áreas de marketing e vendas. Uma qualificação profissional nessas áreas poderia trazer receitas muito superiores sem o risco imprevisível desse fundo.

  3. Nosso problema no futebol não é a falta de dinheiro, mas a má gestão dos recursos com contratações equivocadas e pagamento de salários muito altos a atletas que não dão o devido retorno.

    Antecipar receitas cria uma “bomba relógio” para futuras administrações. O CD autorizou uma operação que impactará o Clube de 2020 a 2023, quando teremos um novo Conselho e novos dirigentes.

    • Veja que na própria entrevista nosso Diretor Financeiro reconhece a operação como uma antecipação de recebíveis de contratos futuros. Estamos antecipando as cotas e, ao invés de aceitarmos um desagio, nos comprometemos a pagar juros aos investidores. Estamos aumentando o endividamento para cobrir um rombo de caixa de curto prazo, em troca prejudicamos nossa disponibilidade de caixa pelos próximos quatro anos.
      Esta operação é incompatível com as promessas do presidente de zerar a dívida.

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