Flávio Marques

Análise da gestão Carlos Augusto de Barros e Silva, 2015 a 2020

Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, completou seu mandato de pouco mais de cinco anos à frente do São Paulo Futebol Clube. Em 13 de outubro de 2015 o então presidente Carlos Miguel Aidar, pressionado por denúncias de irregularidades em sua gestão, renunciou ao cargo. Leco, então presidente do Conselho Deliberativo, assumiu interinamente e convocou nova eleição. Ele foi eleito ainda naquele mês de outubro para um mandato complementar, e em abril de 2017 venceu a eleição para o mandato completo que se encerrou no final de 2020.

Considerado por muitos como o pior presidente da história do São Paulo, devido aos fracassos esportivos e financeiros, o próprio Leco – em entrevista ao Blog do PVC – avalia sua gestão como positiva e destaca uma reestruturação do São Paulo no período, ressaltando a aprovação do novo Estatuto. Nas próximas seções mostraremos dados e fatos sobre o desempenho do futebol, administração financeira e práticas de gestão do SPFC para que cada leitor possa formar sua opinião. Todos os dados apresentados são públicos, e o ponto de vista é de um torcedor.

I) Desempenho esportivo

No período da gestão Leco, consideradas as temporadas de 2016 a 2020, o São Paulo Futebol Clube esteve entre os quatro times que mais investiram em seus times de futebol. Apenas Palmeiras, Corinthians e Flamengo desembolsaram valores equivalentes ao dispendido pelo São Paulo com seu time profissional. Enquanto esses três rivais conquistaram títulos relevantes, o desempenho do Tricolor foi o seguinte:

Resumidamente o São Paulo de Leco a cada 10 jogos venceu 4, empatou 3 e perdeu outros 3. Muito pouco para quem investiu quase R$ 1,7 BILHÃO em 5 anos no seu time de futebol.

O presidente dos 0 (ZERO) títulos colecionou fracassos em nível estadual, nacional e internacional. No campeonato Paulista permitimos a hegemonia do Corinthians no período, e ainda colecionamos eliminações vexatórias nas quartas de final contra o Audax (time do então presidente Vampeta e do treinador Diniz) em 2016, e o poderoso Mirassol em 2020. Nas competições da CONMEBOL destruímos a imagem vencedora do Tricolor após seguidas eliminações para times de segunda linha da Argentina (Defensa Y Justicia, Colón, Talleres e Lanús), e de uma desclassificação na fase de grupos da Libertadores perdendo jogos para o Binacional do Peru e LDU (Equador). Na Copa do Brasil, exceto em 2020, fomos eliminados precocemente por equipes de menor investimento como Juventude e Bahia. No campeonato Brasileiro a melhor colocação foi um 5º lugar em 2018, enquanto em 2017 sofremos risco real de rebaixamento. O Brasileiro 2020 está em andamento e hoje ocupamos a liderança após 27 rodadas disputadas, o que é positivo, mas tem que ser analisado com otimismo moderado. O time de Aguirre em 2018 foi líder até a 26ª rodada, mas na reta final caiu de produção e terminou em quinto lugar. É preciso torcer jogo a jogo, e no campeonato de pontos corridos a classificação que vale é a da 38ª rodada. Essa sequência de fracassos causou danos à imagem do clube, desvalorizando nossa marca para eventuais patrocinadores, além de prejuízos financeiros quantificáveis devido às eliminações em fases muito iniciais das Copas.

II) Contratações

Sob comando de Carlos Augusto de Barros e Silva o São Paulo Futebol Clube investiu R$ 384 milhões na aquisição de direitos econômicos de atletas, conforme os dados publicados nos demonstrativos financeiros do clube. Apenas considerando profissionais formados foram contratados 60 jogadores no período, dos quais apenas 13 permanecem no elenco.

Uma avaliação técnica até otimista mostra que dessas contratações 31 se converteram em fracasso esportivo e financeiro. Nomes como Kieza, Buffarini, Everton Felipe, Jean, Jucilei, Diego Souza, Maicossuel, Tréllez, Everton, Bruno Peres e Raniel custaram ao SPFC somados um valor próximo aos R$ 90 milhões. Reservas muito questionados do time de Diniz, os direitos de Pablo, Hernanes, Léo, Tchê Tchê e Vitor Bueno somam em torno de R$ 75 milhões.

Resumindo, em média de cada cinco contratações de Leco apenas uma rendeu resultados positivos em termos esportivos e financeiros, e podem ser consideradas sucesso. É uma taxa muito baixa (20% de sucesso) se pensarmos que o SPFC mantém uma estrutura profissional de analistas de desempenho e deveria acompanhar o histórico de potenciais contratados pelo clube. Contratações sem critério, de atletas caros e pagando elevados percentuais de comissão a intermediários, conforme parecer do Conselho Fiscal sobre as Demonstrações Financeiras de 2018, foram a regra da gestão Leco. Da tabela abstraímos ainda que, sem dinheiro para gastar em 2020, Leco não fez contratações fracassadas ou inúteis, e com isso sobrou espaço para os jovens promissores da base subirem e o rendimento do time foi o melhor do seu mandato.

III) Resultado Financeiro dos Exercícios 2015 a 2020

Incluí aqui o ano 2015 apenas para efeito de ponto de partida, pois a responsabilidade ao longo de 10 meses desse ano foi do antecessor de Leco. Dito isso vemos que nos dois primeiros anos, 2016 e 2017, foi realizado um bom trabalho em termos de incremento de receitas e manter as despesas controladas. A partir de 2018, porém, as receitas começaram a cair, pondo em risco nossa saúde financeira já antes dos efeitos da pandemia. O ano de 2019 foi de aumento de 40% nas despesas totais, principalmente no futebol, enquanto as receitas se mantiveram no mesmo nível do ano anterior. Investimos em 2019 quase R$ 150 milhões em contratações, incluindo jogadores de altos salários como Daniel Alves, Juanfran, Hernanes e Alexandre Pato. Promessas como o patrocinador que bancaria o custo do Daniel Alves, estimado em R$ 20 milhões por ano, não se confirmaram. O parecer do Conselho Fiscal sobre o ano 2019 ressalta que não se respeitou a previsão orçamentária aprovada para o período. O prejuízo de R$ 156 milhões apurado em 2019 virou o Patrimônio Líquido do Clube para negativo. Em 2020 a administração projeta novo prejuízo elevado, desta vez de R$ 139 milhões, uma vez que a queda de receitas, também em função da crise da COVID-19, não foi compensada pelas reduções de despesas obtidas pelos gestores. Ao final de 5 anos de mandato, Carlos Augusto de Barros e Silva gerou um prejuízo de R$ 272 milhões para o Clube, e o Patrimônio Líquido da Instituição chegou a R$ 184 milhões negativos.

IV) Endividamento Líquido

O conceito de Endividamento Líquido conforme considerado nos relatórios do São Paulo Futebol Clube é definido pela diferença entre todas as Obrigações do Clube menos o total dos Direitos (Ativo total exceto Imobilizado e Intangível).  Neste texto sigo essa definição.

Carlos Augusto de Barros e Silva recebeu como herança de seu antecessor um endividamento líquido de R$ 359 milhões, e nos primeiros três anos conseguiu bons resultados, reduzindo essa dívida para os R$ 270 milhões no final de 2018. Em 2019, porém, houve um total desequilíbrio da administração e o valor da dívida saltou para R$ 503 milhões. Em 2019 o endividamento bancário cresceu em R$ 83 milhões, as contas a pagar cresceram R$ 72 milhões, e as obrigações com outras entidades esportivas cresceram R$ 38 milhões, tudo em apenas 12 meses. A previsão orçamentária 2021 mostra para 31/12/2020 um endividamento ainda maior, R$ 578 milhões, um valor R$ 219 milhões maior do que Leco recebeu no início de seu mandato.

V) Práticas de gestão

Carlos Augusto de Barros e Silva na entrevista para o Blog do PVC ressaltou como um legado de sua administração o novo Estatuto, balizador do profissionalismo e modernidade da Instituição. Retrocedendo um pouco no tempo vemos que o processo de elaboração do novo Estatuto foi acelerado no ano de 2016, pois a administração queria antecipar-se à conclusão da ação judicial que questionava alterações Estatutárias realizadas na gestão Juvenal Juvêncio sem ratificação pela Assembleia Geral, o que poderia tornar nulos muitos atos administrativos desde 2008. A Assembleia Geral Extraordinária de 03/12/2016 aprovou o novo Estatuto, que trazia alguns pontos positivos como o conceito de profissionalização da gestão, e aberturas para discussão séria sobre as eleições diretas para presidente no clube, e  sobre a separação do futebol e clube social. Sobre esses temas principais o quadro abaixo mostra como se comportou o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva.

Com a conivência do Conselho de Administração, órgão executivo que tem entre suas atribuições aprovar a contratação e definir a remuneração de Diretores Executivos, Leco nomeou para todos os cargos remunerados seus aliados políticos, distorcendo o objetivo de profissionalização da gestão com a contratação de profissionais “de mercado”.

Leco poderia ter entrado para a história como o presidente que implantou as eleições diretas, ou que viabilizou uma separação entre o Clube Social e o Futebol Profissional, e até a criação do clube empresa. Poderia, mas optou por se omitir, ignorando a obrigatoriedade de apresentar os estudos definidos em normas Estatutárias. Aqui não há avaliação subjetiva. O prazo máximo de 12 meses foi absolutamente desrespeitado, uma vez que os estudos nunca foram apresentados. O Conselho Deliberativo, de maioria silenciosa e cordata, não se manifestou sobre essas infrações ao Estatuto.

VI) Minhas conclusões

As seções anteriores contém apenas fatos e dados. Cada um dos leitores tem informação necessária para formar uma opinião sobre a gestão de Carlos Augusto de Barros e Silva. Eu apresento a minha opinião aqui na sequência.

Não sei se é justo classificar Leco como “o pior presidente” da história, pois para isso seria necessário realizar uma comparação com todos os demais mandatários. O que os números e fatos apontam, de forma inequívoca, é que a gestão de Carlos Augusto de barros e Silva foi péssima sob os pontos de vista do resultado esportivo (time principal de futebol), administração das finanças e práticas de governança da Instituição. De positivo, talvez, apenas o fato de Leco não ter sido acusado de corrupção em seu mandato, o que já o coloca, em minha opinião,  à frente de pelo menos um dos demais presidentes do SPFC nesse eventual ranking histórico.

Fechando um círculo, Carlos Augusto de Barros e Silva passa o poder a seu aliado e membro do mesmo grupo político no SPFC (grupo Participação), Júlio Casares.  Júlio Casares, o mesmo que era então o vice presidente de Carlos Miguel Aidar, antecessor de Leco. E assim segue a política do São Paulo Futebol Clube.

10 comentários em “Flávio Marques

  1. Cirúrgico como dhábito hábito, Flávio. Faltou, talvez, lembrar a absolvição de Leco pela Comissão Disciplinar, que considerou prescrito o prejuízo de 5 milhões por ele causado ao obrigar o SPFC a pagar comissão a empresário do Jorge hoje Paulista quando Diretor de Futebol e sem poderes para isso!

    • Episódio Jorginho Paulista. Bem lembrado. E apenas mais um caso em que o Conselho de Ética preferiu abafar um caso. Silêncio perpétuo sobre o tema?

  2. Boa coluna como de costume.

    Leco é sim o pior, o Aidar não era presidente e sim um ladrão usurpando tal posto!

    Seu maior erro esportivo foi o episódio Aguirre, aquilo acabou com 2 temporadas de seu mandato.

    O SPFC se apequenou na sua gestão, perdemos respeito, reputação e até futuros torcedores.

    • Olá Danilo,

      Concordo com sua leitura do caso Aguirre. Desmontou a estrutura e prejudicou o resultado no Brasileirão 2018 e, ao manter Jardine, destruiu a temporada 2019 que começou com eliminação na pré Libertadores.

  3. Obrigado Paulo Pontes pelo espaço e pela oportunidade de escrever uma coluna regular aqui no Tricolornaweb.

    Neste artigo fizemos um balanço da gestão Leco, para passar a régua e virar a página desse tema.

    Sempre na primeira terça-feira de cada mês publicarei um novo artigo, podendo abordar diferentes temas de interesse da torcida tricolor, mas sempre buscando embasar as opiniões e comentários em dados e fatos.

    Saudações Tricolores!

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