Saques ‘anônimos’ apontados pelo Coaf em contas do SP ligaram alerta da Polícia

O suposto esquema de desvio de verba no São Paulo, investigado pela Polícia Civil, tem como um dos pontos-chave saques “anônimos”. Entre as 35 operações apontadas como atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), cinco não foram feitas por uma empresa terceirizada ou funcionário são-paulino, mas apenas “pela agremiação São Paulo”. O clube diz que se tratam de erros do banco responsável e prepara um laudo técnico para provar a regularidade das operações. O prazo de 15 dias estipulado pela polícia para a apresentação do relatório encerra-se em 26 de janeiro.

O problema, segundo o relatório do Coaf, é que isso torna ainda mais difícil que haja transparência nas operações. A prática configura uma “quebra irreparável na trilha de auditoria” e “impede a identificação de quem efetivamente recebeu os valores na boca do caixa”.

“A agremiação, enquanto pessoa jurídica, é um ente abstrato, despido de corpo físico. É mandatório, portanto, que a ação de saque tenha sido executada por um preposto, mandatário ou funcionário devidamente autorizado. A identidade desta pessoa física foi suprimida ou não registrada”, diz a análise apontada no inquérito, que corre na 3ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro (Dicca).

As movimentações investigadas ocorreram de janeiro de 2021 a novembro de 2025. Neste período, foram sacados cerca de R$ 11 milhões de contas do São Paulo. Os dois bancos nos quais as contas estão vinculadas apontaram as movimentações como “atípicas e incompatíveis com a prática de mercado para uma entidade deste porte, ressaltando a incapacidade de assegurar a real destinação dos valores.”

As mudanças no modo de sacar foram progressivas. Em 2021, duas operações foram feitas pelo gerente financeiro José Luiz da Silva, totalizando R$ 600 mil. Ambas foram no Banco Rendimento, o que também gera questionamentos do Coaf.

“O Banco Rendimento possui estrutura física de atendimento restrita, operando em São Paulo essencialmente através de sua matriz. Tal fato sugere que estes saques não foram operações de rotina em agência, mas, sim, transações que demandaram deslocamento específico à sede da instituição ou agendamento prévio diferenciado, o que reforça a necessidade de se compreender a motivação para a escolha desta praça bancária específica para tais retiradas”, diz o relatório.

Depois vieram os cinco saques em nome do São Paulo, mas sem identificação. Por fim, o clube passou a utilizar carros-forte da empresa TBForte, em 28 operações.

“A substituição do portador ‘pessoa física’ pela ‘transportadora de valores’ introduz uma camada de impessoalidade à operação”, aponta o inquérito. “Embora tal medida possa encontrar justificativa operacional nos protocolos de segurança patrimonial, ela gera, concomitantemente, um efeito colateral adverso para o compliance: a perda de pessoalidade imediata”, completa.

Os saques indicados apenas pela pessoa jurídica do São Paulo foram feitos de 12 de março de 2021 a 17 de março de 2022. Nesse período, o clube já contava com serviços da TBForte.

Segundo o advogado Pedro Ivo Gricoli Iokoi, do escritório Iokoi Advogados, que representa o São Paulo, a não identificação nos saques trata-se de erros do banco. As operações foram feitas no Bradesco.

Tanto o Banco Rendimento quanto o Bradesco apontaram “incapacidade de assegurar a real destinação econômica desses valores”. “A opção preferencial pelo saque em espécie, em detrimento de meios eletrônicos rastreáveis (TED ou Pix), aliada à utilização de agência bancária sem atendimento ao público (Matriz do Banco Rendimento), sugere a intenção deliberada de interromper o rastro financeiro.”

Conforme apontam os advogados do São Paulo, os valores teriam sido destinados a “compromissos rotineiros do futebol que exigem dinheiro em espécie”. Um assistente técnico (perito contador) foi contratado para elaborar um laudo detalhado que será apresentado à autoridade policial para comprovar o destino de cada saque.

Entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, período analisado pela Polícia Civil, o São Paulo (futebol profissional masculino) fez 361 jogos. O valor médio por partida fica em R$ 30,47 mil. Levando em consideração também os jogos do profissional feminino no período (176), a quantidade de partidas aumenta para 537. Dessa forma, o valor por jogo seria de R$ 20,48 mil.

Entretanto, é sabido que não era feito um saque a cada partida. Conforme Coaf apontou à Polícia Civil, o ano com mais saques foi 2024, com 11 retiradas.

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