Ex-goleiro do São Paulo sofreu mesma lesão de Lais. Ele conta o drama

Companheiro de Lais Souza em uma academia de São Paulo, Bruno Landgraf das Neves sabe bem a situação que a ex-ginasta está passando. Um acidente seguido de lesão na coluna também mudou sua vida. Até 11 de agosto de 2006 o nome dele era apontado como um dos possíveis substitutos de Rogério Ceni no São Paulo. Campeão mundial sub 20, o passo seguinte do currículo era representar o Brasil na Olimpíada de Pequim.

Os planos do rapaz que estava com 20 anos acabaram num acidente de carro na madrugada daquela noite de agosto. Quando acordou na UTI 20 dias depois soube que sofrera uma lesão na terceira vértebra cervical, assim como Lais, mas com um agravante. A quarta vértebra também foi atingida. Na linguagem médica, o acidente afetou a C3 e a C4.

Ele conheceu Lais enquanto malhava num estabelecimento na Rua Consolação, em São Paulo. Também tinham a mesma fisioterapeuta. Agora têm mais em comum: cicatrizes de cirurgias para estabilizar a coluna. Mas o ex-goleiro é prova que o trauma na medula não é o fim da linha. Tanto que participou das Paraolimpíadas de Londres, sonha com Rio-2016 e ainda acha tempo para fazer faculdade de Direito.

“Eu estava em uma fase boa na minha carreira como jogador de futebol e aconteceu o acidente. Por mais que você perca todos os movimentos, você tem um objetivo que é não desistir. Mesmo que aconteça algo grave você tem a esperança de que pode mudar e conseguir cada dia mais”, conta Bruno.

Diretor clínico do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, Daniel Rubio de Souza explica que num trauma de C3 pode haver perda de movimentos e da sensibilidade de braços e pernas, do controle da bexiga e intestino, da capacidade de comer e até de respirar. Mas o médico ressalta que a extensão das sequelas não pode ser mensurada num primeiro momento por causa do choque medular.
“Na prática, há uma espécie de curto circuito que pode durar de horas até semanas”, diz Alexandre Fogaça, especialista em coluna do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele afirma que somente após este período é possível descobrir que partes do corpo foram atingidas e determinar um prognóstico.
Bruno não lembra da fase do choque medular. Também não se recorda de como perdeu o controle do Golf no quilômetro 311 da Rodovia Régis Bittencourt. O carro dirigido por ele capotou e caiu num desnível. No acidente morreram o também goleiro do São Paulo e melhor amigo Weverson Saffiotti e a  jogadora de vôlei Natalia Lane. “A maior perda que tive foram os meus dois amigos que faleceram”, lamenta Bruno.
A mãe do ex-goleiro não esquece nada do que aconteceu a partir daquela noite. Na memória de Neide Landgraf das Neves é bem clara a lembrança dos médicos dizendo que o filho só mexeria os olhos e passaria a vida ligado a um aparelho para respirar e sem forças sequer para engolir. Isto ocorreu uma semana depois do acidente. Ela saiu da sala de reunião e viu uma placa indicando capela. “Entreguei ele a Deus e disse: antes de ser meu ele era seu”.  A situação de Bruno era tão grave que ele sofreu três paradas cardiorrespiratórias nos 20 dias que ficou na UTI.
A provação pela qual Bruno passou foi uma surpresa porque no primeiro momento a lesão não pareceu séria. O ex-goleiro saiu do carro caminhando por volta da 1h30 daquela madrugada. O cenário mudou no hospital pouco antes do dia clarear. Não era possível mexer as pernas. O ex-goleiro não lembra, mas a mãe diz que chorou desesperado.

Depois de duas cirurgias, Bruno perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo. O ex-goleiro não conseguia mais nem respirar. Ficou seis meses ligado a uma máquina e recebendo alimentos por uma sonda no nariz. A prioridade era recuperar a capacidade de respirar sozinho. Foi aberto um buraco na garganta para facilitar a passagem do ar, a chamada traqueostomia. O organismo debilitado também foi vítima de uma bactéria. Chegou um momento em que Bruno perdeu 20 dos seus 80 quilos.

Com muita fisioterapia e cuidados as conquistas foram aparecendo. A primeira parece uma bobagem, mas o ex-goleiro tinha forças para conseguir virar uma carta e conseguiu jogar baralho com a mãe. A rotina de tratamento durante a internação continuou e seis meses depois era possível respirar sem aparelhos. Logo, foi permito comer.

Passado nove meses, ele finalmente foi liberado para voltar para casa. A série de conquistas foi se somando e hoje Bruno fala, come, mexe os braços e malha. Consegue levantar até 40 quilos dependendo ao aparelho. A reabilitação contou com uma dose de criatividade do ex-goleiro. Ele amarrou uma saco de feijão de um quilo em cada braço e numa musculação rudimentar. A mãe comprou tornozeleiras de academia e a malhação continuou. Deu tão certo que Bruno completou o sonho de ir para uma Paraolimpíada: ele foi o 12º colocado na vela adaptada em Londres.

Hoje a rotina de Bruno é puxada. Ele faz musculação diariamente, veleja em dois períodos de sexta a domingo, faz trabalho de reabilitação e ainda tem tempo para estudar. O ex-goleiro está no terceiro período de Direito e garante que está tirando boas notas.

“Procuro estar vivendo o hoje. Tenho objetivos a longo prazo, mas não daqui a 20 anos. Tenho pra até 2016, que é treinar na vela e conseguir ir para a Paraolimpíada para tentar um resultado melhor que o de 2012”, ensina Bruno.

Fonte: Uol

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