Ídolo do rival, tutor de Ceni com os pés rechaça gol favorito: “Do 1º ao 131º”

O primeiro dos 131 gols foi marcado no dia 15 de fevereiro de 1997. O último, para o alívio da torcida do São Paulo, ainda pode sair até 31 de dezembro, quando se encerram os 25 anos de contrato de Rogério Ceni com o clube – aniversário completado nesta segunda-feira, dia 7 de setembro. Pouco se sabe, no entanto, que a trajetória do goleiro-artilheiro com os pés foi iniciada graças a um ídolo do Palmeiras: Valdir Joaquim de Moraes.

Herói sob as metas alviverdes entre as décadas de 1950 e 60, Valdir era o preparador de goleiros do Tricolor em 1992, ano em que Rogério Ceni subiu para o elenco profissional aos 19. Mesmo com três goleiros a sua frente – Zetti, Marquinhos e Alexandre –, o atleta paranaense, natural de Pato Branco, foi indicado por Valdir para o técnico Telê Santana no ano da primeira conquista são-paulina na Copa Libertadores e no Mundial.

“Ele sempre teve uma cabeça muito boa. Eu estava com o Telê no São Paulo e lembro que o Rogério queria ir embora. Não estava tendo oportunidades, não estava tão feliz e o Zetti parecia insubstituível. Aí eu o chamei para o time de cima, dei o toque para o Telê de que tinha um menino bom ali, com potencial. Não imaginava que seria uma trajetória tão brilhante, mas desde o começo eu notei que ele tinha algo diferente”, explicou o palmeirense em entrevista àGazeta Esportiva.net.

“O Alexandre batia muito bem com o pé esquerdo, tinha uma saída de bola muito boa. O Rogério, quando subiu, não sabia nem bater tiro de meta direito. Aí vem o lado do ser humano, de querer aprender. Sempre incentivei o jogo com os pés porque o goleiro usa muito. Com isso, ganha condição de sair do gol nas jogadas. O Rogério desenvolveu isso tão bem que hoje não tem mais medo de errar”, comentou Valdir.

“O gol que mais gostei de vê-lo marcar? Do primeiro ao 131º. De pênalti, de falta… O gol é a parte mais importante do futebol. Ele fez história todas as vezes que balançou a rede”, avaliou. O acidente de carro fatal sofrido por Alexandre em 18 de julho daquele ano abriu caminho para que o futuro ídolo pudesse bater o recorde de Chilavert.

Feliz com o título da Libertadores, com a passagem garantida para a disputa no Mundial do Japão, e com o iminente pedido de casamento que faria à namorada, Ana Maria Lopes, o reserva de Zetti se dirigiu para um churrasco em São Roque. O retorno deu um ponto final precoce à trajetória de um craque em potencial: em uma curva da rodovia Castelo Branco, o carro do goleiro perdeu o controle e se chocou contra a mureta de proteção, tirando sua vida aos 20 anos de idade.

Na reta final da carreira, o goleiro foi homenageado pelos 25 anos de São Paulo, completados neste 7 de setembro (foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
O goleiro foi homenageado pelos 25 anos de São Paulo, completados neste 7 de setembro (foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

“O Alexandre era um menino muito focado e centrado. Tinha condições de ser ídolo, sem dúvida. Ele subiu comigo também para o profissional, tinha um potencial gigantesco. Eu tive uma importância grande, reconheço isso. Não digo isso por vaidade, é uma virtude que eu tenho. Reconheço o talento de um bom goleiro”, afirmou Valdir, também responsável pela revelação e formação de Velloso e Marcos, lendas do Palmeiras.

“Todo mundo sentiu muito a morte dele. Além da personalidade e do caráter do Alexandre, ele tinha um futuro brilhante pela frente. É difícil dizer o que teria acontecido, mas ele estava construindo uma carreira muito promissora”, ponderou. “Eu nunca temi pela aposta que fiz nele ou no Rogério. Sempre tive sucesso nas minhas decisões. Tive uma carreira brilhante na preparação de goleiros”, afirmou o ex-goleiro de apenas 1,70m.

“O Telê nunca se meteu e sempre concordou com as minhas decisões sobre goleiros. E ele também viu o mesmo que eu vi, não pôde negar o talento de nenhum dos dois. Nunca tive qualquer tipo de atrito com o Telê nesse sentido, sempre tive as minhas opiniões respeitadas”, declarou. “Quando comecei a treinar goleiros, eu notei críticas muito grandes aos goleiros brasileiros. Que não sabiam sair nas divididas, por exemplo. A partir disso, comecei a trabalhar nesse sentido. Desde então, o País teve grandes goleiros, habilidosos também com o pé, na saída de bola”, orgulhou-se.

Questionado sobre as oportunidades de Marcos na Seleção Brasileira, raramente obtidas por Rogério, Valdir foi sucinto. “O Rogério nunca teve muita oportunidade, é diferente. Se fosse para a Seleção com mais frequência e em momentos mais decisivos, tenho certeza de que teria sido o mesmo que foi para o São Paulo”, garantiu. A defesa que mais gostou de ver o são-paulino fazer, por outro lado, já foge da memória.

“Cruzes, agora ficou complicado… São tantas defesas importantes que fica difícil apontar uma só. É uma carreira extremamente vitoriosa”, respondeu, aos risos. “Tenho muito carinho pelo que ele é não só como jogador, mas como homem. Como figura no futebol profissional. É uma pessoa muito honrada e temos uma amizade muito grande. Toda vez que o assunto surge, ele fala de mim com muito carinho”, elogiou o alviverde.

“Não sei se ele deveria ter se aposentado antes. Não, isso só ele pode dizer. Eu parei com 40 anos, então podemos dizer que ele me venceu”, brincou. “Você sempre acha que pode dar um pouquinho mais. Não sei quando ele vai parar, se vai ser nesse ano mesmo ou não, mas o Rogério vai saber quando chegar a hora de encerrar essa história”, analisou.

Por fim, o primeiro preparador de goleiros da história do futebol brasileiro não quis arriscar um palpite sobre o futuro guarda-metas do São Paulo a partir de 2016. “Não tenho acompanhado a carreira dos dois (Denis e Renan Ribeiro) de perto, é complicado opinar à distância dessa forma. Sem dúvida, quem pode opinar sobre isso com muita propriedade é o próprio Rogério Ceni, que certamente vai guiar o caminho e ajudar muito qualquer um deles. O futuro vai dizer”, finalizou Valdir de Moraes, aos 83 anos.

Zetti e Valdir foram as grandes influências de Rogério na chegada ao Tricolor (foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)
Zetti e Valdir foram as grandes influências de Rogério Ceni na chegada ao Tricolor (foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

 

Fonte: Gazeta Esportiva

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