Lugano aposta na paixão de Ceni e diz que será “força” a jovens do São Paulo

Rogério Ceni e Lugano foram companheiros por pouco mais de três anos no São Paulo. Conquistaram títulos importantes – a Libertadores e o Mundial de 2005 foram os principais – e a idolatria do torcedor. Agora estão juntos novamente, só que o ex-goleiro é chefe do zagueiro. Incômodo? Pelo contrário. O zagueiro é só elogios ao comandante na pré-temporada e acredita que a paixão de Ceni pelo trabalho e pelo São Paulo pode levar a equipe a um ano melhor, depois de lutar contra o rebaixamento no Brasileirão.

Lugano sabe que a temporada não será fácil. Em momento financeiro ruim, o clube não consegue nem se aproximar dos milhões de investimento dos rivais. Resta apostar em reforços pontuais e, principalmente, nos jovens de Cotia. No momento de pressão, o uruguaio de 36 anos coloca sua experiência à serviço dos garotos.

Lugano São Paulo Bradenton (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)Aos 36 anos, Lugano é o jogador mais velho do atual elenco do São Paulo (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

– Sei da minha responsabilidade e do compromisso que tenho com os companheiros e o torcedor. Estou com os pés no chão, o São Paulo ainda está em reconstrução, promovendo muitos jovens, é um dos times que menos contratou. Até que tudo esteja no seu melhor funcionamento, leva tempo. Minha presença no grupo tem que servir como força para suportar esse momento de pressão – afirmou o gringo, em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com.

No papo, o zagueiro fala sobre seu futuro (tem contrato até junho), sobre o que o São Paulo precisa mudar para voltar a brigar por um título e lamenta o fato de o clube não ter condições de contratar um ou dois atletas de maior categoria para dar ainda mais qualidade ao grupo.

GloboEsporte.com: Como você analisa o trabalho do Rogério na pré-temporada?
Lugano: Não só eu, todo o grupo está muito motivado, entusiasmado por tudo que foi feito até agora. Os trabalhos são modernos, sempre com bola, com muita dinâmica. O Rogério tem colocado muita paixão e adrenalina nos treinos, e o elenco tem procurado assimilar. Até porque está claro que quem não fizer isso não terá espaço, estará fora.

Você jogou em países europeus. Os treinos são parecidos com os que você viu por lá?
Muita coisa que ele está fazendo eu vi na época em que joguei na Inglaterra (no West Bromwich). Também fiz uma pré-temporada muito similar quando fui treinado pelo (Carlo) Ancelotti (no PSG, em 2013). Na verdade, não sei se isso faz tanta diferença. O que realmente faz diferença é a personalidade do Rogério, tudo que ele está conseguindo transmitir, e o empenho dos jogadores. Ele tem um desafio muito grande com ele mesmo.

O Rogério pode ser a solução dos problemas do São Paulo?
Todos aqui têm muito respeito pelo Rogério, pela pessoa que ele é, por tudo que conquistou no São Paulo. Mas, em sua primeira conversa conosco, ele disse que o que havia feito nos 25 anos como jogador não valia mais nada, começava tudo do zero. É uma nova etapa. É um grande desafio para ele, mas o Rogério possui uma personalidade muito competitiva para enfrentar isso. Ele está conseguindo transmitir todas as suas ideias aos jogadores.

Vocês têm uma relação de anos, jogaram e foram campeões juntos. O que muda agora que ele é técnico e você continua como jogador?
Muda muito. Agora ele é o cabeça do projeto, tem que tomar decisões justas. Eu sou o jogador mais experiente do elenco e tenho que conhecer meu lugar dentro do grupo, do São Paulo, respeitando a hierarquia e mantendo a distância correspondente.

Rogério Ceni e Lugano durante testes na pré-temporada do São Paulo (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)Rogério Ceni e Lugano em testes da pré-temporada do São Paulo (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)

Aos 36 anos, como você ainda pode ajudar o São Paulo?
Vou continuar sendo o mais transparente possível. Sendo capitão ou não, agirei da mesma maneira. Tenho um modo de agir, pensar e jogar, e não vou mudar agora que estou perto de me aposentar. Serei o mais natural para ajudar o Rogério e os meus companheiros.

Em 2016, você chegou a ser a quarta opção do Bauza para a zaga. Em 2017, certamente não jogará todas as partidas com o Ceni. Não atuar com frequência te incomoda?
Ainda me incomoda muito, por isso ainda estou jogando. Se não tivesse mais isso dentro de mim, já teria parado, isso move o jogador. Mas estou feliz no que posso ajudar. Sei minha importância dentro do grupo, isso ninguém tira.

O Rogério vem treinando a equipe basicamente em dois esquema táticos na temporada, o 3-4-3 e o 4-3-3. Você tem alguma preferência? É melhor para você atuar na sobra?
Não tenho preferência. Toda minha etapa anterior no São Paulo foi com três zagueiros, mas na Europa joguei sempre em linha de quatro. No Uruguai, atuávamos com os dois sistemas. Estou adaptado a qualquer um. Quando o Rogério precisar, não vai ter problema nenhum.

Você tem contrato até o meio do ano. O que pensa do futuro? Pode seguir no São Paulo?
É difícil planejar. Por mais que eu queira fazer isso, não consigo. Botei na minha cabeça que tenho de viver cada momento com muita intensidade, aproveitar ao máximo. Tenho de pensar nesse primeiro semestre. Fazia tempo que não realizava uma pré-temporada, estou muito animado. Temos o Paulista pela frente, quem sabe não voltamos a conquistar um título. Depois, com total tranquilidade, vamos sentar e conversar, pensar se tenho vontade de continuar jogando, se o São Paulo segue precisando dos meus serviços. Isso será muito natural, feito de maneira honesta entre as partes. Mas uma coisa é certa: não volto a atuar no futebol uruguaio.

Por quê?
Fui capitão da seleção por 10 anos, não sou identificado com nenhum clube. Voltar seria criar uma identificação desnecessária. Quero deixar minha imagem final como capitão do Uruguai.

E MAIS: Ceni diz que São Paulo pode enfrentar qualquer adversário de igual para igual

Que erros o São Paulo cometeu em 2016 e não pode repetir em 2017 para ter sucesso na temporada?
Não vou citar aspectos táticos ou falar sobre o desempenho de jogadores, são coisas que não me dizem respeito. Mas posso falar que chegamos à semifinal da Libertadores porque tivemos foco total, união entre comissão técnica, jogadores, torcida. Depois isso se perdeu, nos dispersamos por vários problemas. Fatores externos, políticos, não conseguimos ter o foco necessário para alcançar conquistas. Espero que com o Rogério possamos retomar. Dentro de campo é o talento dos atletas que vai resolver.

O São Paulo gastou R$ 300 mil até agora, com o Sidão, enquanto rivais têm investido milhões em reforços. A equipe terá condições de brigar de igual para igual com eles?
Futebol não é receita de bolo, ninguém tem magia para fazer dar certo ou errado. O ideal seria ter mais dois jogadores de maior “jerarquia”, que pudessem acrescentar futebolisticamente muita coisa. Mas, como no ano passado, o São Paulo não tem condições. Até por isso, o trabalho de Cotia é o mais importante e o do Rogério também será fundamental. Todos terão que trabalhar muito para o time atingir essa condição (de brigar de igual para igual). Um trabalho de coletivo, mentalidade e adaptação.

Fonte: Globo Esporte

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