Ex-lateral do São Paulo volta dos EUA e busca clube no Brasil

Em um tempo não tão distante em que a lateral direita do São Paulo não era farta como hoje, muitos torcedores depositavam suas fichas em Lucas Farias, cria de Cotia e acostumado a frequentar as seleções de base. Promovido ao elenco profissional aos 17 anos, ele foi utilizado em apenas nove partidas (duas em 2012 e sete em 2013), mas diz que ter passado mais de uma década com a camisa tricolor é algo que o beneficia até hoje.

Lucas deixou o São Paulo no início de 2018 para jogar no São Bento e passou o ano passado no Indy Eleven, dos Estados Unidos. Sem contrato desde dezembro, retornou ao Brasil e deu ao empresário Pedro Gutierrez a missão de recolocá-lo no mercado nacional – um clube da Série A e outro da Série B iniciaram conversas recentemente.

– Foi uma experiência muito, muito boa. Eu e minha esposa (Victoria) gostamos muito de viver nos Estados Unidos, lá tivemos a oportunidade de ter nossa filha (Aurora, hoje com quatro meses). Aqui no Brasil eu tive um período um pouco complicado no São Bento. Os primeiros seis meses foram muito bons, mas depois trocou o treinador e eu não tive mais oportunidade de jogar. Chegou a proposta dos Estados Unidos e, ao meu ver, poderia ter sido melhor ainda se eu tivesse dado continuidade. Mas a gente voltou para o Brasil para crescer no mercado daqui. Por mais que lá seja um país muito bom para se viver e para se jogar, a gente sabe que não é o centro do futebol, as pessoas não olham para os Estados Unidos com os olhos brilhando. Aproveitei a oportunidade de voltar para buscar uma oportunidade aqui e ter uma sequência boa – contou Lucas, que está treinando sozinho no interior de São Paulo durante o período de pandemia.

O lateral diz que os cuidados que o São Paulo teve em sua formação, em Cotia, o fizeram amadurecer mais cedo. Por coincidência ou não, ele já se preocupa com o pós-carreira e está cursando a segunda faculdade: de gestão comercial, à distância, na Anhembi Morumbi. A primeira, de marketing, foi interrompida porque não era possível cumprir o cronograma de provas presenciais.

– Quero permanecer jogando por muito tempo e nem sei de fato o que fazer pós-carreira, mas é sempre bom fazer um curso superior e conhecer outras áreas para estar preparado quando chegar o momento. É difícil, a gente joga desde os cinco, seis anos. Quando parar tem que ter um norte para onde remar.

– Sem dúvida ter jogado no São Paulo por 13 anos dá uma margem legal. No meu tempo de São Paulo, o clube foi muito vitorioso na base e visava muito o nosso comportamento, para que o atleta se tornasse também um cidadão. Isso me ajudou muito a amadurecer cedo, a entender o que eu queria para a minha vida. Por mais que eu não tenha tido sequência no profissional, eu trabalhei com treinadores muito renomados, como o Paulo Autuori, o Muricy Ramalho, o Ney Franco, o Leão… Fiquei dois anos e meio ou três no profissional, não tive muita sequência, e talvez esteja aí o motivo para eu não ter conseguido me firmar, porque todos os jogadores precisam de sequência. Mas o currículo ajuda muito.

Lucas se entusiasma ao falar de um dos treinadores com quem trabalhou: Paulo Autuori, que dirigiu o São Paulo por um curto período em 2013 e agora está à frente do Botafogo.

– O melhor treinador que eu peguei, e acho que todo jogador que passou com ele tem a mesma opinião, é o Paulo Autuori. É um cara sem palavras. Tanto na parte pessoal quanto na parte profissional ele é muito evoluído, é muito bom mesmo. Ele é bom no sistema defensivo e é bom no sistema ofensivo. Se você vai para o jogo você sabe porque está indo, se não vai você também sabe. Quando você está ficando no banco, ele te dá uma resposta. A gente sabe que não funciona assim. Não que os treinadores devam dar satisfação, acredito até que não tenham que dar, mas quando o treinador tem uma atitude de dar satisfação, conversar e falar o que quer que você faça dentro de campo, gera um respeito maior, até por entender o lado dele. São 11 que jogam e, infelizmente, às vezes você começa e às vezes não. Quando você tem esse respaldo é muito gratificante para o atleta. O cara que eu levo para a vida mesmo é o Paulo – elogia, antes de explicar a admiração:

– Vários episódios, cara. Uma vez ele estava com um problema na família e o pegaram na concentração chorando. Se não me engano, o Rogério falou: “Paulo, vai resolver isso”. E ele: “Não, não, estou fazendo o máximo, mas assumi o compromisso com vocês e vou até o fim”. Fora coisas bestas, por exemplo: ele podia viajar sempre na melhor classe, mas não queria, queria ir junto com os jogadores. Quando a gente chegava no hotel, ele era o último a subir para o quarto, porque sempre tem algum problema no check-in, às vezes fica sem fazer o de algum jogador porque o sistema deu erro e tal. Ele ia por último porque dizia que os jogadores eram mais importantes que ele. Tem vários exemplos. Levando para o lado profissional, a gente sabe que hoje em dia os treinadores têm alguns auxiliares. No dia do jogo, o pessoal que não vai para o jogo tem que ir lá treinar, e quem dava o treino era o Paulo. Ou seja, ele dava o treino e ia à noite para o jogo. No São Paulo a gente falava: “pô, tem treinador que passa por aqui e nem dá treino e esse cara vem dar treino quando, em tese, nem era o dia dele”. Nesse dia ele já conversava com os jogadores que não iam para o jogo, explicando os motivos. Era um cara fora de série, realmente.

Ele também guarda boas lembranças de Rogério Ceni, com quem conviveu tanto nos tempos de goleiro quanto na época de treinador. Em 2017, quando o Mito dirigia o São Paulo, Lucas estava no Reffis em tratamento de uma grave lesão de joelho após empréstimos a Náutico e Estoril (POR). Ele acredita que, se estivesse bem fisicamente, poderia ter sido utilizado.

– Eu sempre tive muito boa relação com ele. Acho que se alguém não tem boa relação com o Rogério o errado não é o Rogério, né? Ele até gosta do meu estilo de jogo, que é um estilo de velocidade, um jogo mais ofensivo, então acredito que poderia ter oportunidade. Inclusive eu conversava bastante com ele, conversava com o Pintado, que era auxiliar, tinha acesso ao vestiário e tudo. Enfrentei o Rogério quando estava no São Bento. O São Bento e o Fortaleza eram os dois últimos invictos da Série B e a gente ganhou deles em Sorocaba, o encontrei lá. Sem dúvida é um cara que levo para a minha vida – exalta Lucas, ainda sem saber explicar os motivos de não ter deslanchado no Morumbi.

– Se a gente for pegar os jogos que eu fiz, joguei bem para um menino de 17, 18 anos. Consegui fazer aquele torneio que a gente foi jogar contra o Bayern, contra o Milan. Talvez o São Paulo tivesse um pouco de receio por eu ser tão novo, de me dar oportunidade de jogar Brasileiro ou Libertadores e me queimar. O São Paulo era carente nessa posição depois do Cicinho e do Ilsinho. A torcida cobrou muito a diretoria para contratar, para ter um cara à altura desses jogadores. Não sei te dizer se alguém segurou, achou que não era o momento. Isso não era passado para mim. Muito pelo contrário, quando os diretores vinham falar comigo era: “Lucas, você vai chegar na Seleção Brasileira principal”, “Lucas, a gente confia no seu trabalho”, “Lucas, você só não está sendo titular porque é muito novo e a gente quer que você passe mais tempo no profissional, indo para jogo, conhecendo os atletas”. Mas a gente sabe que o tempo passa, os treinadores rodam e as oportunidades vão passando. Quando fui emprestado a primeira vez, se não me engano, eu tinha 21 anos e ainda ia para a Seleção Brasileira. Buscando espaço em outro lugar são outros desafios, outros problemas. Mas espero que esse ano seja vitorioso e que eu possa mostrar o que um dia já mostrei.

 

Fonte: Lance

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