
A comissão de ética do São Paulo Futebol Clube determinou abertura de inquérito policial para investigar atos do presidente do Conselho Deliberativo do clube, Olten Ayres de Abreu Junior. O pedido foi feito em decisão proferida em 29 de abril, a mesma em que a comissão recomendou o afastamento do dirigente de seu cargo.
Olten enfrenta acusações de gestão temerária no âmbito da discussão sobre a reforma do estatuto do São Paulo, processo em que agora emerge a suspeita de má fé e abuso de poder. A representação disciplinar contra Olten, cuja penalização é a expulsão do quadro de associados, foi protocolada pelo atual presidente da diretoria, Harry Massis Junior.
Em dezembro de 2025, Julio Casares, já sob o procedimento de impeachment que resultou em seu afastamento da presidência, apresentou uma proposta de alteração estatutária que tinha como principais objetivos separar a gestão do futebol do clube social e viabilizar a transformação do São Paulo em sociedade anônima do futebol. Quem encaminhou o documento à comissão legislativa do clube foi Olten Ayres de Abreu. A proposta foi recusada no início de abril de 2026, mas, antes disso, Olten criou uma “comissão de reforma estatutária” para tratar do mesmo tema. Mais tarde, Olten destituiu a comissão legislativa e a substituiu por outra, com participação de Ives Gandra Martins, um dos componentes do conselho consultivo do clube.
Em sua representação contra Olten na comissão de ética, o presidente em exercício Harry Massis o acusa de quebra de governança e violação à ordem estatutária e ao regular funcionamento do conselho, entre outros, por não ter submetido a opinião da comissão legislativa sobre a reforma do estatuto à apreciação do conselho deliberativo. A base da acusação de gestão temerária é o engavetamento da proposta pelo presidente do conselho, impedindo que o órgão tivesse conhecimento da mesma. Os desdobramentos do caso revelaram algo ainda mais grave: indícios de má fé na utilização de um suposto parecer do conselho consultivo. Na proposta enviada no final do ano passado havia uma carta assinada por José Eduardo Mesquita Pimenta e Ives Gandra, respectivamente, presidente e secretário executivo do conselho consultivo. Em nome do órgão formado por ex-presidentes do São Paulo, eles expressavam opinião favorável às sugestões de Julio Casares e Olten Ayres de Abreu, mencionando uma reunião realizada para tratar do assunto.
Ocorre que a comissão de ética descobriu que tal reunião não aconteceu e o conteúdo da carta não representa as opiniões de seus signatários. Em email enviado a Olten em 24 de abril, Mesquita Pimenta e Gandra Martins esclarecem que houve “apenas conversas isoladas com alguns conselheiros” que não refletem “o tipo de discussão que resultou na referida sugestão”. No mesmo dia, também por email ao presidente do conselho deliberativo do São Paulo, Ives Gandra Martins renunciou à sua posição na comissão legislativa, alegando motivos de saúde. De acordo com a determinação da comissão de ética, o pedido de abertura de inquérito policial para apurar as circunstâncias do suposto parecer do conselho consultivo deve ser feito na próxima segunda-feira.
Em meio ao acalorado debate interno sobre o momento do São Paulo e a participação de “continuístas e reformistas” num conflito sobre o futuro do clube, teme-se que as pressões para a aprovação da reforma estatutária – uma agenda empreendida, frise-se, por Casares e Olten Ayres – sejam um esforço para possibilitar uma operação de venda do departamento de futebol do clube, justamente num período de crise institucional e incerteza. A decisão da comissão de ética a respeito da suspensão de Olten Ayres de Abreu será votada em reunião extraordinária do conselho deliberativo na próxima sexta-feira, dia 8.
Fonte: ESPN