Como nova tiqueteira virou guerra no São Paulo com projeto de R$ 500 mi

O presidente do conselho deliberativo do São Paulo Olten Ayres de Abreu Júnior criou na semana passada uma comissão para analisar o acordo do clube com a Ticketmaster, escolhida pela diretoria como vencedora da concorrência para gerir ingressos e sócio torcedor do clube.

A iniciativa aconteceu depois de uma reclamação da NewC Sport ao conselho. A empresa estruturou com parceiros uma proposta que envolvia o levantamento de R$ 500 milhões para saldar as dívidas do São Paulo, além de assumir as gestões de ingressos e sócio torcedor, e alega que não foi recebida com a seriedade que o projeto exigia e que não teve condições de competir em igualdade na concorrência.

A empresa foi acompanhada no processo pela Luarenas, parceira estratégica no Brasil que dá suporte a NewC com entrega de catracas e pessoal para operação de arenas.

O presidente do São Paulo Harry Massis Jr. criticou a empresa e abertura da comissão, que inaugura uma nova guerra política interna no clube. “Trata-se de uma tentativa de prejudicar um processo estruturado, conduzido ao longo de mais de quatro meses, com análise das áreas responsáveis e submissão às instâncias competentes de governança do São Paulo Futebol Clube”, diz parte de nota publicada pelo dirigente.

A coluna teve acesso a documentos do processo de concorrência, detalhes das propostas e versões, e mostra os bastidores que transformaram a contratação da nova tiqueteira em mais um turbulento capítulo da política clube.

NewC não esteve entre as empresas convidadas
O processo do São Paulo para escolher uma nova tiqueteira a partir de 2027 – a atual, Total Acesso, será substituída – começou no início de abril, com o envio a algumas empresas de uma tomada de preços. A NewC não esteve entre as convidadas inicialmente, mas soube do processo pelo mercado. De origem dinamarquesa, a empresa opera no Brasil o Avanti, programa de sócio torcedor do Palmeiras.

A empresa contatou o ex-diretor de marketing Eduardo Toni e enviou uma proposta ainda no final de abril. Na primeira reunião com o São Paulo, no dia 26 de maio, a NewC diz ter sido informada pelo clube que tinha baseado sua proposta em um documento desatualizado, o da tomada de preços, que não era mais válido, e que precisou refazer a proposta com base em um novo edital, o definitivo.

O São Paulo contesta essa versão – pessoas que participaram do processo de concorrência afirmam que todas as empresas receberam o novo e definitivo edital no dia 17 de abril, no período da tarde, inclusive a NewC, que teria recebido a comunicação as 15h50. Representantes da empresa negam terem recebido essa mensagem. No dia 24 de abril, em mensagem à qual a coluna teve acesso, a NewC confirma com o então diretor de marketing Eduardo Toni que fez a proposta com base no documento antigo.

Críticas ao edital por potencialmente favorecer Ticketmaster
A coluna teve acesso ao edital publicado pelo São Paulo, que estabelece um critério de avaliação das propostas baseado em quatro lotes:

1) As condições e prestação de serviços de bilheteria e controle de acesso – peso 20% na nota)
2) Antecipação de receitas proposta (valor e condições) – peso 40% da nota
3) Valor a ser pago pela exploração de um camarote corporativo – peso 35% da nota
4) Ofertas de repasses por exploração em dias sem jogos – peso 5% na nota

No item 3) reside uma das principais críticas da NewC ao processo. No valor a ser pago pelas empresas pelo uso do camarote estão incluídos ingressos para jogos, mas não para shows. O edital estabelece que “ingressos para shows poderão ser adquiridos diretamente com a produtora dos eventos e conforme suas regras e procedimentos”.

A produtora de shows no Morumbis é a Live Nation, controladora da Ticketmaster. Na prática, a Ticketmaster pode adquirir esses ingressos de uma empresa dentro do seu próprio grupo econômico. O valor a ser pago pelo camarote teve mais peso no processo do que a própria prestação dos serviços de tiqueteira, sendo um dos pilares da concorrência.

O valor pedido pelo camarote era de R$ 30 milhões por cinco anos – Ticketmaster venceu a concorrência propondo exatamente os R$ 30 milhões, contra uma oferta de R$ 13 milhões da NewC, que poderia aumentar até R$ 30 milhões a depender do acesso a ingressos de shows.

Fontes na diretoria do São Paulo afirmam que o valor de R$ 30 milhões pedido pelo camarote foi calculado exclusivamente em cima de jogos de futebol, sem contemplar os shows. Dentro do clube, uma eventual vantagem da Ticketmaster em obter e explorar ingressos para shows é considerada uma questão externa ao edital.

O valor de antecipação de receitas da Ticketmaster (R$ 110 milhões) também foi superior ao oferecido inicialmente pela NewC (R$ 90 milhões). A coluna confirmou que a NewC questionou dirigentes do clube sobre qual o valor pretendido na antecipação – os R$ 90 milhões derrotados foram uma sugestão que partiu da própria diretoria financeira do São Paulo.

Com esses números, a Ticketmaster foi apontada vencedora do processo, com valores superiores nos dois quesitos de maior peso na avaliação.

O que é proposta de R$ 500 milhões
Com dois parceiros, a Luarenas, que gere catracas, funcionários e operação de estádio, e a Angá, gestora especializada em fundos de investimento, a NewC elaborou uma nova proposta, mais complexa, de antecipação de R$ 500 milhões que, segundo o grupo, poderiam equacionar toda a dívida bancária do São Paulo.

Essa proposta envolve a criação de um fundo de investimentos atrelado à contratação da NewC como tiqueteira e gestora do sócio-torcedor do São Paulo.

As empresas entram com R$ 500 milhões em capital, antecipados ao São Paulo. O clube coloca como garantia no fundo o direito de superfície do Morumbis, e vincula a ele cinco linhas de receita do estádio: bilheteria, publicidade e naming rights, camarotes e cativas, concessões e aluguel do estádio.

Na prática, o Sâo Paulo pegaria, de forma antecipada, até R$ 500 milhões. As receitas do estádio, estimadas, em média, em R$ 170 milhões ao ano, seriam utilizadas para remunerar os juros aos investidores, de CDI + 3,5% (hoje em torno de 17,5%). Após um período de carência a ser definido pelas partes, elas passariam também a ser usadas para pagamento dos próprios R$ 500 milhões.

O projeto duraria entre 5 e 10 anos, mas o prazo poderia ser negociado. O direito de superfície do estádio, que na prática envolveria o poder sobre a gestão, é uma garantia. Para que exista o risco do São Paulo perder o controle do Morumbis, seria necessária uma queda de receita do estádio a ponto dela se tornar insuficiente para remunerar os investidores do fundo.

Pessoas ligadas à diretoria do São Paulo apontam temor em dois pontos: o primeiro seria o risco de perda da gestão do estádio – a presença da Luarenas, especializada em gestão de arenas, chegou a ser apontada à coluna com um possível sinal de interesse no grupo da gestão do Morumbis; o segundo ponto é a disponibilidade do aporte milionário e o processo de captação do investimento – o próprio clube não considera que tenha, nesse momento, receitas disponíveis para serem amarradas ao investimento que permitam uma antecipação de R$ 500 milhões.

A ideia foi apresentada ao São Paulo em reunião no dia 6 de julho. A coluna teve acesso a detalhes do teor da reunião. Nela, as empresas afirmaram não haver nenhum interesse em administrar o estádio – o uso do estádio apenas como garantia consta da apresentação feita. A Angá afirmou ter esse capital sob gestão, e estimou em dois a três meses o prazo para estruturar o projeto.

O São Paulo considerou esse prazo longo. Havia também questões a serem analisadas sobre a disponibilidade das receitas, o fato de parte delas estarem envolvidas com o FIDC da Galápagos, outro produto financeiro do clube feito na gestão Casares, e do ex-presidente ter firmado acordos de exclusividade com a gestora financeira.

Participaram da conversa do lado do São Paulo as diretorias de marketing e financeira do São Paulo, além de um conselheiro independente do Conselho de Administração. Pelas empresas, gestores da Angá, da Luarenas/NewC e do Demarest Advogados. A reunião terminou com a promessa de um retorno pelo clube em até dois dias, o que não aconteceu.

Conversas não se desenvolvem e São Paulo avança pela Ticketmaster
Na reclamação feita ao conselho deliberativo do São Paulo, a NewC afirma que ficou sem resposta por dez dias após a reunião – a coluna teve acesso a documentos que corroboram essa versão.

Orientado pela própria diretoria do clube, o grupo de empresas foi direcionado para tratar o caso com um membro do conselho de administração. No dia 22 de julho, a NewC e a Luarenas solicitaram uma reunião com o presidente do São Paulo Harry Massis Jr. e com o resto do conselho de administração para apresentar o projeto. Nesse e-mail, ficam de trabalhar em uma versão mais detalhada da proposta nesse meio tempo.

Ao longo do processo, Massis não participou diretamente das negociações em nenhum momento.

A resposta do São Paulo veio quase 15 dias depois, no dia 5 de agosto: a NewC foi informada que a proposta tinha sido apresentada fora do contexto da concorrência para tiqueteira, e seria analisada separadamente, apenas em relação à antecipação de receitas e operação financeira. O clube ainda pediu que a proposta formal mais detalhada fosse enviada assinada por NewC, Luarenas e Angá.

No mesmo dia, diversos veículos de mídia noticiaram que a Ticketmaster era a vencedora da concorrência.

Após mais uma troca de e-mails, empresas do grupo que elaborou a proposta da NewC informaram o clube no dia 12 de agosto que não haveria negociação de antecipação de receitas separadamente de uma proposta para se tornar tiqueteira do São Paulo. Aqui aconteceu a ruptura nas negociações.

O que diz a NewC
A coluna procurou a NewC com questionamentos sobre o caso. A empresa enviou uma nota.

“A NewC participa deste processo seletivo participa deste processo seletivo no São Paulo Futebol Clube, com grande honra e entusiasmo, enxergando nesta oportunidade uma convergência perfeita entre a nossa expertise internacional e a grandeza do clube.

Nosso compromisso é colocar a serviço do Tricolor o que há de mais moderno em tecnologia, contribuindo de forma estratégica e sustentável para o fortalecimento e o crescimento contínuo do clube dentro e fora do campo.

 

Nesse momento, preservando a relação institucional e a confidencialidade do processo, preferimos não entrar em detalhes sobre o processo, para evitar qualquer tipo de interferência. Acreditamos que nossa proposta é inovadora e muito benéfica ao clube no longo prazo”.

O que diz o São Paulo
Nos bastidores, fontes ligadas à direção do São Paulo defendem o processo de concorrência como justo e igualitário e classificam a proposta da Ticketmaster como a mais vantajosa. O projeto de R$ 500 milhões, segundo elas, extrapola o escopo do edital e envolve fontes de receitas e uma engenharia financeira mais complexas.

Há restrições quanto ao envolvimento do direito de superfície de Morumbi.

Oficialmente, o presidente do clube Harry Massis Jr. emitiu nota com críticas à postura da NewC e à comissão criada para investigar o acordo com a Ticketmaster.

 

Fonte: Uol (Fernando Lopes)

Nota do PP: finalmente uma matéria séria, abordando um assunto que estamos denunciando há dois meses. Fomos vítimas (eu, Dario Campos e Ramoni Artico) da virilidade de Massis, Pupo e Serafim, através do Fenando Mello. Até acusados de estarmos recebendo comissão da NewC fomos acusados. Abri minhas contas e as mantenho abertas. Quero ver se Fernando Mello agora vai “cancelar” o Pedro Lopes, brilhante jornalista do Uol.

2 comentários em “Como nova tiqueteira virou guerra no São Paulo com projeto de R$ 500 mi

  1. Até (até) não é garantia de 500 milhões!! Além disso, a NewC apresentou uma proposta fora do escopo do projeto!!!

    O próprio Flávio Marques está dizendo isso, portanto, desta vez, o processo foi correto e está claro que a empresa quer tumultuar!!!

    Agora, querer denegrir a imagem do Paulo Pontes é um absurdo!! Um cara que luta há muito tempo pelo SPFC!! Diversas denúncias já foram divulgadas aqui !! Ele tem credibilidade!

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