Maicon: conheça o zagueiro de várzea que conquistou a torcida do São Paulo

Junte o rigor tático da formação europeia à personalidade forte de quem aprendeu que não há desculpa para derrotas. Tempere com uma pitadinha de várzea e temos um projeto de ídolo do São Paulo. Circule pelo Morumbi durante os jogos, e você ouvirá: “Esse Maicon joga demais”.

O zagueiro chegou emprestado pelo Porto até o fim de junho, mas suas atuações convincentes e seu comportamento sério e dedicado fizeram a torcida se mobilizar e a diretoria se mexer para tentar garantir sua permanência o mais rápido possível. Maicon conquistou o Tricolor a ponto de não haver, por exemplo, clamor para que o ídolo Lugano seja titular.

No dia em que começa o mata-mata da Libertadores para o São Paulo, Maicon disse ao GloboEsporte.com o que o torcedor pode esperar do jogo contra o Toluca, às 21h45, no Morumbi.

– Posso prometer que daremos o sangue para tentar ganhar o jogo. Tentar não, eu tenho certeza que vamos ganhar. Contamos com o apoio dos torcedores que é fundamental.

Para se consolidar como ídolo, Maicon sabe que precisa ficar mais tempo. É o que ele quer. Na entrevista, o jogador também revelou sua origem na várzea, os motivos de ter sido o substituto do goleiro Denis após a expulsão contra o The Strongest, na Bolívia, e da volta por cima do São Paulo para conseguir a vaga nas oitavas de final.

– É um time mais maduro, o professor Bauza passou a ideia de jogo dele, a dinâmica. Quando há qualidade no futebol precisa correr, de vontade, garra, no meu ponto de vista é o que faltava. Se você não correr não ganha de ninguém.

Maicon São Paulo (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)Maicon tem contrato de empréstimo com o São Paulo até junho (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

Veja a entrevista completa:

Eu li no site do São Paulo que você nasceu em Barretos, interior de São Paulo, mas outro dia você postou no Instagram a foto de uma cidadezinha…
Eu sou de Planura. Só nasci em Barretos porque na época não tinha hospital lá, mas vivi minha vida toda em Planura. Fica em Minas Gerais, na divisa.

E você começou a jogar futebol no Cruzeiro?
Comecei no Mamoré, em Patos de Minas. Foi uma passagem bem rápida, depois fui emprestado para o Cruzeiro. Fiquei lá um ano e eles me compraram em 2007. Eu tinha de 17 pra 18 anos.

Como um garoto de Planura foi parar no Cruzeiro? Como o futebol entrou na sua vida?
Ah, eu passei a vida toda com meu pai me ensinando a jogar bola. O interior tem muito campeonato de várzea, treino todo dia. Não treino específico, né, mas solta a bola no meio e joga. Uma vez tivemos um teste na escolinha do Cruzeiro. Era com meninos nascidos em 1990 e 91, mas eu insisti que queria ir. Eu sou de 88. Eles deixaram, viram que eu tinha potencial e me mandaram para o Mamoré. Eles gostaram de mim, assinei contrato no segundo dia. Fiquei quatro ou cinco meses, talvez seis, e fui para o Cruzeiro. Na época jogava de volante ainda.

Seu pai foi jogador?
Meu pai foi jogador de várzea. Jogou muito, é bastante conhecido ali na região de Uberaba, Uberlândia. Ele teve oportunidade de ser profissional, mas não seguiu a carreira.

Se você é filho de um jogador de várzea, vai entender que essa pergunta não é pejorativa. Você concorda que tem um pouco de várzea no seu futebol?
Todo jogador tem um pouco de várzea. No último jogo tive o episódio de ir para o gol. Na infância, eu disputei torneios de futsal como goleiro e fui o menos vazado. Na várzea jogamos de tudo. Quando cheguei ao Cruzeiro eu era volante, mas havia muitos da posição, de mais nome, e precisavam de zagueiro. Então recuei. No Porto, já joguei de lateral-direito. É claro que não vou jogar de atacante, mas do meio para trás estou à disposição.

Bauza Maicon São Paulo (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)Maicon observa orientação do técnico Edgardo Bauza (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)

Mas no aspecto emocional, de ser um jogador mais destemido, firme, eu noto um pouco de várzea no seu futebol.
Eu tenho. Mas, taticamente, respeito muito minha posição. Há jogos em que estamos perdendo de 1 a 0 e falam: “Vai pro ataque!”. Eu não gosto, prefiro guardar minha posição com critério. Tem jogador que “varzeia” no mau sentido. Começa a perder, quer ir para a lateral, para o ataque. Eu prefiro ser bem centrado onde eu estiver jogando.

Você disse que foi o goleiro menos vazado no futsal. Tinha talento?
Todo jogador quer brincar no gol quando começa. Eu via o Hélton fazendo defesas pelo Vasco, o Júlio Cesar no Flamengo. O Fabiano (goleiro), que jogou aqui no São Paulo (entre 2007 e 2011), me mandou uma mensagem dizendo que se lembrava de quando eu pegava as luvas no treino e ficava brincando. Eu tenho esse gostinho. Mas gosto de guardar minha posição, não gosto de “varzear” à toa, querer fazer gol.

Você já havia terminado um jogo no gol?
Não, foi a primeira vez.

Essa situação já havia passado por sua cabeça?
Já tinha passado pela minha cabeça, quem sabe um dia precisar, mas no jogo foi espontâneo. Os meninos falaram para eu não ir porque sou zagueiro, mas eu falei: “Gente, se eu saio bem com a cabeça, com a mão vou sair melhor, vou estar mais alto. Vou sair em todas as bolas na área, pode deixar que eu saio”. Tenho um pouco mais de malícia. Não sou goleiro profissional, mas sei segurar bem a bola, sair do gol, tenho tempo de bola. Eles queriam colocar o Kardec, perguntei se ele já tinha jogado no gol e ele disse: “Nada”. Então deixa. E fui.

Posso te dar parabéns pelo dia do goleiro (a entrevista foi feita na última terça-feira)?
Não, não. Deixa isso pro Denis, o Léo e o Renan.

Eram os últimos minutos de jogo. Como estava o efeito da altitude? Passava algo por sua cabeça quando a bola era alçada na área do São Paulo?
Eu senti um pouco de tontura no aquecimento e fiquei incomodado porque achei que sentiria o jogo todo. Mas a partir do momento em que entrei em campo depois do aquecimento, não senti nada. Era como se eu já tivesse jogado lá. Senti a bola um pouco mais rápida, mas não senti falta de tempo de bola. Estava perfeitamente tranquilo.

Maicon Strongest x São Paulo (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)Maicon, de goleiro, na partida contra o The Strongest, na Bolívia (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

O “Chupa, Strogonoff” do vestiário, depois do jogo, fez sucesso nas redes sociais.
É uma brincadeira. Não é legal para os adversários, mas eles nos provocaram no primeiro jogo. É o que eu disse: não é como começa, e sim como termina. Chamaram a gente de Bambi no restaurante, zoaram. Depois vimos que vence o melhor. Eles apelaram no fim, partiram para a violência e futebol não é isso. Mexeu na ferida, tem que aguentar. Eles não aguentaram.

Essa fixação em manter sua posição é fruto de sua formação europeia?
Com certeza. O europeu taticamente é muito correto. O futebol brasileiro tem pecado um pouco por isso, não segue à risca os critérios táticos. Por isso o futebol europeu está um pouco à frente. Eles guardam posição, sempre tem um na sobra. Fiquei oito anos na Europa, no Porto aprendemos a ser taticamente perfeitos. Isso ajuda o crescimento.

Você chegou a jogar profissionalmente pelo Cruzeiro?
Joguei um jogo só. Cruzeiro x Atlético, a final do Mineiro (em 2007). Ganhamos de 2 a 0, mas tínhamos perdido de 4 a 0 o primeiro jogo, aquele episódio que o Fábio virou as costas para a bola. Foram dois zagueiros expulsos, precisaram, fiz um jogo só.

E como você foi parar em Portugal depois de um jogo no Cruzeiro? Quem foi esse mágico que te achou?
Não, para eu ir a Portugal foi assim: não subi para o profissional do Cruzeiro e fiquei três meses em casa. Surgiu a oportunidade de ir pra Cabofriense, eu fiquei um Campeonato Carioca, joguei um ou dois jogos e regressei para casa. Foram mais dois meses parado e o Ipatinga me ligou: “Queremos você aqui”. Eu fui, fiz exame médico e, quando ia assinar contrato, eu me lembro perfeitamente como se fosse hoje. O Ricardo Drubscky, treinador que tinha trabalhado comigo na base, me ligou e chamou para uma experiência em Portugal com o time B do Cruzeiro. O presidente do Ipatinga me disse que eu tinha uma coisa certa aqui, mas eu quis arriscar. Confiava no meu potencial. Fizemos quatro jogos, algumas equipes se interessaram pelo meu futebol, fui para o Nacional da Madeira e fiquei uma temporada.

Nesses meses que você ficou em casa, sem jogar, não houve cobrança da mãe para desistir, estudar?
Em momento algum passou pela minha cabeça fazer outra coisa. Ontem mesmo meu pai estava comigo e falou: “Lembra, filho, quando sua mãe falava pra você estudar?”. Eu sempre quis jogar futebol, mesmo na infância. Eu jogava o dia inteiro, 24 horas por dia.

Como foi sua adaptação em Portugal? Rápida? Imagino que a mudança de vida para quem ainda era um adolescente tenha sido brusca.
Quando eu cheguei ao Nacional tinha de 18 para 19 anos. Em Portugal, um jogador com essa idade dificilmente joga, eles chamam de bebê. Fui um pouco questionado porque o treinador não me conhecia e queria um jogador experiente, mas o presidente bateu de frente. Eu era reserva, o menino perdeu um documento e comecei a jogar no primeiro jogo. Joguei dois, três, quatro… O campeonato inteiro praticamente. Falhei num jogo em que fui expulso. Fui muito bem e acabei indo para o Porto. Sempre teve alguma coisinha querendo atrapalhar, mas, graças a Deus, nunca atrapalhou.

Você ficou oito anos em Portugal. Houve alguma possibilidade de voltar ao Brasil antes?
Houve alguns rumores há três ou quatro anos, mas eu tinha 23, 24 anos, e nunca passou pela minha cabeça voltar tão cedo. Agora também não passava, mas recebi uma ligação do São Paulo num sábado à meia noite, e no domingo teria que viajar. Quando o Gustavo (Vieira de Oliveira, diretor executivo de futebol) me ligou eu aceitei na hora. Um clube com a grandeza do São Paulo. Muita gente me perguntou: “Mas você vai para o São Paulo?”. E eu dizia: “Vocês não conhecem o São Paulo”. É o melhor clube do Brasil. Queria esse desafio na minha vida e acho que dei um salto na hora certa.

Maicon São Paulo x Oeste (Foto: Marcos Ribolli)Maicon comemora gol marcado contra o Oeste, pelo Campeonato Paulista (Foto: Marcos Ribolli)

Essa boa impressão que você tinha do São Paulo era pelo que viu na infância e na adolescência ou pelo que ouviu de companheiros?
O que eu via e ouvia. O Casemiro (volante) falou super bem do São Paulo. O Souza (volante), quando soube que eu vinha, me ligou. O Fabiano (goleiro) também. E na infância eu via o São Paulo. O nome São Paulo é muito grande. Quando recebi a ligação de um diretor do São Paulo, falei: “Aceito”. Não pensei duas vezes.

Você chegou ao São Paulo e assistiu à derrota para o The Strongest na numerada do Pacaembu. Foi para o vestiário depois do jogo?
Fui para o vestiário.

Depois daquele jogo houve a discussão de jogadores que não queriam dar entrevistas com os outros que achavam melhor falar. O clima era ruim. Você chegou a se arrepender ao se deparar com aquela situação?
Em momento algum eu me arrependi, nada. Era apenas um jogo, eu falei para o pessoal. Fiquei assustado, principalmente, pela maneira como a imprensa digeriu a derrota, como se o São Paulo tivesse sido eliminado.  Aquilo era como começa e não como termina. Em momento algum achei que estivesse numa crise ou me se senti arrependido. Eu sabia que podíamos dar a volta por cima, e nós demos.

Por que o São Paulo deu a volta por cima?
Uma que a camisa pesa nas decisões. O nome do São Paulo pesa. E sabíamos perfeitamente que tínhamos condições, sabíamos do nosso potencial. É uma equipe muito forte. Nosso talento estava um pouco desacreditado, mas demonstramos na Libertadores ao passar por muitos momentos de dificuldade. Sofremos gols que não deveríamos ter sofrido, em momentos inoportunos, mas sempre tivemos força para dar a volta por cima.

O talento estava desacreditado por vocês mesmos ou por pessoas de fora?
Pelas pessoas de fora: imprensa, torcedor. Eu, no lugar deles, também pensaria assim quando não vem o resultado positivo. Mas sempre acreditamos em nosso potencial e graças a Deus conseguimos a classificação.

O São Paulo, nos últimos anos, não conseguiu engatar uma sequência de boas atuações. Esse time atual pode ser considerado mais confiável?
Com certeza. É um time mais maduro, o professor Bauza passou a ideia de jogo dele, a dinâmica. Quando há qualidade no futebol precisa correr, de vontade, garra, no meu ponto de vista é o que faltava. Se você não correr não ganha de ninguém. O Calleri, no jogo em que perdemos para o Audax, estava correndo igual um louco. O Ganso estava na reserva no último jogo, poderia ter entrado chateado, mas correu, lutou, batalhou. É esse espírito que temos de ter em campo, um ajudando o outro, correndo pelo outro. Com esse espírito e a qualidade do grupo, temos todas as condições de chegar a todas as competições e sermos campeões.

Muita gente fala que há um clima diferente, especial, entre São Paulo e Libertadores. Você sentiu isso nos jogos no Morumbi?
O São Paulo é tricampeão mundial, um clube bastante respeitado, principalmente em Libertadores. Todo time que pega o São Paulo sabe o peso a camisa, só que a camisa não joga. Quem tem que jogar somos nós. Quando entramos no estádio e vemos 55 mil torcedores aplaudindo, apoiando e incentivando, a força é ainda maior. O D’Alessandro (meia do River Plate) falou que a torcida não ajuda. Lógico que ajuda. Esteve sempre do nosso lado. O peso de ser o São Paulo na Libertadores é muito grande. As outras equipes sentem, mas em campo temos que fazer nosso papel: são 11 contra 11.

Tem muitas tatuagens?
Bastante. Devo ter umas 15, 20. Tenho minha filha, minha mulher, meu menino, um diamante, a estrela de Davi. Sou cristão.

Quantos anos têm seus filhos?
A Maria Luiza tem cinco e o Mateus tem três.

Eles vão continuar morando no Brasil no segundo semestre?
Vão, se Deus quiser.

Você quer ficar, então?
Quero, já demonstrei para todo mundo que quero permanecer. Depende do Porto e do São Paulo também, vamos ver o que fazer nos próximos meses.

Essa indefinição te atrapalha em campo?
Em momento algum, sou um cara bastante focado. O extracampo não me atrapalha, não penso se vou ficar, penso só em fazer meu papel em campo.

Houve duas respostas suas que me chamaram atenção: depois da derrota para o Palmeiras, você disse que colocar a culpa no horário das 11 da manhã seria coisa de fraco. Na semana passada, falou que a altitude não seria desculpa para cair na Libertadores. Você não gosta de dar desculpas, e no futebol muita gente vive fazendo isso. Por que?
Meu pai me ensinou que se perdeu, perdeu. Não tem desculpa. Sempre aprendi isso, desde a infância. Se você foi derrotado é porque permitiu. Às vezes eu poderia passar mal, ter alguma coisa diferente, mas o horário de um jogo não é desculpa. Estamos fadigados, cansados, com dor, mas o jogo supera tudo. Já joguei à base de remédio, com o tornozelo machucado. Na hora do jogo você esquece tudo. Eu falo para o pessoal que se você acha que dá, continua. Senão, dá a vaga para outro, não tem que inventar desculpa. Passei por um momento no Porto onde eu realmente me lesionei e fui bastante criticado. Quando vi que não dava, minha intenção foi sair o mais rápido possível porque tinha 65 minutos de jogo. Quem entrasse estaria melhor do que eu. Em momento algum pensei em fugir.

Houve essa polêmica, não é, de que você teria “pipocado”. Isso colaborou para sua decisão de ir para o São Paulo?
Acredito que nada acontece por acaso. Se isso aconteceu para que eu viesse é porque Deus queria. Estou satisfeito, feliz, não me arrependo de absolutamente nada, e faria tudo de novo porque fiz de boa fé.

O que o torcedor do São Paulo pode esperar desse jogo contra o Toluca?
Muita garra, vontade, dedicação e força de vontade. Não posso prometer gols ou que não vamos sofrer gols porque promessas têm de ser cumpridas e não sabemos o que vai acontecer. Mas posso prometer que daremos o sangue para tentar ganhar o jogo. Tentar não, eu tenho certeza que vamos ganhar. Contamos com o apoio deles que é fundamental.

Fonte: Globo Esporte

5 comentários em “Maicon: conheça o zagueiro de várzea que conquistou a torcida do São Paulo

  1. Gratificante ver uma pessoa que chegou “ontem” falar coisa belas assim.Palavras de quem se doa em campo.
    Parabens Maicon.
    Bora São Paulo F.C.

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